Cotidiano | 27/08/2026 | Atualizado em: 27/08/26 ás 13:33

A antiga cadeia de Jaraguá do Sul que funcionava ao lado do cemitério e assustava criminosos

Contava-se que os presos ouviam o piar das corujas e via fogo fátuo entre as sepulturas. Em 1947, alguém decidiu conferir a história de perto e registrou tudo no jornal.

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A antiga cadeia de Jaraguá do Sul que funcionava ao lado do cemitério e assustava criminosos

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial. A cadeia pública de Jaraguá do Sul funcionou no terreno do cemitério entre 1934 e 1955.

Resumo completo

Origem: baile público em 11 de agosto de 1928 arrecadou fundos para a cadeia do então Distrito de Jaraguá, município de Joinville

Construção: 1934, Rua Cel. Procópio Gomes de Oliveira, com o cemitério aos fundos

Função dupla: um galpão para cadeia e delegacia, com delegado, subdelegado, carcereiro e guarda municipal

Denúncia: texto assinado e publicado em 15 de junho de 1947, com verificação feita no local

Mudança: novo prédio na Avenida Getúlio Vargas em julho de 1955

Destino do galpão: abrigo de desabrigados e, em 1970, fábrica de tubos da Prefeitura

Na década de 1930, Jaraguá do Sul teve uma cadeia pública que funcionou por 21 anos no mesmo terreno do cemitério público, bem junto às catacumbas. O endereço era a Rua Cel. Procópio Gomes de Oliveira, e o mesmo galpão abrigava também a delegacia da cidade.

Corria um boato que havia uma explicação curiosa para o número baixo de delitos: ninguém queria passar a noite entre os mortos. Podia até parecer exagero, mas o causo era transmitido de boca em boca, até que um homem decidiu ir verificar essa história de perto.

Um baile em 1928 para pagar a cadeia

O noticiário local de 11 de agosto de 1928 publicou o convite para um grande baile público em prol da construção da cadeia pública. Jaraguá ainda era distrito de Joinville, e a arrecadação da festa entrava na conta da obra.

O prédio saiu seis anos depois, em 1934, o mesmo ano em que o distrito se emancipou. Não era uma cadeia no sentido de projeto carcerário: era um galpão grande que servia também de delegacia, com delegado, subdelegado, carcereiro e guarda municipal trabalhando no mesmo espaço.

O histórico institucional da delegacia registra dois carcereiros do período, Vicente Jesuíno de Souza e Teodoro Crescêncio da Silva.

O galpão que serviu de cadeia e delegacia entre 1934 e 1955, no terreno do cemitério, depois convertido em fábrica da Prefeitura. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

A cadeia junto às catacumbas

Em 15 de junho de 1947, um jornal local publicou uma denúncia assinada por Ildefonso Juvenal. O autor contou que duvidou da história quando lhe falaram dela, procurou a primeira oportunidade de constatar por conta própria e confirmou o que ouvira: colada às sepulturas, no terreno do cemitério, funcionava a cadeia.

“É lá, no meio dos mortos, que os vivos, perturbadores da ordem pública, pagam as suas penalidades, como antecipação do Juízo Final!”

Ele registrou também a explicação que circulava. Diziam que a localização da cadeia havia contribuído para a redução dos delitos em Jaraguá, pois quem soubesse que passaria algumas noites no escuro, cercado pelos mortos, pensaria duas vezes antes de beber em excesso ou provocar desordens. Entre os motivos de medo estavam as assombrações, o piar das corujas, o fogo fátuo que algumas sepulturas liberariam e a lembrança do Boi Tatá.

O autor da denúncia não concordava com a crença que cercava o local. Ele classificou a história como uma falsa crendice e afirmou que, independentemente da intenção de quem construiu a cadeia junto ao cemitério, a obra ignorava princípios básicos de higiene ao manter uma instalação destinada aos vivos no mesmo espaço dos mortos.

Recorte de jornal de 1947 com a denúncia assinada por Ildefonso Juvenal sobre a cadeia pública de Jaraguá do Sul funcionar no terreno do cemitério
Trecho da denúncia publicada em 1947, que cobrou a transferência da cadeia pública para longe do cemitério. Foto: Acervo Hemeroteca Digital do Estado de Santa Catarina / Jornal O Correio do Povo

Quem foi Ildefonso

A denúncia publicada em 1947 tinha uma assinatura de fora de Jaraguá do Sul: Ildefonso Juvenal da Silva. Major da Força Pública, escritor e pesquisador histórico, ele foi o primeiro homem negro a conquistar um título superior em uma instituição de ensino superior de Santa Catarina, formando-se em 1924. A participação dele no jornal jaraguaense foi pontual.

