Cotidiano | 19/06/2026 | Atualizado em: 19/06/26 ás 17:46

Casa Schmitz: como uma encomenda de pregos deu origem ao casarão da Marechal nos anos 1950

Construído em 1954 na Marechal Deodoro, casarão tombado abrigou loja que vendeu de panela a foguete e segue de pé no Calçadão do centro.

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Casa Schmitz: como uma encomenda de pregos deu origem ao casarão da Marechal nos anos 1950

Montagem mostra a Casa Schmitz em registro histórico e o imóvel atualmente no Calçadão da Marechal Deodoro, no centro de Jaraguá do Sul. | Foto: Acervo da família Schmitz e Google Maps

Resumo completo

Endereço: Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, em frente ao antigo prédio da Prefeitura

Construção: 1954, casarão de 360 metros quadrados em dois andares

Período de funcionamento: cerca de 60 anos, de meados dos anos 1950 a 2012

Itens vendidos: louças, panelas, cristais, brinquedos, foguetes, armas e munições

Fundadores: Waldemiro e Hildegard Leutprecht Schmitz, com sete filhos

Situação atual: imóvel tombado, restaurado e em uso comercial

Durante décadas, quem precisasse comprar uma panela, um brinquedo, fogos de artifício ou até uma arma em Jaraguá do Sul provavelmente acabava passando pela Casa Schmitz. A loja se tornou uma referência no comércio da cidade e atravessou gerações em um casarão da Marechal Deodoro que continua de pé, e fazendo parte do dia a dia local.

Mas a história do imóvel começou muito antes da construção erguida nos anos 1950. Ela nasceu de um erro de encomenda que acabou mudando o destino da família Schmitz e dando origem a um dos endereços mais conhecidos do centro de Jaraguá.

Um zero a mais na encomenda de pregos

A história preservada pela família Schmitz tem origem em um episódio que, por pouco, não se transformou em um grande prejuízo. Anos antes da construção do casarão da Marechal Deodoro, Waldemiro Schmitz recebeu uma encomenda de pregos muito maior do que havia solicitado.

Segundo a lembrança compartilhada por Áurea Schmitz em entrevista à jornalista Natália Trentini, em 2020, um erro no pedido fez chegar uma quantidade de mercadoria que parecia impossível de vender.

“Dizem que meu pai fez uma encomenda de pregos e quando chegou aquele carregamento, veio pelo trem, meu Deus, foi um absurdo, colocaram um zero a mais na quantidade”, relatou Áurea.

Diante da quantidade inesperada de mercadoria, Waldemiro resolveu encarar o desafio e buscar compradores para o estoque excedente. O sogro de Waldemiro chegou a duvidar da possibilidade de vender tudo. “‘O Waldemiro é louco’, repetia o meu avô”.

A Segunda Guerra Mundial inverteu o quadro. Com a escassez de pregos no Brasil, Waldemiro vendeu o estoque para clientes em todo o país e acumulou capital suficiente para investir em imóvel próprio. Ele comprou o terreno na Marechal Deodoro e construiu o sobrado de dois andares entre 1954 e 1955.

Casa Schmitz na Avenida Marechal Deodoro em registro histórico do centro de Jaraguá do Sul
A Casa Schmitz em registro histórico da antiga Avenida Marechal Deodoro, atual Calçadão, no centro de Jaraguá do Sul. | Foto: Acervo da família Schmitz

Loja embaixo, casa em cima

O terreno de 520 metros quadrados abrigou casa e comércio na mesma estrutura. Embaixo, na parte da frente, ficava a ampla loja com vitrines voltadas para a rua de paralelepípedos, em frente ao endereço onde funcionava a Prefeitura. Atrás, sala de jantar, sala de visitas e cozinha. Em cima, os quartos da família e um banheiro amplo. O depósito da loja ocupava os fundos, junto com a lavanderia.

A trajetória do casarão se mistura com outra peça importante do comércio familiar do centro: a Casa Leutprecht, na esquina da Marechal com a João Zapella, construída em 1939 pelo avô materno Inácio Leutprecht. A loja vendia tecidos, linhas, agulhas e botões, em uma época em que toda roupa saía da costureira. A herança desse negócio sobrevive na Loja Dona Hilária, que carrega o nome de uma tia da família.

De panela a fogos de artifício: o que se vendia na Casa Schmitz

O catálogo da loja cresceu nos primeiros anos e atendeu uma cidade que dependia do comércio do centro para quase tudo. Vendia louças, panelas, foguetes, armas, munições, porcelanas, cristais e brinquedos. Perto do Natal, o movimento exigia que a família fechasse a loja às 20h e ficasse até meia-noite repondo prateleiras.

Aos sábados e domingos, com a loja oficialmente fechada, clientes tocavam a campainha lateral em busca de fogos.

