Como eram os antigos cinemas de Jaraguá do Sul? Uma viagem de 100 anos pela história Matéria Especial
| Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Como eram os antigos cinemas de Jaraguá do Sul? Uma viagem de 100 anos pela história

Gabriela Bubniak

Por Gabriela Bubniak
Publicada em 14/10/2026

Das sessões mudas em salões improvisados ao atual complexo com cinco salas, o cinema faz parte da vida cultural jaraguaense há mais de um século.

Das sessões mudas em salões improvisados ao atual complexo com cinco salas, o cinema faz parte da vida cultural jaraguaense há mais de um século.

Cheiro de pipoca feita na manteiga, poltronas confortáveis e um telão gigante pronto para exibir o mais recente lançamento da cinematografia. Difícil encontrar alguém que não ame viver a experiência de assistir a um bom filme no cinema.

E a relação dos jaraguaenses com as telonas começou há mais de um século, antes mesmo da emancipação do município (1934). No início de 1920, quando a localidade ainda pertencia a Joinville, moradores já se reuniam para acompanhar filmes mudos, exibidos em estruturas que também recebiam bailes, peças de teatro e encontros comunitários.

A partir de anúncios, fotografias, documentos e reportagens antigas, o JDV percorreu mais de um século dessa história para mostrar um pequeno panorama de quais foram, onde funcionavam os cinemas da cidade, o que era exibido e como a experiência de assistir a um filme mudou ao longo do tempo.

Cinema Mielke e Cinema Jaraguá: os primeiros registros

Os primeiros registros de cinemas em Jaraguá do Sul são de 1921. Naquele ano, os jornais já mencionavam dois estabelecimentos: o Cinema Jaraguá e o Cinema Mielke.

O Cinema Jaraguá aparece em publicações de janeiro de 1921. Em dezembro, um anúncio informava que o espaço funcionava em um imóvel de Alois Stüber, na área central, e identificava José M. Müller como empresário responsável.

Anúncio do Cinema Jaraguá publicado em jornal antigo de 1921
Anúncio de programação do Cinema Jaraguá publicado no Jornal Correio do Povo em 1921, quando as sessões ainda eram realizadas na época do cinema mudo em Jaraguá do Sul. | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul/Correio do Povo

O Cinema Mielke também promovia sessões naquele ano. Em junho de 1921, anunciou a exibição do filme A ilha solitária. As apresentações aconteciam no Salão Mielke, que ainda recebia bailes e outros eventos da comunidade.

Naquela época, os filmes ainda não tinham som. Durante as sessões, grupos musicais faziam o acompanhamento instrumental ao vivo – tudo com músicos que tocavam piano, violino e outros instrumentos.

Pianista acompanha ao vivo uma sessão de cinema mudo diante da plateia
Foto ilustra sessão se cinema mudo por volta de 1920, com pianista. Local e autoria não identificados. | Foto: Reprodução/Restauração JDV

Cinema Central levou o público ao Salão Buhr

Em fevereiro de 1927, Jaraguá ganhou o Cinema Central. As sessões eram realizadas no Salão Buhr, na Rua Emílio Carlos Jourdan, sob a responsabilidade de Erich Doubrawa.

O Salão Buhr não era usado apenas como cinema; o espaço já recebia festas, apresentações e encontros sociais. Com o Cinema Central, também passou a exibir filmes regularmente.

Durante os primeiros anos, o funcionamento ainda seguia o modelo do cinema mudo. Os músicos acompanhavam as cenas e adaptavam a execução ao ritmo de cada filme, ajudando a criar suspense, romance ou dramaticidade.

O cinema sonoro chegou em 1934, quando Doubrawa adquiriu em São Paulo um equipamento com o sistema Movietone, que sincronizava som e imagem. Três anos depois, o Cinema Central recebeu um novo projetor, também trazido de São Paulo.

Com os novos equipamentos, o acompanhamento musical deixou de ser necessário. O Cinema Central continuou aparecendo na programação da cidade até pelo menos 1938.

