Cotidiano | 24/07/2026 | Atualizado em: 24/07/26 ás 18:36

Há 50 anos: veja como foi o discurso do neto do fundador de Jaraguá do Sul no centenário da cidade

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Há 50 anos: veja como foi o discurso do neto do fundador de Jaraguá do Sul no centenário da cidade

Filho de Emílio Jourdan, tenente-coronel Rodolfo Jourdan durante a inauguração do busto do pai em Jaraguá do Sul. | Foto: A Gazeta: Voz do Povo/Restauração/JDV

A relação entre a família de Emílio Carlos Jourdan e Jaraguá do Sul não terminou quando o fundador deixou a cidade e retornou ao Rio de Janeiro. Ao longo das décadas, filhos, netos e bisnetos voltaram ao município em diferentes momentos para participar de homenagens e celebrações, reforçando o vínculo com a história da cidade.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu durante as comemorações do Centenário, em 1976, quando o tenente-coronel Carlos Augusto Leal Jourdan discursou em nome da família diante das principais autoridades catarinenses.

Quando Emílio Carlos Jourdan chegou à então Colônia Jaraguá, o fundador já era casado e pai – e ainda teve outros descendentes nascidos no município. Mesmo após sua morte, diversas gerações da família atenderam aos convites feitos pela comunidade para participar de homenagens em sua memória.

E o reconhecimento da cidade ao fundador se materializou, entre outras iniciativas, na instalação da herma com seu busto na Praça Ângelo Piazera, monumento erguido com apoio da comunidade local e que permanece como um dos principais marcos da memória de Emílio Carlos Jourdan.

>> Leia também: Quem é o homem de bigode que ganhou um busto há mais de 80 anos no Centro de Jaraguá do Sul?

Foto: Divulgação/Prefeitura de Jaraguá do Sul

Esta reportagem integra uma série especial do JDV que resgata histórias, personagens e curiosidades de Jaraguá do Sul, em homenagem aos 150 anos de fundação da cidade.

O discurso que marcou o Centenário de Jaraguá do Sul

Nas comemorações dos 100 anos de Jaraguá do Sul, realizadas em 1976, a família Jourdan esteve representada oficialmente pelo tenente-coronel Carlos Augusto Leal Jourdan, neto de Emílio Carlos Jourdan.

Durante o banquete comemorativo do Centenário, ele falou em nome da família e também representou sua tia, Helena Jourdan Ruiz, então a única filha viva do fundador, com 92 anos de idade.

O evento reuniu importantes autoridades estaduais e regionais, entre elas o governador Antônio Carlos Konder Reis, o vice-governador Marcos Henrique Buechler, o presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Ari Pereira Oliveira, o senador Otair Becker, Evelásio Vieira, deputados federais e estaduais, prefeitos da região e outras autoridades.

>> Clique aqui para descobrir como foram as comemorações do Centenário da cidade em 1976.

O discurso relembrou a chegada de Emílio Carlos Jourdan à Colônia Jaraguá, destacou sua trajetória como militar e colonizador e apresentou uma reflexão sobre o legado deixado pelo fundador.

Logo no início, Carlos Augusto Leal Jourdan reconhece a responsabilidade de representar a família:

“Por temperamento e natural acanhamento sou eu, na família do fundador de Jaraguá do Sul, o menos qualificado para representá-la e falar sobre Emílio Carlos Jourdan.”

Em seguida, explica que aceitou a missão em respeito à tia Helena Jourdan Ruiz:

“Quizeram as circunstâncias que estivesse eu livre para viajar; por outro lado não quiz desapontar minha velha Tia Helena, única filha viva do fundador de Jaraguá do Sul, com seus 92 anos de idade.”

Ao recordar a chegada dos primeiros colonos, o neto do fundador reproduziu uma frase atribuída ao coronel Emílio Carlos Jourdan, preservada pela memória de Calixto Borges:

“Rapazes! Aqui eu quero fundar uma grande Usina de Açúcar. Essa terra será de grande futuro para o Brasil.”

Ao longo da homenagem, Carlos Augusto também destacou as dificuldades enfrentadas por Emílio Carlos Jourdan durante o processo de colonização e sua experiência adquirida antes de chegar a Jaraguá do Sul.

Segundo o discurso, o fundador já tinha 38 anos quando iniciou o empreendimento colonizador e havia atuado como militar, chefe de turma de pontoneiros na Guerra do Paraguai, participado de trabalhos de abertura de estradas, exploração de minérios, integrado comissões de limites do Itamaraty, trabalhado na E.F.C.B. e exercido a função de juiz de paz nas comarcas de Joinville e Rio Negro.

Dois retratos de época de Emílio Carlos Jourdan, um fardado e outro jovem ao lado da esposa Helena Caffier
Emílio Carlos Jourdan em dois momentos: à esquerda, em uniforme militar; à direita, mais jovem, ao lado da esposa, a francesa Helena Caffier.

O encerramento do discurso sintetizou a mensagem dirigida aos jaraguaenses durante as comemorações do Centenário:

“É com intenso regozijo que verifico que os objetivos desse pioneiro, de quem tenho tanto orgulho de descender, foram alcançados e até mesmo ultrapassados: Ele desejava uma Usina de Açúcar; respondeu a gente desta terra dando-lhe uma comunidade unida e coesa muito mais importante.”

