Cotidiano | 09/04/2026 | Atualizado em: 09/04/26 ás 14:45

De SC ao Vaticano: a história da jaraguaense que descobriu ser parente de um Papa

Jaraguá do Sul, Luiz Alves e cidades da região carregam a rara história de uma família com parentesco com o Papa João Paulo I, conhecido como “Papa Sorriso”.

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De SC ao Vaticano: a história da jaraguaense que descobriu ser parente de um Papa

Foto: Vaticano News/Arquivo familiar

Para os praticantes da fé católica, ter um familiar no sacerdócio já é motivo de orgulho. Mas, no caso da jaraguaense Iria Tancon, essa ligação com a religiosidade foi além: um de seus parentes chegou ao posto mais alto de liderança da Igreja Católica, o papado.

Descendente de uma família de origem italiana espalhada por Jaraguá do Sul, Luiz Alves e cidades da região, ela carrega em sua história um elo direto com Albino Luciani, o Papa João Paulo I.

Ele foi anunciado Papa em 26 de agosto de 1978 e permaneceu no cargo até 28 de setembro do mesmo ano, quando um infarto do miocárdio encerrou sua missão; uma das mais curtas da história, com apenas 33 dias.

Por sua humildade, simplicidade e proximidade com o povo, ficou conhecido como o Papa Sorriso.

Papa João Paulo I sorrindo em área externa do Vaticano durante seu pontificado
Papa João Paulo I durante seu breve pontificado em 1978 – Foto: Reprodução/Vatican News

A diáspora que separou a família e o reencontro

A história da família Tancon foi marcada pela diáspora italiana – um dos maiores movimentos migratórios da história, entre 1880 e 1970. Enquanto parte dos familiares permaneceu na Itália, outros deixaram tudo para buscar uma nova vida no Brasil.

Foi o caso de Giovanni Valentino Tancon, que se estabeleceu em Luiz Alves, em Santa Catarina. Na cidade natal, Canale D’agordo, na região do Vêneto, permaneceu sua prima em primeiro grau, Bortola Tancon Luciani. Eles cresceram juntos na cidade natal, antes de a família se dividir entre Itália e Brasil.

Os imigrantes italianos Giovanni Valentino e Fortunata Tancon (sentados) com os filhos

Mesmo com o oceano entre eles, o vínculo familiar se manteve. Bortola e Giovanni Valentino trocavam correspondências com frequência, por meio de cartas, textos e imagens que mantinham viva a conexão com a terra natal.

Com o passar dos anos, cada ramo da família seguiu seu caminho em países diferentes. Giovanni recomeçou a vida no Brasil ao lado da esposa e dos filhos, ampliando a família. Já Bortola permaneceu na Itália, onde também teve filhos, entre eles Albino Luciani, que mais tarde ingressaria no sacerdócio.

A italiana Bortola Tancon Luciani, mãe de Albino Luciani (Papa João Paulo I)

O acaso que levou ao reencontro

Décadas depois, em 1978, um acontecimento inesperado mudou essa história. A jaraguaense Iria Tancon – neta de Giovanni Valentino – recebeu um convite para ir à Itália estudar o Santo Sudário, uma relíquia da Igreja Católica. Antes da viagem, seu pai, Ângelo Tancon, mostrou a ela fotografias de familiares italianos enviadas por Bortola.

Em uma dessas imagens, apareciam dois jovens seminaristas. Um deles seguiria a vida religiosa, o outro não.

No dia 16 de março de 1978, Iria chegou à Itália e iniciou seus estudos. Com a rotina intensa, acabou deixando temporariamente de lado a missão de procurar os familiares.

Jazigo de Angelo Tancon e sua esposa Lilioza

Porém, durante sua estadia, um diretor da instituição onde estudava pediu que ela redigisse um documento destinado a todos os bispos da Itália. Ao analisar a lista de nomes, um chamou sua atenção, Albino Luciani. O nome não era estranho. Ele estava presente nas fotografias enviadas pela prima Bortola.

