Matéria Especial
WEG, 1970: a história da mala que trouxe quase meio século de tecnologia alemã para Jaraguá do Sul
Reiner Modro entrou na empresa cortando chapa com o pé, aos 16 anos. Oito anos depois, foi escolhido para buscar na Alemanha a tecnologia que faltava na fábrica.
Resumo da matéria
Em 1970, Reiner Modro, então funcionário da WEG, fez um estágio na fábrica alemã Blum, em Enzweihingen, para aprender processos de produção de componentes para motores elétricos. A viagem partiu de um contrato da WEG com o escritório de engenharia Dr. Braun, contratado para projetar a primeira linha de motores com grau de proteção IP54 da empresa. Durante uma festa de aniversário da executiva Frau Blum, em Mühlhausen, Modro pediu autorização para tirar duas ou três cópias de projetos técnicos. A autorização saiu na sexta-feira, último dia do estágio. Na manhã de sábado, com o gerente Schubert operando a copiadora, ele copiou desenhos de linha de motores, dispositivos, ferramentas e máquinas em papel aéreo, totalizando cerca de oito quilos, equivalentes a 80 quilos em papel comum. Naquela mesma noite embarcou de volta ao Brasil. O livro que conta os primeiros 25 anos da WEG registra que, com aquele material, a empresa conseguiu “importar” quase meio século de desenvolvimento tecnológico alemão na produção de ferramentas para a indústria elétrica. Modro entrou na WEG em 1962, aos 16 anos, e ficou 26 anos na empresa, saindo como diretor-superintendente da WEG Máquinas.
Uma mala pode guardar muita história. Na trajetória da WEG, em Jaraguá do Sul, uma delas voltou da Alemanha carregada com cerca de oito quilos de desenhos técnicos que ajudariam a desenvolver a produção da empresa. Quem trouxe a bagagem foi o jaraguaense Reiner Modro, em 1970, depois de um estágio que terminou com uma visita a uma fábrica poucas horas antes do retorno ao Brasil.
Reiner havia entrado na WEG oito anos antes, aos 16, para trabalhar numa tesoura manual de cortar chapas. Entre as primeiras tarefas na oficina e a viagem à Europa, aprendeu com colegas, estudou e encontrou na mecânica um caminho profissional.
O episódio é contado no livro História da WEG: 25 anos, de Apolinário Ternes, publicado em 1986. Segundo a obra, aquele material permitiu à empresa incorporar quase meio século de desenvolvimento tecnológico alemão na produção de ferramentas para a indústria elétrica.
Por trás dos desenhos, havia também uma história de convivência com os funcionários alemães e um conselho recebido antes da viagem: não ter vergonha de perguntar.

Da roça à ferramentaria da WEG
Nascido em Três Rios do Norte e criado na região do Chico de Paulo, Reiner terminou o primário complementar no Colégio Abdon Batista aos 12 ou 13 anos. Sem condições de pagar a continuidade dos estudos, a família encontrou no trabalho na roça uma alternativa. Ele passou a plantar melancia e outros produtos para vender.
A renda, porém, não era suficiente. O pai, que conhecia a família de Werner Voigt, aproveitou uma ida à cidade para vender leite e parou em frente à WEG para conversar com ele. Em 1962, Reiner começou a trabalhar na empresa, que completava o primeiro ano de atividade.

Sua primeira função era cortar chapas numa tesoura manual acionada com o pé. No intervalo do almoço, procurava Onório Pradi, sócio e mecânico da empresa, para aprender a operar o torno.
“Foi um fato histórico para mim, pois estava descobrindo os segredos da mecânica”, contou em entrevista à jornalista Natália Trentini.
A habilidade chamou a atenção de Geraldo Werninghaus, que o levou para a ferramentaria. O pai de Geraldo, Wilhelm Werninghaus, também participou da formação do jovem: ensinou matemática, trigonometria e resistência dos materiais, além de incentivá-lo a comprar livros técnicos alemães.

O motor que nenhuma fábrica brasileira sabia fazer
Segundo Reiner, a viagem de 1970 teve origem na contratação do escritório de engenharia Dr. Braun, na Alemanha, para projetar a primeira linha de motores da WEG com grau de proteção IP54. Na lembrança dele, aquela tecnologia ainda não era utilizada por fabricantes brasileiros.
Antes de receber os funcionários na Alemanha, Dr. Braun visitou a fábrica em Jaraguá do Sul para avaliar as condições de produção. Identificou processos que a WEG precisava desenvolver e participou da escolha de quem viajaria para aprender.
“Eu acabei sendo escolhido pelo domínio da língua alemã e também pelo domínio dos processos de fabricação”, conta Reiner.

