Como Jaraguá do Sul votou nas 9 eleições presidenciais desde a redemocratização em 1989?
| José Cruz/Agência Brasil

Como Jaraguá do Sul votou nas 9 eleições presidenciais desde a redemocratização em 1989?

Max Pires

/ Por Max Pires

Levantamento reúne os resultados de 1989 a 2022 na cidade, com número de eleitores, comparecimento e desempenho de cada candidato.

Resumo da matéria

Eleitorado: passou de 44.835 eleitores em 1989 para 122.929 em 2022 Comparecimento: caiu de 94,96% em 1989 para 87,08% em 2022 Coincidência com o país: a cidade votou no candidato eleito presidente em sete das nove eleições Maior placar: 83,23% a 16,77% no segundo turno de 2018 Menor diferença: 506 votos no segundo turno de 2010 Candidatos: 21 nomes receberam votos na cidade em 1989, contra 11 em 2022

A história das eleições presidenciais brasileiras passou por diferentes fases ao longo das décadas. Depois de um período de mais de 20 anos de Ditadura Militar – iniciado em 1964 -, o país retomou o caminho da democracia e voltou a escolher diretamente o presidente da República em 1989.

Entre 1983 e 1984, o movimento Diretas Já mobilizou milhões de brasileiros pela retomada do voto popular e se tornou um dos principais símbolos do processo de redemocratização, e é considerado o maior movimento de massa da história do Brasil.

Desde 1989, então, nove eleições presidenciais foram realizadas. Mas como será que Jaraguá do Sul votou em cada uma dessas oportunidades?

O JDV reuniu os resultados das eleições presidenciais realizadas entre 1989 e 2022, com números sobre votação, comparecimento e desempenho dos candidatos, a partir do repositório de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – compilado pelo site Geografia do Voto.

Urna eletrônica da Justiça Eleitoral usada nas eleições brasileiras
Urna eletrônica da Justiça Eleitoral, símbolo do processo de votação no Brasil. | Foto: Roberto Jayme/TSE

Eleições de 1989

A primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar levou 42.575 jaraguaenses às urnas, de um eleitorado de 44.835. O comparecimento de 94,96% é o mais alto de toda a série, e a abstenção ficou em apenas 2.260 pessoas.

Fernando Collor de Mello liderou o primeiro turno com 16.725 votos, ou 40,52%. O segundo lugar ficou com Guilherme Afif Domingos, que fez 11,78%, seguido por Leonel Brizola, com 9,98%. Luiz Inácio Lula da Silva apareceu só em quarto, com 3.889 votos e 9,42%. Logo atrás vieram Paulo Maluf, Ulysses Guimarães e Mário Covas, todos entre 8% e 9%.

O quarto lugar local contrastava com o quadro nacional. No Brasil, Lula terminou aquele primeiro turno em segundo e foi ao segundo turno contra Collor.

Cédula eleitoral do 2º turno nas Eleições de 1989. | Fonte: TSE

Um nome que voltaria a aparecer nos anos seguintes estreou discretamente: Enéas Carneiro somou 199 votos, 0,48% do total.

No segundo turno, Collor abriu 65,47% contra 34,53%. No país, o placar foi bem mais apertado, 53,03% a 46,97%. A cidade deu ao vencedor quase 12 pontos a mais do que a média nacional.

Presidente eleito: Fernando Collor de Mello (PRN)

Foto: Agência Brasil

Eleições de 1994

Segunda disputa direta para presidente após a Constituição Federal de 1988. O pleito aconteceu em meio ao início de uma nova fase econômica do país, marcada pelo Plano Real, lançado naquele ano, que ajudou a controlar a inflação e influenciou o cenário eleitoral.

Em Jaraguá do Sul, o eleitorado já havia crescido para 55.379 pessoas. Compareceram 50.321, o equivalente a 90,87%.

Aqui, Fernando Henrique Cardoso venceu com 19.006 votos, 42,07%. A curiosidade está no segundo lugar. O catarinense Esperidião Amin fez 9.895 votos e passou à frente de Lula, que ficou com 9.432. A diferença entre os dois foi de apenas 463 votos.

Duas trajetórias opostas marcaram aquela eleição na cidade. Enéas Carneiro, que tivera 199 votos em 1989, saltou para 3.908 e superou nomes tradicionais. Brizola percorreu o caminho inverso, caindo de 4.118 para 653.

