Matéria Especial
76 x 0? A maior goleada do Brasil no futsal completa 20 anos; ídolos do Jaraguá relembram a partida histórica
Ex-companheiros de equipe do Jaraguá Futsal em 2006, Leco, Márcio e Valdin marcaram juntos 37 gols na competição, e relembram a partida histórica que rendeu um recorde inimaginável para a Seleção Brasileira.
Resumo da matéria
Em 13 de outubro de 2006, a Seleção Brasileira de futsal venceu Timor-Leste por 76 a 0, nos Jogos da Lusofonia, em Macau, na China. Companheiros na Malwee/Jaraguá, Leco, Márcio e Valdin marcaram juntos 37 gols: um de Leco, 16 de Márcio e 20 de Valdin. O Brasil fez 40 gols no primeiro tempo e 36 no segundo, buscando superar Portugal no saldo de gols. No dia seguinte, o empate por 1 a 1 com Portugal garantiu o ouro brasileiro, graças ao saldo superior. A reportagem contextualiza as dificuldades enfrentadas pela equipe timorense e reúne lembranças sobre a ajuda dos brasileiros aos adversários. Entrevistas e registros da época recuperam os bastidores da competição, da preparação para o jogo ao reencontro fora da quadra.
Setenta e seis gols a zero, em 40 minutos. Um placar fora do comum até mesmo para o futsal, vamos combinar. Pois há exatos 20 anos, esse foi o resultado que marcou a maior goleada da Seleção Brasileira em uma competição.
Em 13 de outubro de 2006, os brasileiros entraram em quadra em Macau, na China, para enfrentar Timor-Leste pelos Jogos da Lusofonia. Foi naquela partida que o placar histórico aconteceu.
Naquele grupo estavam três nomes que o torcedor jaraguaense conhece bem: o fixo Leco (Alex Roza), que hoje aos 42 anos, é o capitão do Jaraguá Futsal; o ex-pivô Márcio Souza, de 45, que atua como supervisor da equipe aurinegra; e o ala Valdin Carvalho, aos 47, que hoje defende o São José, do Amapá.

Acostumados a dividir a quadra com a camisa do clube jaraguaense, naquele momento eles estavam do outro lado do mundo, defendendo juntos a Seleção Brasileira. E todos deixaram sua marca no placar: Leco fez um gol, Márcio marcou 16 e Valdin, um total de 20. Somados, foram 37 dos 76 gols brasileiros.
>> Duas décadas depois, o JDV conversou com os três para recordar esse episódio tão único da história do futsal.
Antes de mergulhar nessa história, vale lembrar: entre os jogadores que ajudaram a construir aquele placar, havia outros rostos conhecidos da torcida jaraguaense, como o goleiro Tiago e o ala Dimas que também defendiam o Jaraguá em 2006. O grupo comandado por PC de Oliveira reunia também nomes de peso do futal brasileiro, como Carlinhos Moro, Tostão, Marinho, Wilde, Ari, Jonas e o goleiro Rogério.
Uma competição que reunia o mundo em português
A viagem dos três tinha um destino que ainda era novidade no calendário esportivo. Aquela foi a primeira edição dos Jogos da Lusofonia, competição criada para reunir países e territórios ligados à língua portuguesa. Em Macau, mais de 700 atletas disputaram oito modalidades, entre elas o futsal. A organização era da Associação dos Comitês Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa, a ACOLOP*.
Depois daquele encontro na China, os Jogos passaram por Lisboa, em 2009, e Goa, na Índia, em 2014, mas não tiveram novas edições desde então. Há planos para recuperar a competição: em abril de 2025, a ACOLOP aprovou sua retomada. Já em dezembro, informou uma proposta de adiamento e de mudança no formato, que deverá ser apresentada em Macau em dezembro de 2026.

Mas, naquele outubro de 2006, tudo ainda estava começando. Para Valdin, a viagem tinha um significado especial: era sua segunda experiência internacional pela Seleção e a oportunidade de conhecer um país que sempre esteve nos seus planos.
“Aquela viagem me marcou muito porque era minha segunda viagem internacional com a seleção brasileira e para um país que sempre quis conhecer, a China. Chegar em Macau e saber que seus adversários falam sua mesma língua foi sensacional, ainda mais do outro lado do mundo”, lembra.
Márcio também vivia uma novidade. Já havia sido convocado para a Seleção antes, mas nunca tinha viajado para fora do país com a equipe. Foi em Macau que teve essa primeira experiência.
“Viver aquela experiência dos Jogos da Lusofonia foi algo realmente incrível e muito especial na minha carreira. Além de representar o Brasil, aquela competição teve um significado ainda maior, porque foi a minha primeira viagem internacional vestindo a camisa da Seleção Brasileira”, comenta.
Aos 22 anos, Leco também estava descobrindo aquele universo pela primeira vez. Mas além dos jogos, a convivência com delegações de outros países fazia parte da experiência.
“A competição em si, com países que falavam a língua portuguesa também, a competição foi muito bacana assim, nesse negócio do intercâmbio e dessa vivência fora do país. Então, para mim, tinha essa sensação de descoberta de coisas novas e ao mesmo tempo uma responsabilidade muito grande por estar vestindo a camisa da seleção brasileira”, completa Leco.

