COLUNISTAS: Escritor jaraguaense confessa furto de carro e explica o que realmente aconteceu
Você julgaria alguém pela primeira frase? Essa crônica prova que nem tudo é o que parece.
Foto: Ilustração editorial que representa o engano narrado na crônica
Já furtei um carro. Você pode estar pensando que essa crônica tem uma pegadinha ao final, que irei dizer que acordei do sonho – ou do pesadelo, no caso. Mas esse furto é realidade na minha ficha corrida.
Foi um Volkswagen. Antes que o leitor mais puritano abandone esse texto, quero deixar claro que posso explicar. O doutor Dráuzio Varella, que trabalhou décadas em penitenciárias, disse em uma entrevista que todos os detentos eram inocentes, segundo as suas próprias versões. Esta é a minha.
Meu colega de trabalho, o Barão, e sua esposa, a Baronesa, tinham três crianças. Quando ele viajava a trabalho, estava combinado: eu ficava responsável por levar e buscar, as gêmeas na escola e o menino na creche, enquanto durasse o serviço externo dele.
Na época eu era universitário – o Barão e eu estudávamos e trabalhávamos juntos. Como eu não tinha carro, ele deixava o VW Voyage comigo e eu passava a semana motorizado, e podia até fazer minhas compras no supermercado, sem limitações.
Numa dessas viagens, ele saiu atrasado e deixou a chave sobre minha mesa. Não era difícil localizar o carro Vinho Burgundy, o popular bordô, no estacionamento da empresa.
Na hora do almoço, já avistei o carro, parado na rua, pois, o estacionamento da firma enchia em dias de chuva. Fui ao bar da esquina, tomei minha Coca-Cola e voltei para terminar o expediente.
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Avisei minha colega, Mirella, que iríamos de carro para a aula.
Não tínhamos muito tempo para sair da empresa, pegar um lanche e chegar na faculdade. Era tudo às pressas.
Passamos a portaria, dobramos a esquina do bar, e lá estava a nave, era a minha Ferrari momentânea, com cheiro de mofo, pois entrava água numas frestas do assoalho.
Coloquei meus R$ 5,00, do lanche, no console do carro. Estranhei a posição do banco, muito para trás, sendo que o Barão e eu temos a mesma estatura mediana, e o rádio toca-fitas, que agora era mais moderno, autoreverse e “de gaveta”.
Não deu tempo para analisar mais nada.
Saiu um Alemão enorme, sem camisa e gritando, de dentro da casa, onde o carro estava estacionado defronte:
– Meu carro! Sai do meu carro!
Não entendi nada. Ele chegou mais perto e mudou a frase…
– Mirella?! O que “tu faz” no meu carro?
Por sorte, ele e a Mirella frequentavam a mesma igreja e ela, diferente de mim, já estava rindo da situação, desde o primeiro grito.
Naquela época, o miolo das fechaduras mecânicas dos carros gastava e qualquer objeto pontudo poderia abrir uma porta naquela situação. Era comum as pessoas terem um molho de chaves para um carro só, cada uma abria uma porta e outra ligava a ignição.
Fiz toda a explicação para a família, pedi desculpas e pensei em abandonar tudo ali e ir pra casa. Mas tinha que levar os Barõezinhos, no outro dia.
Na manhã seguinte, quando cheguei perto da portaria, estava o Alemão e a mãe dele conferindo se eu realmente chegaria num carro igual ao deles.
Semana passada, mais de 20 anos depois, um casal de compadres, pediu meu CPF, para deixar uma autorização na escola do filho deles, caso eu precise buscá-lo, qualquer dia.
Para prestigiar o leitor, que não se limitou a fazer uma leitura dinâmica na chamada desta crônica e que não vai deixar saírem por aí, dizendo que um escritor jaraguaense “roubou” um carro e foi preso, vou entregar os três finais pensados para essa estória:
Meses depois da confusão do furto, Mirella chegou na minha mesa, em uma segunda-feira, com um belo sorriso no rosto e confidenciou que teve momentos íntimos com o Alemão – possivelmente no Voyage Vinho dele.
Os filhos do meu amigo Barão, hoje são: uma arquiteta, um médico e uma jornalista. Ainda me chamam de tio e me chamam para os seus aniversários.
O Voyage não foi a única coisa que furtei. Adianto que sou inocente.
Parafraseando o filósofo Ariano Suassuna (1927-2014): Tudo que é ruim de passar é bom de contar.
Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no Cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora.
marcelolamasbr@gmail.com
Marcelo Lamas
Marcelo Lamas Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.