Nacionalmente, FHC venceu no primeiro turno com 54,28% dos votos válidos, contra 27,04% de Lula. O tucano teve aqui um desempenho 12 pontos abaixo do que registrou no Brasil.

Presidente eleito: Fernando Henrique Cardoso (PSDB)

Eleições de 1998

A eleição presidencial de 1998 foi a terceira disputa para presidente desde a Constituição de 1988, e ocorreu poucos meses após a aprovação da emenda que permitiu a reeleição para cargos do Executivo. A disputa também marcou uma nova etapa da modernização do processo eleitoral brasileiro, com o uso das urnas eletrônicas – que já haviam sido utilizadas dois anos antes nas eleições municipais.

Foto: Divulgação/TRE

Em Jaraguá do Sul, o eleitorado chegou a 65.578 e o comparecimento caiu para 88,58%, com 58.088 votantes.

FHC foi reeleito no primeiro turno e fez 54,50% em Jaraguá do Sul. Lula ficou com 35,12%, seu melhor resultado na cidade até então. Ciro Gomes estreou com 4.012 votos, 7,79%, e Enéas recuou para 963.

No país, FHC teve 53,06% e Lula, 31,7%. A diferença entre o resultado local e o nacional foi de 1,44 ponto percentual, a menor de toda a série histórica. Nenhuma outra eleição colocou a cidade tão perto da média brasileira.

Outro dado chama atenção naquele ano. Brancos e nulos somaram 6.583 votos, 11,33% de quem compareceu, o maior índice registrado em qualquer primeiro turno desde 1989.

Presidente reeleito: Fernando Henrique Cardoso (PSDB)

Foto: Agência Brasil

Eleições de 2002

Com 77.326 eleitores aptos e 69.652 votantes, aquela eleição produziu o resultado mais destoante de toda a série.

Lula fez 42.691 votos, 64,55%, e venceu em Jaraguá do Sul ainda no primeiro turno. José Serra ficou com 20,77%, Anthony Garotinho com 8,20% e Ciro Gomes com 5,99%. No Brasil, o petista teve 46,44% naquela rodada, ou seja, a cidade deu a ele 18 pontos a mais.

Vale lembrar que, treze anos antes, o mesmo candidato havia ficado em quarto lugar aqui, atrás de Afif Domingos e Brizola, com menos de 4 mil votos.

No segundo turno, o placar local foi de 70,25% a 29,75%, enquanto o país registrou 61,27% a 38,73%. Foi a única das nove eleições em que o petista teve desempenho superior em Jaraguá do Sul ao que obteve nacionalmente.

Presidente eleito: Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

Eleições de 2006

A eleição presidencial de 2006 foi a quinta disputa direta para presidente após a redemocratização do Brasil. A votação também marcou a segunda vez em que um presidente eleito pelo voto popular buscava um segundo mandato consecutivo.

O eleitorado em Jaraguá do Sul subiu para 88.457 e 78.466 pessoas votaram na primeira rodada.

Geraldo Alckmin liderou com 35.636 votos, 48,46%, contra 42,42% de Lula. No país, a ordem era inversa, com Lula em 48,61% e Alckmin em 41,64%. Heloísa Helena ficou em terceiro na cidade, com 3.976 votos, à frente de Cristovam Buarque.

No segundo turno, Jaraguá do Sul mudou de lado e deu 53,55% a Lula, contra 46,45% do tucano. É a única eleição da série em que o vencedor local do primeiro turno não repetiu o feito na rodada seguinte.

O detalhe mais curioso está nos números absolutos. Alckmin saiu de 35.636 votos para 33.663 entre um turno e outro, perdendo 1.973. O mesmo aconteceu com ele nacionalmente, situação rara na história das eleições presidenciais brasileiras.

Presidente reeleito: Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Eleições de 2010

O pleito entrou para a história por eleger Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da República. Na época, Jaraguá do Sul passou de 100 mil eleitores pela primeira vez, com 101.270 aptos no primeiro turno.

Dilma Rousseff liderou com 44,89%, seguida por José Serra com 39,06% e Marina Silva com 14,14%. Plínio de Arruda Sampaio teve 1.368 votos. A vantagem da petista era de 4.831 votos naquele momento.