Diante da coincidência, Iria decidiu escrever para ele. A resposta veio rapidamente, e os dois marcaram um encontro.

O encontro com o primo cardeal

Assim acontecia, na Itália, o reencontro entre os ramos familiares. Os dois primos marcaram um almoço em uma instituição religiosa. Inicialmente, Iria ficou envergonhada, mas o sentimento logo deu lugar à surpresa diante da simplicidade do primo, então cardeal.

Durante o encontro, ele intermediou o contato com o irmão Edoardo, o que permitiu que Iria conhecesse outros membros da família na Itália.

Em maio daquele ano, ela participou do primeiro encontro com familiares italianos, fortalecendo os laços que haviam sido interrompidos por gerações.

O conclave que mudou tudo

No dia 6 de agosto de 1978, a morte do Papa Paulo VI deu início a um novo momento na Igreja Católica.

Como cardeal e chefe da Conferência Italiana de Bispos, Luciani explicou que estaria envolvido na organização do conclave, o processo que escolheria o novo Papa. Por esse motivo, ao ser convidado por Iria para um novo encontro, respondeu que só poderia atendê-la após o término desse período.

Mas o que aconteceu em seguida mudaria completamente o rumo da história. Durante o conclave, o cardeal Albino Luciani foi escolhido como novo líder da Igreja Católica. O anúncio “habemus Papam” confirmou sua eleição, e ele passou a adotar o nome de João Paulo I.

Sem imaginar o que estava prestes a acontecer, Iria acompanhava tudo da Praça de São Pedro. Ao ouvir o nome do novo Papa, percebeu que se tratava de seu próprio primo, em um dos momentos mais marcantes dessa história familiar.

Na audiência privativa de João Paulo I com os familiares, ela foi convidada a acompanhar e teve a oportunidade de vê-lo já ungido pontífice.

Um pontificado breve e marcante

O pontificado de João Paulo I durou apenas 33 dias. Um infarto do miocárdio encerrou sua trajetória de forma precoce. Ainda assim, seu nome ficou registrado na história da Igreja Católica e na memória de quem acompanhou aquele período.

O legado em Jaraguá do Sul

De volta ao Brasil, Iria Tancon seguiu um caminho de forte atuação cultural e educacional.

Ela ajudou a fortalecer as conexões entre Brasil e Itália, especialmente em Jaraguá do Sul. Participou da fundação do Círculo Italiano e da comissão de construção da Chiesetta Alpina (dedicada aos imigrantes e ao próprio João Paulo I).

Também teve papel relevante na educação, atuando no ensino secundário e superior. Entre suas funções, esteve a de pró-reitora educacional e vice-reitora da Unerj, atual Faculdade Católica de Santa Catarina em Jaraguá do Sul.

Sua formação inclui doutorado pela Pontifícia Universidade Salesiana de Roma.

Curiosidades

>> Antes de ser eleito Papa, Albino Luciani esteve no Brasil, onde visitou regiões de imigração italiana em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

>> Em 2022, Albino Luciani foi beatificado pelo Papa Francisco, após o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, a cura de uma menina de 11 anos na Argentina.

>> A família Tancon existe há pelo menos cinco séculos, com antepassados registrados no ano 1.500. A partir da emigração de italianos para o Brasil, uma parte dela se separou e voltou a se reencontrar. No diagrama abaixo, a genealogia que liga as Iria Tancon a Albino Luciani (Papa João Paulo I).

Como isso impacta sua vida?

Histórias como a da família Tancon mostram como conexões familiares podem atravessar continentes e gerações, ligando o Vale do Itapocu a um dos lugares de fé mais importantes do mundo. Mais do que um fato histórico, é um exemplo de como a identidade cultural e as raízes familiares continuam vivas na região, influenciando até hoje a história local.

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Marcio Martins

Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público. Observador, contador e protagonista de histórias, conheço Jaraguá do Sul como a palma da mão

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