De hotel a fábrica de bombons: a história do casarão centenário que coroa o Calçadão de Jaraguá do Sul
Construído ainda nos primeiros anos do século passado, o casarão preserva parte da história e da memória do Centro de Jaraguá do Sul.
Casarão Emmendörfer em Jaraguá do Sul, após o processo de reforma e adaptação concluídos. | Foto: Max Pìres / JDV - Maio 2026
Resumo completo
Casarão Emmendörfer foi construído por volta de 1912 no Centro de Jaraguá do Sul
Imóvel histórico já funcionou como hotel, restaurante, comércio e fábrica de bombons
Primeira missa da Paróquia São Sebastião aconteceu no pavimento superior da casa
Casarão acompanhou o crescimento de Jaraguá do Sul desde quando a cidade ainda era distrito
Família Emmendörfer esteve ligada ao desenvolvimento econômico da região no início do século passado
Imóvel ficou fechado por anos após a saída da loja Lolita, em 2012
Processo de restauração preservou características originais da construção centenária
Nova fase do casarão terá loja, cafeteria, espaços culturais e ambientes de convivência
Projeto busca devolver circulação de pessoas ao casarão histórico no coração da cidade
Casarão histórico do Calçadão de Jaraguá será reaberto após anos de abandono
Por mais que a paisagem do centro de Jaraguá do Sul tenha mudado ao longo das décadas, algumas construções ainda têm o poder de nos transportar para outras épocas. É o caso do casarão centenário que fica na esquina da Marechal Deodoro da Fonseca (Calçadão) com a Rua Cel. Procópio Gomes.
Muito antes de a cidade se tornar oficialmente um município, aquele casarão já fazia parte do cenário urbano. Ao longo de mais de um século, o imóvel já foi lar de uma família, hotel, restaurante, comércio e até sede de uma fábrica de bombons. A última ocupação comercial do espaço funcionou até 2012, antes de permanecer fechado por anos.
Nos últimos meses, o imóvel tombado voltou a chamar atenção por causa das obras de restauração e da movimentação no local. Agora, o casarão se prepara para iniciar um novo capítulo, trazendo novamente vida para um dos endereços mais simbólicos do coração da cidade.
Mas antes de novas memórias começarem a ser criadas por ali, o JDV decidiu revisitar a trajetória escondida por trás daquelas paredes antigas. Uma história que acompanha o crescimento de Jaraguá do Sul desde os primeiros anos do século passado.

A família que encontrou em Jaraguá um novo começo
Conhecido também como Casa Emmendörfer, o imóvel leva o sobrenome da família responsável pela construção desta que é uma das edificações mais tradicionais do centro de Jaraguá do Sul.
Natural de Brusque, José Emmendörfer nasceu em 1881 e se casou com Augusta Karger em Blumenau, em 1907. O casal viveu inicialmente em Gaspar, onde nasceu o primeiro filho, Rudolpho Guilherme. Mais tarde, a família ainda teria Frederico e Lucila Emmendörfer, que anos depois herdaria o casarão e se tornaria uma figura conhecida pelas ações beneficentes na cidade.
Conteúdos em alta
Poucos anos depois, em 1910, José decidiu seguir rumo ao Norte catarinense acompanhado da esposa, do filho, dos pais e dos irmãos solteiros.
O destino original era Joinville, que naquele período já despontava como um importante centro econômico da região. Mas a trajetória mudou durante a passagem pelo Vale do Itapocu. Segundo registros históricos, José percebeu o potencial de crescimento de Jaraguá principalmente por causa da expansão ferroviária e da movimentação econômica que começava a surgir ao redor da linha do trem.
A decisão de permanecer na região acabaria mudando não apenas o futuro da família, mas também parte da própria história da cidade.
Pouco tempo depois da chegada, José Emmendörfer adquiriu um terreno localizado entre as atuais ruas Marechal Deodoro, Procópio Gomes e a linha férrea. Em uma Jaraguá ainda marcada por poucas construções e ruas de chão batido, a localização rapidamente se tornou estratégica para os negócios da família.

Foi ali que nasceu o casarão que atravessaria mais de um século acompanhando as transformações do município.
Hotel, comércio e fábrica: a vida movimentada do casarão
Segundo os registros, explica a historiadora Silvia Kita, a edificação já estava de pé em 1912 e rapidamente se tornou um dos endereços mais movimentados da região central de Jaraguá.
“Era uma construção muito ligada ao cotidiano da cidade. O imóvel tinha diferentes funções e acompanhava o crescimento econômico de Jaraguá naquele período”, explica.
Além de residência da família Emmendörfer, o espaço funcionou como hotel, restaurante, comércio e ponto de circulação de viajantes e moradores. Os registros históricos mostram que, já em 1912, o imóvel também abrigava uma fábrica de bombons considerada a primeira da cidade.

