Há mais de 60 anos chegava o primeiro sinal de TV em Jaraguá do Sul; conheça esta história Matéria Especial
| Representação de uma família brasileira assistindo à TV nas décadas de 1960 e 1970. | Foto: JDV/IA

Há mais de 60 anos chegava o primeiro sinal de TV em Jaraguá do Sul; conheça esta história

Gabriela Bubniak

Por Gabriela Bubniak
Publicada em 01/10/2026

Dos primeiros testes de transmissão à instalação dos equipamentos no Morro Boa Vista, veja como a televisão começou a fazer parte da rotina dos jaraguaenses

Dos primeiros testes de transmissão à instalação dos equipamentos no Morro Boa Vista, veja como a televisão começou a fazer parte da rotina dos jaraguaenses

Resumo da matéria

A televisão chegou ao Brasil em 1950, mas levou mais de uma década para alcançar cidades do interior como Jaraguá do Sul. Em 1964, os jornais locais já registravam a expectativa pela chegada do sinal de TV à cidade. A expansão da televisão dependia de repetidoras, antenas e estruturas instaladas em pontos elevados para levar a imagem aos moradores. O Morro Boa Vista se tornou peça fundamental na chegada da televisão, recebendo equipamentos de retransmissão. Em 1966, a cidade enfrentou uma interrupção no sinal da repetidora, mobilizando moradores e entidades em busca de uma solução. A chegada da TV transformou a rotina das famílias jaraguaenses, que passaram a acompanhar notícias, novelas, programas de auditório e séries pela tela. A programação da época incluía atrações como O Direito de Nascer, Repórter Esso, programas musicais e séries estrangeiras. Em 1968, Jaraguá do Sul iniciou uma mobilização para instalar uma retransmissora da TV Iguaçu, Canal 4, de Curitiba. A instalação da nova estrutura envolveu moradores, comerciantes e entidades, além de testes realizados no alto do Morro Boa Vista. Um dos primeiros testes revelou os desafios técnicos da época, incluindo um improviso com um gerador acelerado manualmente para melhorar a imagem. Mais de 60 anos depois, o Morro das Antenas permanece como símbolo da chegada da televisão e da transformação tecnológica vivida pela cidade.

Já parou para notar quão simples e inconsciente é o ato de assistir televisão? Basta apertar um botão no controle remoto ou até escolher um conteúdo pelo celular conectado à TV, e pronto! Pois saiba que há pouco mais de 60 anos, porém, fazer uma imagem aparecer na tela de uma casa em Jaraguá do Sul era um desafio que envolvia distância, tecnologia e muita improvisação.

O aparelho e o sinal de televisão já haviam chegado ao Brasil em 1950, com a inauguração da TV Tupi, em São Paulo – e só chegariam aqui 16 anos mais tarde. Mas a expansão do sinal para cidades menores aconteceu aos poucos. Municípios do interior precisavam criar suas próprias estruturas para captar e retransmitir a programação.

Em Jaraguá, essa transformação passou pelo alto do Morro Boa Vista (ou Morro das Antenas para os íntimos 😛 ), onde começaram a ser instalados equipamentos responsáveis por levar o sinal até a cidade. A imagem precisava vencer a distância entre emissoras e moradores, subir montanhas e chegar até antenas dos lares que, em muitos casos, eram improvisadas pelos próprios moradores.

Mas a chegada da televisão em Jaraguá do Sul não aconteceu em uma data única. Foi um processo construído ao longo dos anos. E para reconstruir essa história, o JDV mergulhou em documentos e jornais da época, que revelam os primeiros passos do município na era televisiva.

Quando a televisão ainda era uma novidade no Brasil

Antes de chegar aos lares jaraguaenses, a televisão precisou vencer uma série de desafios. A primeira transmissão oficial no Brasil aconteceu em 18 de setembro de 1950, quando a TV Tupi entrou no ar em São Paulo, inaugurando uma tecnologia que ainda era restrita a poucos lugares do país.

Naquele início, os aparelhos eram caros e a programação ficava concentrada nas cidades onde estavam instaladas as primeiras emissoras.

Televisão antiga representa a chegada da TV em Jaraguá do Sul na década de 1960
Imagem ilustrativa de uma televisão antiga em ambiente inspirado nas décadas de 1960 e 1970, período em que o sinal de TV começou a chegar a Jaraguá do Sul. | Ilustração: JDV/IA

Para que a imagem chegasse às cidades menores, era preciso construir uma rede de retransmissão: antenas instaladas em pontos estratégicos captavam o sinal de uma emissora distante, equipamentos reforçavam a transmissão e novas antenas espalhavam a programação para outras regiões.

Em áreas com relevo mais acidentado, como muitas cidades do interior, encontrar o local ideal para esses equipamentos era um dos principais desafios. Por isso, morros e pontos elevados passaram a ter papel fundamental na expansão da televisão, permitindo que o sinal alcançasse mais moradores.