“A gente vendia o tempo todo, até deixava separado porque todo mundo queria. Era uma loucura. A gente deixava uma pilha de foguetes e passava pela janela. Eles entregavam dinheiro e a gente passava os fogos”, contou Áurea na mesma entrevista.

A redução do catálogo aconteceu aos poucos, conforme o comércio de Jaraguá do Sul foi se transformando. Os anos 1980 trouxeram a baixa de armas e munições do estoque. A chegada das lojas de R$ 1,99 dominou a categoria de plásticos, antes forte com bacias e banheiras. E lojas especializadas de brinquedo também chamaram a atenção do público. Nos últimos anos, sobraram principalmente panelas, cristais e porcelanas.

Avenida Marechal Deodoro em Jaraguá do Sul com a Casa Schmitz em registro histórico
Vista da Avenida Marechal Deodoro em décadas passadas, com a Casa Schmitz entre os imóveis que marcaram o comércio do centro de Jaraguá do Sul. | Foto: Acervo da família Schmitz

O rigor das armas e a caravana das identidades

Vender armas exigia controle pesado. A Casa Schmitz mantinha inventário minucioso do estoque e enviava mensalmente os relatórios, chamados internamente de mapas, ao Ministério da Guerra. A cada três meses, a família refazia a contagem completa, e os números precisavam bater com o registro oficial. Um inventário de julho de 1976, que sobreviveu nos arquivos da família, listava 10 revólveres calibre 22 e duas espingardas calibre 16.

A compra de uma arma também exigia documentação do cliente, e uma das exigências era a carteira de identidade, item raro entre os moradores da época.

Para resolver o gargalo, a família organizou cerca de duas viagens por semana até Joinville, onde a Delegacia Regional emitia o documento. A iniciativa permitiu que vendas pendentes andassem e fixou a loja como referência também em apoio burocrático.

A vida dentro do casarão

A família Schmitz cresceu dentro do prédio. Waldemiro e a esposa Hildegard tiveram sete filhos. Os mais velhos foram estudar fora, e os mais jovens dividiram a rotina entre escola e balcão. Os 360 metros quadrados do sobrado abrigaram também funcionárias que vinham dos bairros vizinhos, como Santa Luzia e Nereu Ramos, em busca de trabalho que viabilizasse os estudos.

A negociação era informal e típica do período. As moças passavam a semana no casarão, ajudavam na loja, e em troca tinham como frequentar a escola, já que não existia transporte diário até o centro. Aos domingos, a família levava as funcionárias de volta a seus terrenos rurais, almoçava com os pais delas e voltava com presentes como frango e ovos. Para Waldemiro, dar estudo aos próprios filhos era prioridade declarada.

O fim da loja e a venda do casarão

A morte de Waldemiro, em 1979, marcou o primeiro corte na trajetória do comércio familiar. Ele tinha 61 anos e morreu de infarto um mês antes do casamento de uma das filhas. Hildegard assumiu a loja e tocou o negócio por cerca de três décadas. Nos últimos anos, os filhos mais novos e um genro entraram na operação.

Casa Schmitz em funcionamento no centro de Jaraguá do Sul
Casa Schmitz durante os últimos anos de atividade, por volta de 2000. | Foto: Acervo da família Schmitz

A matriarca faleceu em 2010. A loja seguiu no endereço por mais dois anos, com porte bem menor, até fechar de vez. O irmão tocou o negócio em outro local por um período curto antes do encerramento total. Em seguida, a família vendeu o casarão para o comerciante Jairo Muller, que anos antes havia comprado o imóvel ao lado, onde funcionava a antiga Loja Kopmann.

Loja Kopmann em fotografia histórica da Avenida Marechal Deodoro em Jaraguá do Sul
A Loja Kopmann foi um dos estabelecimentos tradicionais da Avenida Marechal Deodoro, no centro de Jaraguá do Sul. | Foto: Acervo histórico

O casarão restaurado e o que ficou

O sobrado é estrutura tombada pelo patrimônio histórico de Jaraguá do Sul. A restauração preservou a fachada e a arquitetura dos anos 1950, e o imóvel segue em uso comercial, com o vai e vem de vendas que sempre marcou o endereço.

Quem passa hoje pelo Calçadão da Marechal Deodoro vê o casarão de pé, com as três janelas superiores que aparecem nos arquivos históricos da cidade.

A herança da família Schmitz ficou além das paredes. Os sete filhos do casal seguiram com tino para o comércio. Uma das filhas chegou a abrir loja própria de doces depois de anos atuando em outras empresas. O ciclo da Casa Schmitz, da encomenda errada de pregos ao fechamento em 2012, atravessou cerca de oito décadas da economia local.

Como isso impacta sua vida?

Para quem mora em Jaraguá do Sul, o casarão da Marechal vira mais legível depois da história. Não é só prédio antigo restaurado ao lado de outros. É registro vivo de como o comércio familiar do centro construiu a cidade que existe hoje, antes da era das grandes redes.

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Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

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