E concluiu:

“Se o Coronel Jourdan estivesse aqui, iria agradecer ao povo que me ouve, o presente que lhe deu. Como ele não está e eu represento, cabe me dizer: obrigado, povo de Jaraguá do Sul.”

Confira o discurso na íntegra, sem alteração de grafia da época:

Discurso do dr. Carlos Augusto Leal Jourdan no Banquete Comemorativo do Centenário de Jaraguá do Sul

“Por temperamento e natural acanhamento sou eu, na família do fundador de Jaraguá do Sul, o menos qualificado para representá-la e falar sobre Emilio Carlos Jourdan.
Creiam, porém, que me sinto honrado e pequeno, diante da tarefa e da magnitude desta Cidade e de seu povo.
Quiseram as circunstâncias que estivesse eu livre para viajar; por outro lado não quis desapontar minha velha Tia Helena, única filha viva do fundador de Jaraguá do Sul, com seus 92 anos de idade.
Aceitei o encargo. Aceitei e aqui estou para cumprir a representação e atender ao convite, nesta gloriosa semana do Centenário de Jaraguá do Sul.
Vim para falar de meu avô, para recordar sua história e temia cansá-los com uma conversa monótona. Temia e, confesso, não sabia como começar.
A cidade deu-me, contudo, a solução. Basta-me recordar a cena histórica do desembarque sem pretensões de 60 simples lavradores, de uma canoa trazida por 5 remadores, animados pela centelha de um predestinado.
O velho Calixto Borges, cujos músculos jovens retesaram-se naquele dia para ajudar a impelir a canoa, costumava relatar a cena imitando a fala estrangeira do Coronel Jourdan.
‘Rapazes! Aqui eu quero fundar uma grande Usina de Açúcar. Essa terra será de grande futuro para o Brasil.’
Sua luta visava um fim modesto. Ele não podia supor que estava iniciando uma epopéia e que o povo desta cidade iria dar muito mais, iria muito além de uma simples Usina de Açúcar.
E, note-se que o velho Coronel teve de lutar por seu sonho até a morte como luta e trabalha a gente desta cidade.
Ele conservou vivo o sonho de duas iniciativas, mantendo-as com os precários meios de transporte, com a falta de recursos e até mesmo com a incompreensão de alguns. Mas estes passaram e Jaraguá do Sul permaneceu e crescerá, em busca de seu glorioso destino.
Jaraguá do Sul foi fundada por um homem experimentado. O Coronel Jourdan, ao fincar sua bandeira neste solo já tinha 38 anos de idade e se preparara para o empreendimento de colonizador, porque trabalhara heroicamente como militar, chefe de turma de Pontoneiros em campanha do Paraguai e desempenhara várias comissões civis importantes, técnica e administrativamente, como seja: abertura de estradas, exploração de minérios, membro de Comissões de limites do Itamarty, engenheiro da E.F.C.B. e até Juiz de Paz nas Comarcas de Joinville e Rio Negro.
Uma vida norteada sempre por uma fé constante e inabalável nos destinos de nossa Pátria, que era a sua, por adoção.
É com intenso regozijo que verifico que os objetivos desse pioneiro, de quem tenho tanto orgulho de descender, foram alcançados e até mesmo ultrapassados.
Ele desejava uma Usina de Açúcar; respondeu a gente desta terra dando-lhe uma comunidade unida e coesa muito mais importante.
Se o Coronel Jourdan estivesse aqui, iria agradecer ao povo que me ouve, o presente que lhe deu.
Como ele não está e eu represento, cabe me dizer: obrigado, povo de Jaraguá do Sul.”

Visitas reforçaram o vínculo da família com Jaraguá do Sul

As homenagens ao fundador também aproximaram seus descendentes da cidade ao longo do século XX.

Em julho de 1941, sua filha Helena Jourdan Ruiz esteve em Jaraguá do Sul para agradecer, em nome da família, a homenagem que seria prestada ao pai.

Poucos meses depois, em outubro de 1941, outro filho do fundador, o tenente-coronel Rodolfo Jourdan, participou da cerimônia de inauguração do prédio da Prefeitura e da própria herma em homenagem a Emílio Carlos Jourdan. Além de comparecer ao evento, também colaborou com a campanha realizada para a construção do monumento.

Décadas mais tarde, nos anos 1990, outra representante da família esteve na cidade. A bisneta Edith Jourdan de Lucena, casada com o ministro do Exército no governo Fernando Henrique Cardoso, Zenildo Zoroastro de Lucena, participou de compromissos em Jaraguá do Sul, dando continuidade à presença dos descendentes do fundador nas homenagens promovidas pelo município.

Como isso impacta sua vida?

Conhecer episódios como o discurso de Carlos Augusto Leal Jourdan ajuda a compreender como a memória de Jaraguá do Sul foi construída ao longo das gerações. As sucessivas visitas de descendentes de Emílio Carlos Jourdan às homenagens promovidas pela cidade mostram que a história do fundador continuou presente não apenas nos monumentos e documentos, mas também na relação mantida entre sua família e a comunidade jaraguaense.

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Marcio Martins

Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público.

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