Dentro de quadra, essa responsabilidade logo ganhou uma tradução bastante específica: fazer gols. Muitos gols.
Portugal fez 56. O Brasil precisava fazer mais
Antes de enfrentar Timor-Leste, a Seleção Brasileira havia vencido Angola por 7 a 0 e Macau por 27 a 0. Portugal, principal concorrente ao título, também vinha acumulando resultados largos, incluindo um 56 a 0 justamente sobre os timorenses. Era esse placar que os brasileiros precisavam superar para chegar ao confronto decisivo com a vantagem do empate.
Márcio lembra que o grupo havia assistido à partida dos portugueses contra Timor-Leste. Então parecia possível fazer a goleada acontecer; os brasileiros entraram em quadra dispostos a aproveitar as oportunidades até o fim.
“É claro que chegar aos 76 gols foi algo que acabou se tornando histórico e que ninguém imaginava que ganharia uma proporção tão grande. Mas, naquele momento, o nosso pensamento principal era cumprir o objetivo da competição, superar o saldo de Portugal e conquistar a vantagem para a final”, recorda.
Valdin conta que a cobrança começou ainda no hotel, depois que os portugueses voltaram comemorando o resultado.
“Lembro que a delegação de Portugal chegou ao hotel todos felizes porque ganharam de 56 a 0. Daí nosso treinador na época, PC de Oliveira, disse: ‘amanhã não quero saber, temos que ganhar nem que seja de 57’.”

O recado estava dado, mas cumprir aquela meta exigia uma preparação diferente. Leco conta que o trabalho foi direcionado às finalizações, com atenção para aproveitar as oportunidades que aparecessem.
“A nossa missão era entrar e fazer mais gols que eles, justamente para jogar pelo empate a final. Então, assim, concentração, foco total, preparação em finalização para finalizar bem e fazer o máximo de gols possíveis. Não era uma missão fácil. Como que tu entra para fazer 50 gols num jogo?”, recorda.
Quando a bola rolou, porém, o resultado cresceu rapidamente. O Brasil precisou de menos de dois minutos para abrir 6 a 0. Quando chegou o intervalo, o placar já estava em 40 a 0, uma média de dois gols por minuto. Só naquele primeiro tempo, a Seleção havia superado sua maior goleada anterior, o 38 a 3 contra o Uruguai, em 1991.
A marca portuguesa caiu na segunda etapa. E foi aí que, segundo Valdin, os jogadores pensaram que já tinham cumprido a tarefa. O professor PC de Oliveira, porém, queria mais.
“Com todo respeito à seleção de Portugal, já que tinham feito 56, nós íamos fazer mais, mas não achava que ia ser 76. Mas quando fizemos 57 e já havíamos batido a marca de Portugal, íamos parar, mas nosso treinador: ‘pode fazer mais’”, conta Valdin.
Os gols continuaram saindo até que o apito final encerrou em 76 a 0.
No meio da chuva de gols, cada um queria garantir o seu
Com tantas marcações no placar, era difícil fazer as contas e se concentrar no jogo ao mesmo tempo. O pivô Valdin estava tão envolvido no jogo que terminou sem saber quantas vezes havia marcado. Só depois recebeu a informação de um integrante da delegação brasileira de que tinha sido o atleta que mais tinha marcado na partida.
“Ao final da partida nosso diretor veio falar que tinha feito 20 gols, daí dei risada porque não sabia e poderia ter feito mais”, lembra.
Mesmo com tantas para escolher, uma jogada continua mais nítida na memória. “Se tratando de 20 gols e um recorde, todos foram importantes, mas lembro que teve um que driblo o goleiro e dou uma cavadinha, esse foi o mais bonito”, conta Valdin.
Márcio marcou outros 16, embora faça uma ressalva quando o assunto é a própria participação no placar.
“Na verdade, eu costumo dizer que foram 17 gols. Existe um gol que foi registrado oficialmente como gol contra, mas é nítido nas imagens, e eu me lembro muito bem da jogada, que eu toquei na bola antes de ela entrar. Então, particularmente, considero que aquele gol também foi meu”, conta, entre risos.
Já Leco teve menos tempo em quadra e sabia que precisava aproveitar a chance para deixar o dele.
“Eu lembro, comecei jogando a partida. Até por minhas características mais defensivas, eu tive poucos minutos de quadra, então eu sabia que eu tinha aquele tempo para tentar fazer um gol”, recorda.
O gol saiu em um chute perto da linha de fundo. Quando voltou ao banco, já com o seu garantido, aproveitou para provocar o companheiro Carlinhos Moro.
“Eu brinquei com ele a hora que eu fui substituído ‘Carlinhos, o meu eu fiz, tá garantido, quero ver golear isso aí e tu não fazer nenhum gol’”, lembra.
Então além da cobrança para superar Portugal, havia essa brincadeira entre os jogadores: ninguém queria sair de uma goleada daquele tamanho sem participar do placar.
Com o 76 a 0, o Brasil chegou a 110 gols marcados em três jogos, sem sofrer nenhum. A goleada colocou a equipe na liderança e garantiu a vantagem do empate no encontro com Portugal, que decidiria o título.
E a vantagem fez diferença no dia seguinte. Contra Portugal, o placar ficou bem longe da goleada: o Brasil abriu o marcador com um gol do goleiro Tiago Marinho, quando faltavam três minutos para o fim. Os portugueses empataram com Pedro Costa a apenas 27 segundos do apito final, mas o 1 a 1 foi suficiente para garantir o ouro brasileiro.

