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Artigo de Gilberto Kraisch: Redescobrir a nossa interioridade (Lv 13,1-2.44-46; Mc 1,40-45)

Essas duas interioridades – de Jesus e do leproso – nos ensinam a redescobrir um encontro mais que de corpos, mas de espíritos
Gilberto Kraisch /Filósofo e Teólogo
 

15/02/2021

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Artigo de Gilberto Kraisch: Redescobrir a nossa interioridade (Lv 13,1-2.44-46; Mc 1,40-45)

Esta narração, parece-nos uma coisa óbvia, direta, imediata. Mas é um jogo muito bonito que Marcos nos faz ver. São duas exterioridades que se encontram e duas interioridades que se interpelam.

Nós temos uma exterioridade que a natureza nos deu: a pele. Reconhecemo-nos pela pele, e, se a retirássemos, ninguém nos reconheceria. Ela é a nossa exterioridade natural que, ao longo dos anos, vamos ver desenvolver, crescer, enrugar. Enfim, a pele mostra como somos. Mas, como seres estéticos, humanos, envolvemos essa pele com outras exterioridades, que são as nossas roupas, maquilagens, toques e retoques sobre nosso corpo. Essa é a nossa exterioridade. É assim que encontramos as pessoas: vestidos pela natureza, ornados pela arte, pela cultura.

Duas exterioridades se encontram nestes trechos. A primeira nós encontramos no livro do Levítico: aquele homem com o cabelo desgrenhado, roupas rasgadas, estava longe, só podia falar gritando, tocando os sinos para que a sua exterioridade repelisse, afastasse de si qualquer outra exterioridade. É a solidão do leproso!

Quantos hoje, na nossa cultura, vivem essa exterioridade que rejeita, afasta?! Outros vivem tão deprimidos, que ninguém quer aproximar-se deles. Outros, tão miseráveis, cheiram tão mal, que ninguém quer chegar perto. Vivem trocando pés e mãos pelos caminhos, se arrastando pelas ruas, e ninguém os quer encontrar. A exterioridade afasta, isola. Jesus se aproxima, pois Ele não teme nenhuma exterioridade, nem desse homem que a lei mandava afastar-se do mundo humano. Jesus se aproxima e o toca. A mão divina do Senhor toca um homem que cheira mal, um doente. Duas peles se encontram.

Nós, do Ocidente, por razões culturais, temos muita dificuldade no toque. Afastamo-nos ou temos toques que não querem dizer nada. Não conseguimos ter um toque bonito, da pureza de corpos que se tocam em espiritualidade. Imediatamente, passamos, afastando os corpos para uma decadência imoral que os levarão à prostituição vergonhosa. Como seria bom se conseguíssemos nos tocar puramente como Jesus tocou aquele homem! Ele não temia tocar as pessoas, não temeu uma prostituta. Deixou que ela o tocasse, que lavasse seus pés e os enxugasse com seus cabelos. É comovente aquela mulher perdida debruçada sobre os seus pés, beijando-o carinhosamente (Lc 7,36-8,3). Nós perdemos muito com isso. Os antigos, os índios, as primeiras culturas eram assim. O Ocidente, a partir dos séculos XVI, XVII, introduziu a perdição, a pornografia nas nossas relações. Os nossos olhos já não conseguem ver os corpos com pureza. Os índios andavam nus, e isso não os afetava. Temos vergonha, porque tornamos os nossos olhos, os nossos corpos impuros. Como seria bonito se recuperássemos a pureza do toque! Se vocês namorados, noivos, esposos agissem como dois seres de Deus que se tocam. Quando Jesus toca, é com pureza, e o seu toque limpa, não suja. Que lição para vocês, jovens, terem toques mais limpos e não sujos!

Nesse toque de Jesus, duas exterioridades se encontram, mas também duas interioridades vão se tocar também. Não vemos a interioridade, mas intuímos, descobrimos, percebemos, através de indícios. Quando aquele leproso se aproxima da interioridade de Jesus, percebe e interpela: “Se Tu quiseres, podes me curar!”. Olhem que coisa bonita! Já não era exterioridade, mas interioridade. Jesus quer e o cura. A interioridade de Jesus olha para a do leproso e o cura. De um lado, um pedido, um desejo, uma busca; do outro, a resposta, a entrega, o encontro.

Quando nos encontramos nesse nível, em que os desejos profundos encontram no outro respostas profundas, as interioridades resgatam os deprimidos, os separados, os marginalizados, os perdidos, para a interioridade e o convívio. É disso que precisamos hoje, porque há muitas exterioridades impedindo que as interioridades se encontrem. São as exterioridades midiáticas. Gostaria que vocês pensassem muito mais nisto: como a midiática, isto é, a eletrônica, as redes sociais estão afastando as pessoas, substituindo encontros pessoais por virtuais. Gera um grande vazio, porque confundimos dois substantivos: formação com informação. Como confundimos essas duas coisas! Informar é importantíssimo, mas é superficial, é horizontal. Eu posso me informar e preciso estar informado, mas a informação não forma ninguém, apenas enche a minha cabeça de dados, mas não me forma. Eu me formo quando começo a pensar, e pensar é ser capaz de voltar às informações e julgá-las, criticá-las, analisá-las, situá-las, estruturá-las, organizá-las dentro de um sistema maior. Isso é pensar, isso é formar!

Quantas horas passamos bebendo informações nas internets da vida, nos videogames, nas revistas e televisões?! É só informação! A Globo (referência à Rede Globo de Televisão) não forma ninguém, ela até deforma, quando nos passa uma quantidade de horas big-brothermente informadas. Vocês ficam sabendo da intimidade daqueles que se beijam, se esfregam. Tudo isso vocês ficam sabendo, mas não forma a consciência de ninguém. O nosso sentido crítico não consegue perceber a história: de onde viemos, para onde vamos, onde estamos? Alguém consegue perceber o momento que estamos vivendo, a crise fantástica que estamos vivendo, esse fim de civilização, esse término de ciclo dos pré-socráticos até hoje? Alguém percebe isso? Já ouviram falar disso? Nunca! A televisão nunca vai nos dizer que estamos fechando um grande ciclo no Ocidente, que estamos caminhando num grande ciclo que não vemos, mas que poderíamos perceber.  

Essas duas interioridades – de Jesus e do leproso – nos ensinam a redescobrir um encontro mais que de corpos, mas de espíritos.

Gilberto Kraisch

Filósofo e Teólogo

 

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