Cotidiano | 25/03/2026 | Atualizado em: 25/03/26 ás 12:00

A história de como Jaraguá do Sul nasceu e cresceu em torno dos seus rios

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A história de como Jaraguá do Sul nasceu e cresceu em torno dos seus rios

Travessia de balsa sobre o rio Itapocu em 1907. Foto: Brigitte Brandenburg‎/Antigamente em Jaraguá do Sul

Muito antes de Jaraguá do Sul ter ruas e bairros bem definidos, pontes ou indústrias, a região já era marcada pelas belezas naturais e as riquezas dos rios.

Os rios Itapocu e Jaraguá são, na verdade, grandes protagonistas da história da cidade. Essas águas serviram como rota de chegada, referência geográfica, fonte de abastecimento para as primeiras casas e negócios, e base para o plantio.

Assim como o historiador grego Heródoto definiu o Egito como “uma dádiva do Nilo”, ao explicar que toda a civilização egípcia dependia daquele rio para sobreviver e prosperar, em uma escala diferente, a comparação ajuda a entender o que aconteceu aqui no Norte de Santa Catarina.

No último dia 22 de março foi comemorado o Dia da Água, e é a relação com os rios, desde os primórdios de Jaraguá do Sul, que guia esta matéria especial do JDV em parceria com a Associação dos Municípios do Vale do Itapocu (Amvali).

Descubra como os rios moldaram Jaraguá do Sul, da colonização ao saneamento e desenvolvimento econômico da cidade.
Foto: Marcio Martins

>> Leia também: Quais são, onde nascem e para onde vão os rios de Jaraguá do Sul e região? Veja nos mapas

A chegada pelo rio que marcou o início da história

Os rios já eram referência muito antes da ocupação oficial da região. Séculos antes da chegada dos colonizadores, o vale do Itapocu integrava uma das ramificações do Caminho do Peabiru, uma rede de trilhas indígenas que ligava o litoral ao interior do continente.

Foi por essa rota que, em 1541, a expedição do espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca entrou pela foz do rio Itapocu e seguiu em direção à serra, guiada por indígenas. O trajeto combinava trechos por terra e pelo próprio rio.

Nesse contexto ocorreram, mais de 300 anos mais tarde, as primeiras iniciativas de ocupação no vale, sempre guiadas pelos rios.

Em 1851, quando teve início a colonização do Domínio Dona Francisca, nas terras da Princesa Dona Francisca e do Príncipe de Joinville, o rio Itapocu já aparecia como um dos limites naturais do território. Anos depois, em 1870, a Lei Federal nº 1904 ampliou a demarcação dessas terras em Santa Catarina.

Por volta de 1873, o engenheiro e coronel honorário do Exército Brasileiro Emilio Carlos Jourdan, de ascendência belga, chegou à região navegando pelo rio Itapocu.

Já em 1875, Jourdan foi convidado para medir e demarcar 25 léguas quadradas no Vale do Itapocu e do Rio Negro, formalizando o contrato em 21 de janeiro de 1876. Na mesma época, também arrendou 430 hectares de terras da Princesa Isabel.

A barra Rio Jaraguá, onde Jourdan aportou Foto: Google maps/IA

Ele se estabeleceu na margem direita do rio e trouxe consigo cerca de dezenas de trabalhadores. O ponto de chegada foi a barra do rio Jaraguá, onde ocorre a confluência com o Itapocu. Dali, o grupo seguiu pela margem até o local onde começaram as primeiras atividades produtivas.

Assim, naquele trecho, onde a geografia favorecia o acesso e o uso da água, surgiu o Estabelecimento Jaraguá. O nome Jaraguá, de origem tupi-guarani, é associado ao sentido de “Senhor do Vale”, reforçando a ligação entre território e ocupação.

Barco com três pessoas navegando no rio Itapocu em registro histórico de Jaraguá do Sul
Registro histórico, possivelmente das primeiras décadas do século 20. | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Um projeto que dependia diretamente da força da água

A proposta de Jourdan com o Estabelecimento Jaraguá era tocar um negócio agrícola-industrial, com plantação de cana e produção de açúcar. Para isso, foi necessário levar equipamentos específicos até a região; as máquinas destinadas à primeira fábrica de açúcar foram transportadas subindo o rio Itapocu, enfrentando a força das correntezas.

Em determinados trechos, foi preciso realizar represamentos para permitir o avanço do transporte.

Com ajuda dos cerca de 60 trabalhadores, Jourdan estruturou ali um núcleo produtivo que incluía, além do engenho de cana, serraria, olaria, engenho de fubá e de mandioca. Ou seja, o rio não servia apenas de caminho, ele sustentava o funcionamento do empreendimento.

Foto: Pixabay

Antes das pontes, a travessia do rio Itapocu era feita por balsas. A pequena população da Colônia Jaraguá, que já somava cerca de 8 mil habitantes em 1912, dependia desse sistema para se deslocar e escoar a produção agrícola. O transporte era feito a partir de um ponto conhecido como porto Czerniewicz, ao lado do comércio local, onde colonos levavam suas cargas, muitas vezes transportadas em lombos de animais.