A expectativa pelo primeiro sinal

A primeira movimentação registrada pelos jornais locais aparece em 1964, quando o jornal local Correio do Povo informou que o Canal 11, de Florianópolis, era aguardado “com muito entusiasmo e expectativa” pelos moradores.

A previsão era de que a transmissão começasse em caráter experimental em abril daquele ano. Mas, para que a programação chegasse de fato às casas jaraguaenses, ainda era necessário instalar uma estrutura capaz de captar e retransmitir a imagem até a região.

O avanço veio nos anos seguintes. Em 1966, Jaraguá do Sul já contava com uma estação repetidora, responsável por receber o sinal das emissoras e distribuí-lo para a cidade e municípios próximos.

A novidade, porém, ainda dependia de uma operação delicada. Quando a estrutura apresentou problemas, a televisão saiu do ar e a população precisou se mobilizar para buscar uma solução e recuperar a programação que começava a fazer parte da rotina dos moradores.

Quando a tela ficou sem imagem

Em agosto de 1966, poucos meses depois de a televisão começar a fazer parte da rotina dos moradores, a cidade enfrentou um problema inesperado: a estação repetidora deixou de funcionar e os televisores ficaram sem programação.

Para as famílias que haviam comprado um aparelho e começavam a acompanhar a novidade dentro de casa, a interrupção era extremamente frustrante.

Página do Jornal Correio do Povo de agosto de 1966 sobre a falta de sinal de TV em Jaraguá do Sul
Edição de agosto de 1966 do Jornal Correio do Povo registra a interrupção do sinal de televisão em Jaraguá do Sul após problemas na estação repetidora. | Foto: Hemeroteca de SC/Correio do Povo

Desta forma, a falta do sinal mobilizou lideranças locais e entidades, que buscaram soluções para restabelecer a programação. Nos meses seguintes, os jornais voltaram a registrar a presença da televisão na cidade, mostrando que a repetidora continuou sendo uma estrutura essencial para manter o acesso dos moradores às transmissões.

Em 1968, Jaraguá do Sul iniciou uma nova mobilização: a instalação de uma retransmissora da TV Iguaçu, Canal 4, de Curitiba.

O projeto envolveu moradores, comerciantes, entidades e proprietários de televisores. Na época, trazer um novo canal para a cidade exigia mais do que interesse da emissora: era preciso reunir recursos para comprar equipamentos, instalar antenas e preparar toda a estrutura necessária para a transmissão.

O investimento era alto para aquele período. Um televisor custava cerca de NCr$ 1,5 mil, enquanto a implantação completa da retransmissora foi estimada em aproximadamente NCr$ 20 mil.

Para viabilizar a iniciativa, foi criada uma campanha de contribuição entre os moradores.

O desafio de fazer a imagem subir o morro

Com os recursos reunidos, surgiu uma nova etapa do projeto: encontrar o local ideal para instalar os equipamentos da retransmissora. E a resposta estava em um ponto que já fazia parte da paisagem de Jaraguá do Sul.

A parte mais curiosa dessa história aconteceu justamente no lugar que hoje virou um dos cartões-postais da cidade: o Morro Boa Vista.

Morro das Antenas em Jaraguá do Sul nos anos 1980
O Morro das Antenas se tornou um ponto estratégico para a instalação de equipamentos de retransmissão, fundamentais para a chegada da televisão em Jaraguá do Sul. | Foto: Bia Bartel/Antigamente em Jaraguá

Para encontrar a melhor posição de transmissão, técnicos e colaboradores subiram o morro para realizar testes de recepção do sinal. A localização elevada favorecia a distribuição da imagem e aumentava o alcance da programação para Jaraguá do Sul e municípios vizinhos.

Mas a operação estava longe de ser simples. Era preciso testar horários diferentes, avaliar a qualidade da imagem e entender como o sinal se comportava ao longo do dia.

Durante os testes, a equipe percebeu que captar a transmissão diretamente de Curitiba apresentava melhores resultados do que receber o sinal por outra cidade. A descoberta mudou os planos iniciais e definiu o caminho para a estrutura que seria instalada no alto do morro.

A engenharia por trás do primeiro sinal

Os primeiros testes também revelaram que, naquela época, colocar a televisão no ar dependia de muita técnica – e também de improviso.

Durante uma das experiências, um problema no gerador prejudicou o funcionamento do equipamento. Como o acelerador automático não mantinha a potência necessária, a solução encontrada foi manual: alguém precisou permanecer acelerando o equipamento com a própria mão para melhorar a qualidade da imagem.

Hoje, uma falha de transmissão pode ser resolvida em poucos cliques. Naquele período, porém, fazer a televisão chegar às casas dependia de equipamentos complexos, conhecimento técnico e, às vezes, de uma solução improvisada no alto do morro.

O que passava na televisão naquela época?

Para quem ligava o aparelho nos anos 1960, a televisão ainda era uma experiência nova. A programação misturava atrações ao vivo, novelas, telejornais, programas de auditório, humor, esportes e produções estrangeiras que começavam a conquistar o público brasileiro.