O segundo turno produziu o resultado mais apertado da série. Dilma fez 40.731 votos e Serra, 40.225, diferença de 506 votos ou 0,62 ponto percentual. A vantagem inicial havia encolhido quase 90%. No país, a margem mais confortável para ela, 56,05% a 43,95%.

Aquela rodada decisiva também registrou a maior abstenção proporcional já verificada na cidade. Ficaram fora das urnas 16.389 eleitores, 16,18% do total, numa disputa decidida por pouco mais de meio milhar de votos.

Presidente eleita: Dilma Rousseff (PT)

Foto: Roberto Stuckert Filho/Palácio do Planalto

Eleições de 2014

Naquele ano, o pleito marcou a ampliação do uso da identificação biométrica de eleitores, tecnologia adotada pela Justiça Eleitoral para reforçar a segurança do processo de votação. Além disso, foi a disputa mais acirrada da história das eleições presidenciais até então, com a definição do segundo turno por uma diferença pequena entre os candidatos.

Com 110.428 eleitores e 94.192 votantes, o primeiro turno inverteu por completo o quadro brasileiro.

Aécio Neves fez 52.226 votos, 60,19%, mais que o dobro dos 25,21% de Dilma. No país, a presidente liderava com 41,59% contra 33,55% do tucano. Marina Silva ficou em terceiro na cidade, com 10,94%, e Luciana Genro somou 1.250 votos.

No segundo turno, Aécio ampliou para 69,67% contra 30,33%, abrindo 35.233 votos de vantagem em Jaraguá do Sul.

O país decidiu no sentido oposto e por pouco. Dilma foi reeleita com 51,64% contra 48,36%, na eleição mais apertada até então. Pela primeira vez desde 1989, o candidato mais votado na cidade não foi o eleito presidente.

Presidente reeleita: Dilma Rousseff (PT)

Eleições de 2018

A eleição presidencial de 2018 foi a oitava disputa direta para presidente. O pleito aconteceu após uma mudança no comando do país, com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a posse do vice-presidente Michel Temer, que permaneceu no cargo até o fim do mandato.

A eleição também ocorreu com novas regras eleitorais em vigor, incluindo a proibição do financiamento empresarial de campanhas e a redução do período de propaganda eleitoral.

O eleitorado registrou a única retração de toda a série, caindo de 110.428 para 109.610 pessoas. Ainda assim, o comparecimento de 91,03% foi o maior desde 1989.

Jair Bolsonaro fez 67.812 votos no primeiro turno, 72,38%, com treze candidatos na disputa. Fernando Haddad ficou com 9,59%, seguido por Ciro Gomes com 5,53% e João Amoêdo com 5,33%.

Dois nomes conhecidos dos jaraguaenses apareciam bem mais abaixo. Geraldo Alckmin, que havia vencido o primeiro turno na cidade em 2006 com mais de 35 mil votos, teve 2.622 doze anos depois. Marina Silva, terceira colocada em 2010 e em 2014, ficou com 538 votos, uma queda de 95% em relação a quatro anos antes.

O segundo turno terminou em 83,23% a 16,77%, o placar mais desigual já registrado em Jaraguá do Sul. No Brasil, Bolsonaro venceu com 55,13%. A diferença entre o resultado local e o nacional chegou a 28 pontos, a maior da série.

Presidente eleito: Jair Bolsonaro (PSL)

Foro: Alan Santos/Palácio do Planalto

Eleições de 2022

A última eleição presidencial aconteceu após o período mais crítico da pandemia de Covid-19 e registrou o maior eleitorado da história do país até então, com 156,4 milhões de brasileiros aptos a votar.

Aqui em Jaraguá, o eleitorado voltou a crescer e chegou a 122.958 pessoas no primeiro turno, com 105.810 comparecendo às urnas.

Bolsonaro repetiu o patamar de quatro anos antes, com 70,02% e 71.810 votos. Lula fez 21,83%, Simone Tebet 3,80% e Ciro Gomes 1,96%. No país, o quadro era outro, com Lula liderando por 48,43% contra 43,20%.

No segundo turno, o placar local foi de 77,08% para Bolsonaro a 22,92% de Lula. Nacionalmente, Lula foi eleito com 50,90% contra 49,10%, na disputa mais apertada desde a redemocratização. Vinte anos antes, o mesmo candidato havia feito 70,25% em Jaraguá do Sul.