A necessidade de ligação entre as margens levou à construção da primeira ponte sobre o rio Itapocu, em 1909. A estrutura, de madeira e com cerca de um metro acima do nível normal do rio, teve vida curta e foi destruída por uma enchente em 1911.

Dois anos depois, em 1913, foi inaugurada a primeira ponte de ferro da cidade, a Abdon Batista, com cerca de 90 metros de extensão, ligando as ruas Hugo Braun e Max Wilhelm.

Primeira ponte de ferro foi inaugurada em 1913 | Foto: Arquivo

A estrutura havia sido originalmente enviada da Inglaterra para a África do Sul, mas acabou desembarcando em Florianópolis. O deputado Abdon Batista viabilizou sua instalação na Colônia Jaraguá, atendendo a uma das principais demandas da época.

Naquele período, a travessia do rio era essencial para o desenvolvimento da região. Sem ferrovia, que só chegaria ao Vale do Itapocu em 1913, e com poucas estradas de terra, a produção agrícola dependia diretamente dessas conexões para alcançar outros centros.

A base econômica evoluiu com a força da água

Após a chegada de Emilio Carlos Jourdan e o início das primeiras atividades produtivas, a presença dos rios passou a influenciar diretamente a organização econômica da região, com a chegada dos imigrantes europeus.

Em um primeiro momento, a água teve papel essencial na agricultura de subsistência, na agricultura de abastecimento e na criação de animais. As famílias dependiam dos rios para o abastecimento, para pequenas irrigações e para a manutenção das propriedades, o que garantiu as condições básicas para permanência e crescimento da população local.

Ponte sobre o rio Itapocu com casas ao redor em Jaraguá do Sul
Foto: Divulgação/Arquivo histórico

Com a Proclamação da República, em 1889, as terras dotais passaram ao domínio da União e, em 1893, à jurisdição dos estados. A partir de 1891, as terras devolutas à margem direita do rio Jaraguá começaram a ser colonizadas pelo Estado, especialmente em áreas como Garibaldi e Jaraguá Alto, com imigrantes húngaros, e em regiões como Rio da Luz e Rio Cerro, com colonizadores alemães, além da presença italiana neste último.

Com o passar do tempo, essa mesma disponibilidade de água passou a ser aproveitada de outras formas. Os rios começaram a ser utilizados também para captação em maior escala, geração de energia mecânica, como na movimentação de moinhos, e posteriormente para produção de energia elétrica por rodas d´água.

Esse cenário contribuiu para o surgimento e a diversificação das atividades econômicas no município. Um exemplo é a Urbano Alimentos, que nasceu a partir da iniciativa de Urbano Franzner. Após receber um terreno de seu pai, construiu um canal para desviar parte da água do rio Jaraguá.

Foto: reprodução/Urbano Alimentos

A água movimentava uma roda d’água, responsável por gerar a energia necessária para o funcionamento de um moinho. Inicialmente, a atividade era voltada à produção de fubá. Já na década de 1960, o negócio passou a atuar também no beneficiamento de arroz.

A fundação do Samae

O Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae) faz parte da estrutura que sustenta o saneamento em Jaraguá do Sul desde 28 de maio de 1968. Criado para operar, manter e ampliar os serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de resíduos e drenagem urbana, o órgão se consolidou ao longo das décadas como uma referência no setor em Santa Catarina.

Registros anteriores mostram que a preocupação com o saneamento em Jaraguá do Sul não começou com a criação do Samae. Já na década de 1930, havia um regulamento voltado à prevenção de doenças transmissíveis, indicando que o tema já era tratado, ainda que de forma pontual.

Foi apenas com a criação do Samae, em 1968, que essa preocupação passou a ter uma estrutura permanente, com organização dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário no município.

Quando o crescimento da cidade trouxe impactos aos rios

Se os rios foram essenciais para o crescimento da cidade, o mesmo desenvolvimento trouxe consequências.

Até os anos 1980, não havia cuidado específico com a preservação ambiental. Dejetos industriais e residenciais eram lançados diretamente nos rios, sem ações oficiais voltadas à proteção da qualidade da água.

Naquele período, poucas empresas possuíam estrutura de tratamento de efluentes, entre elas Malwee, Marisol e Weg.

Estação de tratamento de resíduos Malwee Foto: Google Maps

O aumento da preocupação com o meio ambiente levou a uma mudança de postura. Em 1986, foi criado o Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema), que passou a definir ações voltadas à despoluição da água, do ar e do solo.

Esse foi um dos primeiros passos concretos para enfrentar a degradação dos rios no município.

Em junho de 1990, outra medida importante entrou em prática: a instalação do Posto Avançado de Controle Ambiental (Pacam), ligado à então Fatma, hoje Instituto do Meio Ambiente (IMA).