Em 1966, o sinal da TV Paraná, Canal 6, já chegava a Jaraguá do Sul por meio das repetidoras. Entre os conteúdos anunciados pelos jornais estava um especial sobre o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy, exibido três anos após seu assassinato.

Entre os conteúdos anunciados nos jornais estava um especial sobre o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy, exibido três anos após seu assassinato.

Além disso, naquele período, algumas atrações ajudaram a transformar a televisão em um fenômeno popular no Brasil. Uma delas foi “O Direito de Nascer”, novela exibida pela TV Tupi a partir de 1964, que conquistou o público com uma história dramática de conflitos familiares e tornou-se uma das primeiras grandes produções da teledramaturgia brasileira.

No jornalismo, o “Repórter Esso”, que já era conhecido pelo rádio, também ganhou espaço na televisão e se tornou uma referência para quem buscava notícias nacionais e internacionais. Com seu estilo direto e o famoso anúncio de abertura, ajudou a criar uma nova forma de acompanhar os acontecimentos.

A televisão também era lugar para música e entretenimento. Programas de auditório reuniam cantores, artistas e convidados em atrações comandadas por nomes que marcaram a época, como Hebe Camargo e Chacrinha. Ao mesmo tempo, programas musicais como a Jovem Guarda, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, levavam novos ritmos para dentro das casas brasileiras.

Para o público infantil, a tela também trazia novidades. Desenhos animados e séries estrangeiras, como “Bonanza” e “Rin Tin Tin”, faziam parte do imaginário de uma geração que começava a acompanhar histórias vindas de outros países.

A televisão mudou a rotina das famílias

A chegada da televisão trouxe encantamento, mas também novas discussões dentro das casas. Em 1966, uma publicação no jornal local levantou um debate que continua atual: quanto tempo crianças e adolescentes deveriam passar diante da tela?

O jornal relacionava o aumento do tempo dedicado à televisão a possíveis mudanças no rendimento escolar. Embora a publicação não apresente detalhes sobre como essa avaliação foi feita, o registro ajuda a entender o impacto que a novidade causava nos hábitos da época.

Assim como aconteceria décadas depois com outras tecnologias, a televisão chegou acompanhada das dúvidas. Mas o fato é que a novidade reuniu famílias diante da tela, aproximou moradores de acontecimentos distantes e criou uma nova forma de consumir informação e entretenimento.

Mais de 60 anos depois, o Morro das Antenas continua fazendo parte da paisagem da cidade. Para quem viveu aquele período, porém, ele representa algo maior: o momento em que uma imagem começou a atravessar montanhas para chegar às casas dos jaraguaenses.

Um retrato de Jaraguá do Sul em 1961

Poucos anos antes de a televisão começar a ganhar espaço nas casas jaraguaenses, uma câmera já registrava uma cidade em transformação.

Produzido por Wilhelm Gericke, o filme “Jaraguá do Sul 1961” apresenta um retrato do município em uma época em que a população urbana era estimada em cerca de 12 mil habitantes e a industrialização começava a mudar a paisagem local.

As imagens mostram obras de calçamento, a construção da nova ponte Abdon Batista, a Exposição Agropecuária e eventos comunitários, além de empresas que ajudavam a construir a identidade econômica da cidade.

O registro reúne nomes que fazem parte da memória industrial de Jaraguá do Sul, como Indústrias Reunidas Jaraguá, Metalúrgica João Wiest, Marcatto, EletroMotores Jaraguá (WEG), Kohlbach e Cerealista Pivedo, além de marcas e estabelecimentos conhecidos da época, como Casa Kopmann, Rádio e TV Heimer, Ferramentas Sadori, Lojas Douat e Indústrias Luis Kienen, fabricante da famosa laranjinha Kienen.

O filme também registra momentos da vida comunitária, como o Dia do Colono, com a presença do governador Ivo Silveira, atividades do Clube 4S e a visita do senador Attilio Fontana.

Era uma cidade que crescia, fortalecia suas indústrias e começava a se conectar com novas tecnologias que mudariam a rotina dos moradores. Como a chegada da televisão! 😉

Como isso impacta sua vida?

Para quem cresceu cercado por telas, pode ser difícil imaginar o impacto de ver aquelas primeiras imagens chegando às casas de Jaraguá do Sul. Para quem viveu esse período, porém, a televisão foi uma novidade capaz de mudar hábitos e reunir famílias diante de um aparelho que ainda despertava curiosidade.

Talvez essa história também esteja guardada dentro da sua família: você lembra qual foi a primeira televisão da sua casa ou das histórias contadas por pais e avós sobre a chegada da TV?

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>> Nota da redação: Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio editorial na organização de informações e cruzamento de dados. Porém, a apuração, análise, redação e edição do conteúdo foram realizadas pela equipe jornalística do JDV, com base em registros históricos e informações das fontes consultadas.

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