Para Márcio, o título conquistado no dia seguinte é parte do que torna aquela goleada inesquecível. Ao relembrar o jogo, ele destaca a união dos companheiros para alcançar o objetivo que levaram para a quadra.
“Mais do que os meus gols individualmente, o que guardo daquela partida é justamente essa união e o comprometimento de todos os jogadores para alcançar um objetivo coletivo. No final, conseguimos conquistar o título, e isso é o que realmente tornou aquele jogo inesquecível.”
Os adversários e as lembranças que ficaram além do placar
Para entender aquele resultado, também é preciso olhar para quem estava do outro lado da quadra. Em 2006, Timor-Leste atravessava uma grave crise política e humanitária. A violência havia obrigado cerca de 150 mil pessoas a deixar suas casas, segundo registros da ONU.
As dificuldades também acompanhavam a equipe que chegou a Macau. Uma matéria da Folha de S.Paulo publicada na época relatou que os jogadores viajaram em condições precárias e só receberam tênis na véspera da estreia. Leco relata que havia atletas vivendo em campos de refugiados, numa realidade muito distante da estrutura profissional dos brasileiros.
Era uma situação que os jogadores da Seleção percebiam de perto e, para Leco, a busca pela vitória vinha acompanhada de sentimentos difíceis de separar.
“Nós estávamos sensibilizados pela situação do adversário, ainda que tivéssemos objetivos profissionais naquela competição. Eram meninos, homens que estavam lá naquele momento difícil e, mesmo sendo goleados pelo Brasil, eles mostravam uma grande satisfação de jogar contra nós”, conta.
Depois dos jogos, os brasileiros deram os calçados de presente aos adversários. Mais tarde, ao sair para confraternizar, os atletas reencontraram os timorenses, já usando os tênis que haviam ganhado.
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Duas décadas se passaram e Valdin considera difícil imaginar uma repetição daquele resultado. “Sinceramente, nos dias de hoje acho impossível, porque todas as seleções evoluíram”, avalia.
Valdin abriu seu arquivo pessoal e compartilhou com o JDV fotos da passagem pela competição. Confira:





Como isso impacta sua vida?
Quem acompanhava o futsal jaraguaense em 2006 encontrou naquela Seleção rostos conhecidos das quadras daqui. Leco, Márcio e Valdin levaram a parceria do clube até Macau e, juntos, marcaram 37 gols na vitória sobre Timor-Leste. Relembrar a partida é também revisitar aquela época do futsal de Jaraguá, pelas lembranças de quem esteve em quadra.
>> Nota da redação: Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio editorial na organização de informações e cruzamento de dados. Porém, a apuração, análise e edição do conteúdo foram realizadas pela equipe jornalística do JDV, com base em registros históricos e informações das fontes consultadas.
*Para recuperar os registros daquela partida, o JDV entrou em contato com a ACOLOP em busca da súmula oficial, de fotografias e de possíveis vídeos. A entidade informou, porém, que não havia nenhum material disponível, pois seu acervo histórico ainda está em recuperação após as mudanças de sede, de Macau para Angola e, depois, para Portugal. Então este conteúdo foi produzido a partir das memórias dos atletas e de matérias antigas disponíveis na internet.


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