Pouco depois, outros negócios passaram a funcionar ligados à família, incluindo fábrica de bebidas refrigerantes, botequim, fábrica de vinagre, funilaria, serraria e fabricação de venezianas.
Documentos da época ainda apontam que José Emmendörfer atuava como representante comercial e vendedor de rádios de madeira, ampliando a presença da família em diferentes áreas da economia local. Desta forma, ele se tornou um dos personagens ligados ao desenvolvimento econômico da cidade nas primeiras décadas do século passado.
Em 1917, ele adquiriu uma serraria próximo da atual rua Jacob Buck e instalou uma fábrica de venezianas, atividade que permaneceria por décadas na família Emmendörfer. Mais tarde, a produção evoluiu para persianas e seguiu ativa até os últimos anos de vida da filha Lucila Emmendörfer.
A primeira missa também aconteceu ali
Entre todas as histórias ligadas ao casarão Emmendörfer, uma das mais simbólicas aconteceu ainda nos primeiros anos da formação da comunidade jaraguaense. Foi no pavimento superior do imóvel que aconteceu a primeira missa da Paróquia São Sebastião, celebrada pelos padres Henrique Meller e Pedro Franken quando Jaraguá ainda era distrito de Joinville.
O espaço também serviu como ponto inicial da escola paroquial da cidade, que permaneceu funcionando ali até 1919, antes de passar para a administração das Irmãs da Divina Providência, próximo à Capela Santa Emília.
Ao longo das décadas, o lugar acompanhou as transformações da cidade e passou por diferentes ampliações e adaptações feitas pela própria família Emmendörfer. Em 1938, José realizou alterações na estrutura da residência. Nos anos seguintes, o imóvel ganhou novos espaços, garagem, caixa d’água, muro e anexos.
Já em 1960, quando a propriedade estava no nome de Lucila Emmendörfer, filha de José e Augusta, a casa passou por novas intervenções, incluindo lavanderia, mudanças no telhado e renovação dos revestimentos internos e externos.
Lucila herdou oficialmente o imóvel da família no fim da década de 1950 e, anos mais tarde, deixou o casarão para a Ação Social de Jaraguá do Sul por meio de testamento. Conhecida pelo envolvimento em ações beneficentes na cidade, ela também participou de outras iniciativas sociais importantes, incluindo a doação do terreno onde foi construído o Lar das Flores.
Um patrimônio histórico à espera de uma nova vida
A última ocupação comercial do casarão funcionou até 2012, quando o imóvel ainda abrigava a loja Lolita. Depois disso, o espaço permaneceu fechado por anos e passou a enfrentar um longo período de abandono no coração da cidade.



Quem circulava pela região central via um lugar cada vez mais silencioso, marcado pelo desgaste do tempo e pela falta de manutenção. Mesmo carregando parte importante da memória urbana de Jaraguá do Sul, o imóvel chegou a enfrentar deterioração severa ao longo dos anos.
Nos últimos anos, porém, o cenário começou a mudar.

O restauro da edificação foi realizado a partir de um projeto desenvolvido pela Mattedi Arquitetura, e executado pela Cúbica Construções, com foco na preservação das características originais do imóvel. Por ser um imóvel tombado, a recuperação buscou respeitar elementos históricos da construção enquanto preparava o espaço para um novo uso contemporâneo.
Como o casarão pertence atualmente à Ação Social de Jaraguá do Sul, instituição que recebeu o imóvel por meio de doação feita por Lucila Emmendörfer, o uso do espaço precisava seguir uma condição ligada ao próprio testamento da antiga proprietária: manter o imóvel associado a atividades culturais e voltadas à comunidade.
A proposta pensada para a nova fase da edificação acabou se conectando diretamente com essa característica histórica do imóvel.
O novo capítulo do casarão

Mais de um século depois da construção, o imóvel agora está sendo preparado para voltar a fazer parte da rotina diária da cidade.
A nova proposta de ocupação vem da empresária Anne Marie Werninghaus Tavares, que pretende transformar o espaço em um ambiente voltado para moda, cultura, convivência e experiências. No dia 27 de abril deste ano, ela publicou em suas redes sociais um vídeo anunciando a iniciativa:
Questionada sobre a ideia, Anne Marie declarou:
“Assim que entrei na casa senti que ela tinha alma; e um potencial enorme para algo diferente do convencional. O casarão sempre teve movimento, encontros e circulação de pessoas ao longo da história. Acho bonito poder devolver isso para a cidade de uma forma contemporânea, mas respeitando toda a essência do imóvel”.


A reabertura do edifício acontece antes do segundo semestre deste ano. A proposta inclui, além de boutique de roupas e acessórios femininos A. Marie, uma cafeteria com proposta artesanal, ambientes de convivência, ativações culturais e também um espaço de leitura, ainda em fase final de negociação.
>> Leia também: Loja, cafeteria e espaço cultural: saiba tudo sobre o novo momento do casarão histórico no calçadão de Jaraguá
Estrutura preserva o passado para respirar o presente
Depois da recuperação estrutural do casarão, o imóvel, então, entrou em uma nova etapa: a adaptação dos espaços para a operação que passará a funcionar ali. Responsável pelo projeto interno desta nova fase do prédio, a arquiteta Beatriz Fruet explica que o principal desafio foi justamente criar equilíbrio entre funcionalidade e memória histórica.
“O maior erro da preservação antiga era transformar casarões em museus intocáveis e, muitas vezes, vazios. Ao colocar uma loja, um café e um programa cultural, você garante a sobrevivência do imóvel pelo uso”, avalia.

Para Anne Marie, a revitalização também parte da ideia de manter a edificação conectada à rotina da cidade, sem transformar o patrimônio em um espaço parado no tempo.
“Preservar não significa congelar um espaço no tempo, mas sim mantê-lo vivo e relevante para as pessoas. Quando um imóvel histórico ganha novos usos e volta a fazer parte da rotina da cidade, ele cria novas memórias sem perder sua essência”, afirma.
Como isso impacta sua vida?
Em uma cidade que viu muitos imóveis históricos desaparecerem ao longo das décadas, o restauro do Casarão Emmendörfer devolve movimento a um dos pontos mais simbólicos do centro de Jaraguá do Sul e reacende a discussão sobre preservação urbana, memória e ocupação dos espaços históricos da cidade. Mais de 110 anos depois da construção, ele continua cumprindo a função que sempre teve: reunir pessoas, histórias e circulação no coração de Jaraguá.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.