A história das gatinhas resgatadas em Jaraguá do Sul que mudaram a vida de um casal em luto
Foto: Arquivo pessoal
Quando Flávia e Tiago apagaram a luz da sala em uma noite de maio de 2025, as duas gatas recém-adotadas ainda se escondiam pela casa. Tinham chegado há pouco tempo, desconfiadas, assustadas e sem coragem de se aproximar dos novos tutores.
Minutos depois, as câmeras instaladas no apartamento registraram uma cena que o casal nunca esqueceu.
As duas subiram em silêncio até o móvel da sala onde estavam as fotos e as cinzas das gatas que Flávia e Tiago haviam perdido meses antes. Uma viveu 15 anos com a família. A outra, 12.
Mãe e filha, as gatinhas Dodô e Lindinha ficaram ali por quase quarenta minutos. Imóveis, olhando para os retratos.
“Parecia que estavam entendendo se ali seria um lugar seguro para elas”, lembra Flávia.
Depois desceram. Comeram. Começaram, pela primeira vez, a explorar a casa.

O medo que vinha da rua
A história de Dodô e Lindinha começou muito antes daquela noite. Foi a protetora Dígia Deretti quem recebeu o pedido de resgate das duas. A mãe chegou em estado crítico: desnutrida, anêmica, cheia de cicatrizes e extremamente agressiva. A filhote tinha pouco mais de 30 dias e provavelmente era a única sobrevivente da ninhada.
Conteúdos em alta
As duas passaram quase vinte dias internadas.
“Ela não confiava em ninguém. Os veterinários tiveram dificuldade até para tratar elas”, conta Dígia.
Na clínica, veio um conselho que protetores costumam ouvir em casos assim: doar apenas a filhote. Pequena, dócil e saudável, ela teria mais chance de adoção. A mãe dificilmente encontraria alguém disposto a esperar sua recuperação emocional.
Mas Dígia recusou: “Eu não conseguia separar as duas. Ela escondia a filhote, abraçava, protegia o tempo inteiro. Como eu iria tirar a única felicidade dela?”
As duas foram levadas para um gatil improvisado na casa da protetora. E ali começou um processo que duraria oito meses.
Oito meses até confiar em alguém
Entrar no gatil não era simples. Dígia conta que precisava usar uma vassoura para afastar a mãe enquanto limpava o espaço ou trocava água e comida. Qualquer aproximação virava ataque.
“Era arranhão quase todos os dias. Levei mordida, perdi parte de um dedo. Mas não desisti.”
Com a filhote, o comportamento era diferente. Lindinha aceitava colo, carinho e presença humana. Dodô não suportava sequer movimentos bruscos. Principalmente mãos erguidas.
“Dar tchau perto dela já fazia ela entrar em pânico”, lembra a protetora.
Por isso, a aproximação aconteceu devagar. Dígia começou sentando dentro do gatil por alguns minutos todos os dias. Levava um pedaço fino de bambu para tentar fazer carinho sem encostar diretamente. O bambu quebrava de tanto a gata se mexer.
Levou seis meses até que Dígia conseguisse tocar a cauda da gata sem o bambu. “Explodi de alegria naquele dia.”

Depois vieram pequenos avanços. Dodô começou a se esfregar nas pernas da protetora. Nunca gostou de colo. Mas aprendeu a confiar.
Uma adoção com condição
Enquanto isso, outra história atravessava a vida das duas. Em maio de 2025, Flávia e Tiago perderam uma das gatas que criavam havia mais de uma década, a Pipa. E, em janeiro de 2026, perderam a segunda, a amada Miu.
As cinzas e as fotos permaneceram na sala do apartamento, mas a rotina da casa desapareceu junto.
Foi nesse período que Flávia conheceu Dígia durante um trabalho social. O casal ajudava a protetora com doações de cestas básicas para famílias em vulnerabilidade. Em uma das conversas, Dígia comentou sobre as “oncinhas”, como chamava mãe e filha.
Em abril de 2025, Flávia pediu para conhecer as duas. A primeira visita foi difícil. As gatas se esconderam, armaram postura defensiva e não permitiram aproximação. Mas Flávia voltou. Na segunda visita, Dodô deixou que ela encostasse de leve.

Durante uma conversa, Flávia perguntou se Dígia aceitaria doar mãe e filha juntas. A resposta veio imediata: “Separadas eu não doava. Nunca.”
Dígia já tinha decidido uma coisa fazia tempo: mãe e filha não seriam separadas. Se ninguém aceitasse as duas juntas, continuariam com ela.
Flávia comentou que conhecia um casal interessado na adoção das duas e combinaram uma visita para o casal conhecer as duas pessoalmente. Dias depois, no horário marcado, apenas Flávia e Tiago apareceram no portão.
“Aí eu perguntei: ‘ué, o casal não vem?’”, lembra Dígia.
Flávia olhou para Tiago e sorriu antes de responder: “Nós somos o casal.”
Dígia lembra daquele momento até hoje. “Meu coração parecia que ia sair pela boca. Eu abracei eles chorando.”