A estrutura contava com engenheiro ambiental e outros profissionais, e passou a exigir das empresas a implantação de sistemas de tratamento de efluentes, com prazos definidos. E esse processo deu início à revitalização do rio Itapocu.

As ações contaram com apoio de diferentes instituições, como a Prefeitura de Jaraguá do Sul, a Associação Comercial e Industrial e a Associação dos Municípios do Vale do Itapocu (Amvali).

Vista aérea de Jaraguá do Sul com destaque para a área urbana e montanhas ao fundo
Foto: Divulgação/Prefeitura de Jaraguá do Sul

Em dezembro de 1992, 33 das 42 empresas cadastradas no programa de recuperação estavam com as obras em dia.

Mesmo assim, a continuidade do Pacam sofreu interrupções, já que dependia de decisões políticas estaduais. Ainda assim, o município seguiu adotando medidas voltadas à recuperação ambiental, seja por iniciativas locais ou por legislação federal.

Anos mais tarde, em junho de 2000, foi criado o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Itapocu. Desde então, o grupo continua atuando nas ações relacionadas à gestão dos recursos hídricos e à preservação da bacia.

>> Leia também: Da indústria ao café da manhã: quais setores mais utilizam as águas do Rio Itapocu?

O problema do esgoto e a mudança nos anos 1990

Até meados da década de 1990, Jaraguá do Sul não possuía uma rede estruturada de esgoto. Todo o volume de dejetos era direcionado à tubulação pluvial e despejado diretamente nos rios, sem o devido tratamento. A partir de 1998, no mandato do prefeito Geraldo Werninghaus e do secretário da saúde Irineu Pasold, teve início a elaboração de projetos técnicos e a busca por recursos para implantar o sistema de tratamento.

Com apoio com do deputado Ademar Frederico Duwe, o município aprovou financiamento de R$ 12.285.000 com a Caixa Econômica Federal, por meio do Programa Pró-Sanear. As obras, no entanto, começaram com recursos próprios: no dia 27 de julho de 1998, foi iniciada, na Rua João Planincheck, a implantação da primeira rede coletora de esgoto sanitário de Jaraguá do Sul.

Foto: prefeitura de Jaraguá do Sul

A primeira Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) entrou em operação no ano 2000, no bairro Água Verde. Depois vieram a ETE Ilha da Figueira, em 2002, a ETE Nereu Ramos, em 2003, e a ETE São Luís, inaugurada em 2016.

Veja detalhes de alguns desses primeiros projetos:

  • Nereu Ramos: estação para cerca de 5 mil pessoas, com rede de aproximadamente 10 mil metros e investimento estimado em R$ 1,2 milhão;
  • Francisco de Paula: unidade planejada para atender cerca de 25 mil moradores, com etapas como floculação, decantação e desinfecção;
  • Ilha da Figueira: duas unidades previstas para atender mais 25 mil pessoas, com rede estimada em 110 mil metros e custo projetado em R$ 1,6 milhão.

Os projetos também incluíam obras complementares, aquisição de equipamentos e desapropriações necessárias para implantação das estruturas. E, com a continuidade das obras ao longo dos anos, o sistema foi ampliado e estruturado.

Com o avanço das obras e novos investimentos, o sistema passou a contar com mais de 600 quilômetros de rede de esgoto, incluindo coleta, afastamento e tratamento.

Jaraguá do Sul entre os melhores índices do país

Com a ampliação do sistema ao longo dos anos, Jaraguá do Sul passou a contar com uma rede integrada de coleta, transporte e tratamento de esgoto.

Hoje, o município atinge cerca de 90% de cobertura de esgoto tratado, índice muito superior à média de Santa Catarina, que gira em torno de 23%, e também acima da média nacional – que fica próxima de 50%. O resultado antecipa metas do Marco Legal do Saneamento, previsto para 2033.

Operado pelo Samae, o sistema atende 99,95% da população com água potável e mais de 90% com esgoto tratado. Ao todo, são cerca de 1,6 mil quilômetros de redes, com mais de 72 mil ligações de água e 57 mil de esgoto, além de cobertura quase total na coleta de resíduos sólidos.

O cenário contrasta muito com o restante do estado, onde 59,2% dos municípios não possuíam rede de esgoto em 2020. Estudos apontam que a ampliação do saneamento está diretamente ligada à redução de doenças e custos na área da saúde.

Como isso impacta sua vida?

Em Jaraguá do Sul, os rios não fazem parte apenas da paisagem. Eles estão na origem da cidade, no desenvolvimento das atividades econômicas e nas decisões que moldaram o saneamento e a gestão ambiental ao longo das últimas décadas. Entender essa relação ajuda a compreender por que investimentos em tratamento de esgoto, preservação e controle ambiental têm impacto direto na qualidade de vida da população e no futuro do município.

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Marcio Martins

Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público. Observador, contador e protagonista de histórias, conheço Jaraguá do Sul como a palma da mão

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