Ele já tinha experiência de estágio no país. O livro dos 25 anos da WEG registra que, em 1969, Reiner e Arthur Borches haviam passado pela Blum, em Göppingen, e pela Deckel, em Munique.
Antes do novo embarque, Eggon João da Silva lhe deu um conselho: não ter vergonha de perguntar. A orientação acompanharia Reiner durante a viagem e, segundo ele, continuaria presente em sua vida profissional, inclusive no trabalho com inteligência artificial, mais de cinco décadas depois.
Postais e discos de vinil em Enzweihingen
O estágio de 1970 foi realizado na Blum, em Enzweihingen, antiga fabricante de componentes para motores elétricos. Na bagagem de ida, Reiner levou cartões-postais, discos de vinil e fotografias da família, da região e das festas de Jaraguá.

Foi recebido pela principal executiva da empresa, a quem chama de Frau Blum, e pelo companheiro dela, um português. Os dois quiseram saber mais sobre o Brasil e a imigração alemã. Depois do café, ela o apresentou a Schubert e Kissinger, que se tornariam seus principais contatos durante o aprendizado.
A convivência se estendeu para além da fábrica. Reiner jogava futebol com os funcionários nos fins de semana e jantava com técnicos da empresa. Durante o estágio, desenhava à mão o que conseguia, mas o tempo disponível não permitia registrar tudo o que gostaria de levar para o Brasil.
O aniversário em Mühlhausen
A oportunidade de conversar sobre isso surgiu no aniversário de Frau Blum. Como a empresa recebia visitantes de outros cinco países, ela reuniu o grupo para um jantar em um restaurante de Mühlhausen, perto de Stuttgart.
Durante a festa, a anfitriã se sentou ao lado do jaraguaense e perguntou como estava o estágio. Ele respondeu que estava aproveitando, mas explicou a dificuldade de absorver tanto conhecimento em pouco tempo. Quando ela perguntou se poderia ajudar, Reiner fez o pedido:
“Se a senhora pudesse permitir tirar umas duas, três cópias de algumas ferramentas, me ajudaria muito na minha vida profissional.”

Frau Blum disse que pensaria no assunto. A resposta só chegou na sexta-feira da última semana de estágio, durante um café de despedida. Schubert estava autorizado a buscá-lo no hotel na manhã seguinte para fazer as cópias na fábrica.
O voo de volta ao Brasil sairia naquela mesma noite de sábado.
Oito quilos de desenhos na mala
Com a autorização, Reiner foi à cidade comprar uma mala e oito quilos de papel aéreo, um papel fino e leve utilizado para as cópias. A seleção dos desenhos seria feita apenas no dia seguinte.
Na manhã de sábado, ele e Schubert foram à mapoteca da fábrica, onde estavam guardados os projetos. Enquanto Reiner escolhia os desenhos nas gavetas, o colega alemão operava a copiadora.

O material incluía projetos de linhas de motores, dispositivos, ferramentas e máquinas. Pelas contas de Reiner, os oito quilos de papel aéreo corresponderiam a aproximadamente 80 quilos de papel comum.
O pedido de duas ou três cópias havia se transformado numa mala cheia de material técnico.
De volta a Jaraguá do Sul, Reiner participou de uma reunião com a engenharia da WEG para compartilhar o aprendizado e entregar os documentos. Rolf Ehrmann e Manuel Mayor, responsáveis pela área de projetos, assinaram o recibo do material recebido.

O livro dos 25 anos descreve a bagagem como uma mala “abarrotada de moldes de ferramentas especiais e de outros equipamentos de vital importância na área de produção”. Segundo Reiner, os projetos foram utilizados nos anos seguintes e contribuíram para o desenvolvimento tecnológico e a conquista de mercado pela empresa.
“Essa foi a minha missão, que eu consegui com êxito graças à paciência, perspicácia e não ter medo de perguntar.”
Uma trajetória de 26 anos na empresa
As relações construídas na Alemanha também tiveram outros desdobramentos. Reiner conta que Kissinger trouxe posteriormente o irmão ao Brasil, responsável por introduzir na WEG o método alemão de treinamento e formação de técnicos.
Ao longo de 26 anos na empresa, o jaraguaense passou pela gerência de ferramentaria, engenharia e fábrica, até sair como diretor-superintendente da WEG Máquinas.
“Eu tive uma vida muito intensa. Eu nasci com Jaraguá e participei de tudo.”
Também preservou registros dessa trajetória. Guardou as edições do jornal interno Notícias WEG desde a primeira, publicada em setembro de 1969, até 1988. Na edição de outubro de 1969, ele próprio aparece numa entrevista com o título “Operário Moderno”.


Entre as orientações que recebeu, uma de Geraldo Werninghaus permanece nas conversas com os mais jovens: o conhecimento é algo que ninguém pode tirar de uma pessoa.
Como isso impacta sua vida?
Antes de virar a empresa que hoje é a terceira maior de Santa Catarina, a WEG precisou de um funcionário que entrou aos 16 anos, sem experiência, aprendeu alemão nos livros e teve coragem de fazer um pedido no fim de uma festa.
Para quem começa hoje numa indústria da região, o roteiro de Reiner cabe na frase que ele repete aos jovens, como disse ao projeto História de Vida: “Busquem primeiro o conhecimento. O dinheiro é consequência.”

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