A casa voltou a ter barulho
Dodô e Lindinha chegaram à nova casa ainda carregando os traumas da rua. Barulhos assustavam. Objetos caindo no chão faziam as duas correrem. Movimentos bruscos ainda deixavam Dodô em alerta.
O casal não teve pressa. Os avanços vieram aos poucos. Foi só depois de cerca de seis meses que Dodô começou a mostrar um comportamento mais tranquilo dentro de casa. Hoje, um ano depois da adoção, ela finalmente aceita colo em alguns momentos.
“Ela é extremamente carinhosa e adora ficar perto de mim”, conta Flávia.
Lindinha continua mais reservada. Observa a rua pela janela, brinca quando quer e pede carinho no próprio tempo.

Mas antes da chegada das duas, voltar para casa significava reencontrar silêncio. Hoje não mais.
“Quando chegamos cansados do trabalho, elas vêm correndo receber a gente. Isso muda completamente o nosso dia”, diz Flávia.
A rotina também mudou. Potinhos espalhados pela casa, caixas de areia, gastos com veterinário e ração, preocupação na hora de viajar.
“Mas somos muito mais felizes vendo as bagunças, as correrias e os ronrons delas.”
Existe também um ritual diário. Dodô e Lindinha correm para se deitar no chão esperando massagem e carinho no pescoço. A mesma gata que um dia atacava qualquer aproximação hoje vira a barriga para cima quando Flávia chega perto.

Uma segunda chance para os dois lados
Jaraguá do Sul tem dezenas de animais resgatados esperando adoção em lares temporários, ONGs e casas de protetores independentes. Histórias como a de Dodô e Lindinha mostram que muitos animais traumatizados precisam mais de tempo e paciência do que de perfeição.
“É um comprometimento físico, emocional e financeiro. Animal não é brinquedo. Dá trabalho. Mas somos muito mais felizes por ter elas na nossa vida.”, afirma Flávia.
Mesmo depois de tudo o que viveram, ela diz que faria a mesma escolha outra vez.
“Nós não adotamos elas, foram elas que nós adotaram. Meu coração estava partido e elas colam um pedacinho todos os dias”, finaliza.
Antes, a chave girava na fechadura e a casa seguia silenciosa. Hoje, Dodô corre quando escuta o barulho da porta. Lindinha vem atrás, mais devagar, mas vem.
Faz um ano que aquela sala deixou de ser silenciosa.

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Dodô e Lindinha são protagonistas da série “Meu Pet Tem História”, produzida com apoio de tutores, ONGs e protetores independentes de Jaraguá do Sul. PoTrazemos aqui no JDV provas de que trás de cada adoção, há duas vidas que se reinventam: a do cão e a da pessoa que decide acolher.
Quer adotar também? Onde encontrar pets para adoção
Em Jaraguá do Sul, dezenas de cães e gatos resgatados aguardam uma nova família em lares temporários, ONGs e casas de protetores independentes.
Para facilitar esse encontro, o portal Adota Jaraguá reúne animais disponíveis para adoção em um único lugar. A plataforma centraliza informações que antes estavam espalhadas em redes sociais e páginas de protetores da região.
No site, é possível conhecer os pets, ver fotos, informações sobre comportamento e entrar em contato com os responsáveis pela adoção.
Confira os animais disponíveis em: adotajaragua.com.br.
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Ajude as ONGs e grupos de proteção animal a continuarem o excelente trabalho de proteção e acolhimento em Jaraguá do Sul e região. Você pode colaborar de várias formas:
- Ajapra (Associação Jaraguaense Protetora dos Animais): doações via Pix – CNPJ: 07.532.982/0001-01, doação de ração, fraldas, remédios e outros itens (confira as necessidades da ONG no Instagram: @ajapra_oficial);
- Gang dos Patinhas: doação via Pix – 8pix.gang@gmail.com. Saiba mais sobre a instituição pelo Instagram: @gangdospatinhas
- Focinhos Carentes: entre em contato e saiba mais pelo Instagram: @focinhoscarentes_poreles
- Bigodes e Ronrons: doação via Pix – grupobigodeseronrons@gmail.com. Saiba mais sobre a instituição pelo Instagram: @bigodeseronrons
- Aguapa (Associação Guaramirense de Apoio e Proteção aos Animais): doações via Pix – CNPJ: 62.837.673/0001-58. A ONG atua no resgate, acolhimento e incentivo à adoção responsável em Guaramirim. Saiba mais pelo Instagram: @aguapa_gm
Você também acompanhar e ajudar protetoras de animais independentes na cidade e região. Conheça algumas delas:
- Cris Mazur – rede de resgate da Fujama: @me_adota_jaraguadosulsc
- Digia Deretti de Moura: @digiaprotetora
- Rutinha Protetora Pet: @rutinhaprotetorapet
- Simone Protetora: @_simoneprotetora_
Alguma ONG da região não está nessa lista? Escreva para redacao@nascecom.com.br e compartilhe conosco mais projetos incríveis dedicados à proteção e acolhimento de animais.
Reconhecimento local à causa animal
O trabalho de incentivo à adoção também é um compromisso do JDV! Estamos entre as primeiras empresas de Jaraguá do Sul a receber o selo “Empresa Amiga dos Animais”, concedido pela Fujama.
A certificação foi criada por decreto municipal em 2025 e reconhece empresas que desenvolvem ações contínuas voltadas à proteção, saúde e bem-estar dos animais.

Além do JDV, a empresa Grafipel também recebeu o selo. Pelo grupo NasceCom Comunicações, responsável pelo JDV, o reconhecimento destaca iniciativas como a plataforma Adota Jaraguá, que busca integrar entidades da causa animal e ampliar a visibilidade da adoção na cidade.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.