Aquele segundo turno trouxe ainda uma exceção. O comparecimento subiu de 105.810 para 107.048 pessoas entre uma rodada e outra, movimento que não se repetiu em nenhuma das outras seis eleições com segundo turno. Em todas as demais, votou menos gente na decisão do que na primeira rodada.

Brancos e nulos somaram 3.041 votos, 2,84% de quem compareceu, o menor índice de toda a série.

Presidente reeleito: Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Foto: Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto

Os nomes que quase ninguém votou

Ao lado dos favoritos, as cédulas jaraguaenses registraram por décadas candidaturas de votação mínima. Em 1989, Roberto Freire teve 156 votos na cidade, Ronaldo Caiado somou 121 e Fernando Gabeira ficou com 39.

O caso mais persistente é o de José Maria Eymael, que aparece nas tabelas do município em seis eleições diferentes, ora como Eymael, ora com o nome completo, ora como Constituinte Eymael. Foram 20 votos em 1998, 43 em 2006, 64 em 2010, 131 em 2014, 18 em 2018 e 15 em 2022. Nunca passou de 131 votos e nunca deixou de aparecer.

Outro nome recorrente é o de Rui Costa Pimenta, com registros em 2002, 2006, 2010 e 2014, sempre abaixo de 30 votos. Em 2006, a tabela do TSE traz uma observação específica sobre ele: os votos que recebeu foram invalidados pela Justiça Eleitoral.

Além disso, Brancos e nulos tiveram comportamento próprio ao longo das nove eleições. Em 1989 representaram 3,06% de quem compareceu ao primeiro turno. O índice subiu para 10,22% em 1994 e atingiu 11,33% em 1998, o pico da série.

A partir dali começou a cair. Foram 5,05% em 2002, 6,28% em 2006, 6,56% em 2010 e 7,87% em 2014. Em 2018 recuou para 6,11% e, em 2022, chegou a 3,07%, praticamente o mesmo patamar registrado em 1989.

A cidade acompanhou o país em sete das nove eleições

Somados os nove pleitos, o candidato mais votado em Jaraguá do Sul foi o eleito presidente em sete ocasiões: 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2018. As duas divergências aconteceram em 2014 e 2022.

As margens locais variaram muito. Em segundos turnos, a diferença entre primeiro e segundo colocado ficou em 0,62 ponto em 2010 e em 7,10 pontos em 2006. Nas outras cinco disputas decisivas, passou sempre de 30 pontos.

Eleição realmente competitiva na cidade aconteceu, portanto, em dois ciclos. Antes e depois de 2006 e 2010, Jaraguá do Sul decidiu por margens largas.

Uma cidade que quase triplicou de eleitores

O número de eleitores aptos saiu de 44.835 em 1989 para 122.929 em 2022, crescimento de 174%.

O ritmo foi diminuindo ao longo do período. Entre 1989 e 1994 o eleitorado cresceu 23,5%, depois 18,4% e 17,9%. Vieram então 14,4%, 14,5% e 9% até 2014. Em 2018 houve retração de 0,7%, e em 2022 o crescimento voltou a 12,2%.

Vale registrar que eleitorado e população não são a mesma base de cálculo. Segundo o documento “Jaraguá do Sul, Cento e Cinquenta Anos”, de Egon L. Jagnow, publicado pela Secretaria Municipal de Educação, a população do município passou de 76.968 habitantes em 1991 para 182.660 em 2022.

Como isso impacta sua vida?

Quem mora em Jaraguá do Sul convive com a ideia de que a cidade sempre votou do mesmo jeito. Os números do TSE mostram outra coisa: em 2010 uma eleição foi decidida aqui por 506 votos, e em 2006 o vencedor do primeiro turno perdeu o segundo na mesma cidade. Conhecer essa série é o que separa opinião de dado quando o assunto volta à mesa do bar ou do almoço de domingo.

Nota da redação: os dados de Jaraguá do Sul foram extraídos do repositório de resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e reorganizados pela redação do JDV para comparação histórica. A equipe utilizou ferramentas de inteligência artificial como apoio nos cálculos de percentuais e cruzamentos de dados. Os percentuais de votação consideram os votos válidos ou nominais, conforme a nomenclatura utilizada pelo TSE em cada período. As eleições de 1994 e 1998 não tiveram segundo turno porque Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno.

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