A trajetória de Ildefonso ajuda a entender o olhar usado naquele texto. Formado em Farmácia pelo Instituto Politécnico de Florianópolis, ele tratou a mudança da cadeia como uma questão de higiene, não de moral ou superstição.

Também integrante da subcomissão de Folclore do Estado e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Catarinense desde 1942, registrou as histórias de assombração ligadas ao cemitério antes de classificá-las como crendice.

Retrato antigo de Ildefonso Juvenal da Silva, escritor e pesquisador histórico catarinense, de terno e gravata borboleta
Ildefonso Juvenal da Silva, escritor e pesquisador histórico, autor da denúncia de 1947 que cobrou a transferência da cadeia pública.

Oito anos entre o pedido e a mudança

A denúncia de 1947 não foi a primeira manifestação sobre o problema. O histórico da delegacia registra que em 1940 já havia discussões em torno da segurança dos presos e dos problemas de higiene do local. Ele pediu, por escrito, que a cadeia fosse transferida para outro lugar, em edifício construído conforme os preceitos da higiene moderna.

A transferência aconteceu em julho de 1955, para um prédio novo na Avenida Getúlio Vargas. Foram oito anos entre o pedido publicado e a mudança, e quinze desde as primeiras discussões registradas. Juvenal chegou a sugerir que o galpão desocupado servisse de ossário público ou depósito de artigos funerários.

O destino acabou sendo outro: depois de deixar de abrigar presos e policiais, o espaço passou por novas funções dentro da cidade.

Praça com academia ao ar livre na Avenida Getúlio Vargas, no terreno onde funcionou a cadeia pública de Jaraguá do Sul a partir de 1955
O terreno que recebeu a cadeia pública em 1955, na Avenida Getúlio Vargas, hoje é uma praça de convívio. Foto: JDV

Do cemitério à fábrica de tubos

Em 10 de outubro de 1970, o noticiário da época publicou uma foto do antigo galpão e contou o que havia acontecido com ele após a mudança da delegacia para a Avenida Getúlio Vargas. O prédio nos fundos do Cemitério Municipal primeiro serviu como abrigo para desabrigados e, depois, ficou sem uso.

A Prefeitura então destinou o espaço para a Fábrica de Tubos e Lajotas do Departamento de Serviços Gerais, que naquele momento estava em fase de acabamento. A adaptação exigiu uma nova função para o antigo prédio da cadeia: o local foi preparado para a entrada de caminhões e o armazenamento de materiais. De lá sairiam tubos usados no saneamento da cidade. As lajotas para pavimentação das ruas, citadas no texto da época, ainda eram uma previsão.

O Presídio Regional de Jaraguá do Sul, na Rua Alvino Flor da Silva, atende também Corupá, Schroeder, Massaranduba e Guaramirim. Foto: SC GOV

O galpão construído em 1934 concentrava diferentes funções públicas em um mesmo espaço. Hoje, esses serviços têm estruturas próprias. A Delegacia de Polícia Civil funciona desde 2001 em um prédio próximo ao Fórum, na Rua Manoel Luiz da Silva. A custódia dos presos ganhou endereço separado com a inauguração do Presídio Regional, em 1996, na Rua Alvino Flor da Silva, no Jaraguá 84.

Nenhum dos dois espaços atuais divide mais suas funções com um cemitério. A mudança representa a distância entre a estrutura improvisada das décadas passadas e a organização dos serviços públicos de hoje.

Como isso impacta sua vida?

A cadeia de Jaraguá do Sul que funcionou ao lado do cemitério ficou no passado, mas a história ajuda a entender como a cidade mudou a forma de organizar seus serviços públicos. O prédio que um dia reuniu presos, policiais e celas hoje é parte da memória de um período em que a estrutura era improvisada e as soluções precisavam acompanhar o crescimento do município.

>> Agradecimento especial ao policial Jonathan Ferreira pela ajuda no desenvolvimento desse artigo.

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Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

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