Salão Buhr em foto histórica de 1988 em Jaraguá do Sul
Imagem histórica do Salão Buhr, cedida por Alfons Buhr ao jornal Correio do Povo em 1988. | Foto: Alfons Buhr/Restauração JDV

Cine Odeon ocupou a Sociedade de Atiradores

Em março de 1939, um novo nome começou a aparecer na programação cultural de Jaraguá do Sul. Administrado por Reinoldo Rau e Edgard Piazera, o Cine Odeon iniciou as atividades no salão da Sociedade dos Atiradores.

No dia 12 de março já havia sessões programadas, enquanto a abertura oficial foi anunciada para o dia 19, com o filme Morcego. Outra nota daquele período elogiava a apresentação de O Cruzador Emden como uma das primeiras realizadas pelo cinema.

Sem um prédio próprio, o Cine Odeon encontrou na Sociedade dos Atiradores um endereço provisório. Porém o salão ficava afastado da área mais movimentada da cidade; e parecia ser um obstáculo para atrair o público com regularidade.

Rau e Piazera pretendiam levar o cinema para um espaço mais central e confortável. Porém, documentos não indical que essa mudança tenha se concretizado. Durante os meses em que permaneceu em atividade, o Odeon continuou utilizando o salão da sociedade.

Ainda assim, o cinema conseguiu manter uma programação regular. Em junho de 1939, por exemplo, o público podia escolher entre a matinê e a sessão noturna. O programa reunia o curta nacional Aurora Film nº 4, o noticiário cinematográfico Actualidade Movietone e o longa Canção Materna, estrelado pelo tenor Beniamino Gigli e pela atriz Maria Cebotari.

Anúncio do Cine Odeon publicado no jornal Correio do Povo em 1939
Anúncio de jornal em 1939. | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul/Correio do Povo

A experiência durou poucos meses. Em dezembro de 1939, diante dos resultados financeiros insatisfatórios, Reinoldo Rau e Edgard Piazera decidiram encerrar as atividades. A partir daí, a história do Cine Odeon deixou as páginas de programação e chegou aos tribunais.

Segundo Reinoldo Rau, ele investiu sete contos de réis, o equivalente à metade do valor do projetor. Piazera cuidava da parte técnica e ficaria com 60% dos lucros, enquanto Rau administrava os pagamentos e recebimentos, com direito aos 40% restantes.

Quando o cinema encerrou as atividades, os sócios teriam combinado vender o equipamento e dividir o dinheiro. Rau alegou, porém, que Piazera negociou o projetor com o Cine Buhr e não lhe repassou a parte correspondente.

A disputa chegou à Justiça e ganhou repercussão nos jornais. A sentença reconheceu que os dois mantinham uma sociedade, mesmo sem registro formal, e determinou a dissolução e a liquidação do negócio. O Tribunal de Apelação confirmou a decisão, deixando o cálculo dos valores para uma etapa posterior.

Notícia de jornal sobre o Cine Odeon em Jaraguá do Sul
Notícia de jornal no ano de 1942. | Foto: Arquivo Histórico/Correio do Povo

A definição ocorreu em 1943. Na fase de liquidação, a Justiça considerou que o projetor havia sido vendido em 30 de dezembro de 1939 por um valor equivalente a 12 mil cruzeiros. Edgard Piazera foi condenado a pagar seis mil cruzeiros a Reinoldo Rau, além dos juros.

Mesmo depois do encerramento do Odeon, o salão da Sociedade dos Atiradores continuou recebendo projeções. Em dezembro de 1940, o empresário cinematográfico José Julianelli apresentou no local o filme Première, produção da UFA estrelada por Zarah Leander. A renda dos ingressos ajudaria na compra de um aparelho de raio X para o Hospital São José.

Cine Buhr e Cine Ideal dividiram a atenção do público

Na década de 1940, o Cine Buhr já era um dos principais pontos de encontro para quem queria assistir a filmes em Jaraguá do Sul. As sessões aconteciam no Salão Buhr, na Rua Emílio Carlos Jourdan, mesmo espaço onde anos antes funcionava o Cinema Central. Os registros encontrados mostram que a programação seguia ativa, com anúncios de filmes publicados nos jornais da época.

O cinema fazia parte da rotina cultural da cidade. Além das sessões, os salões também eram usados para outros eventos e encontros da comunidade, tornando esses espaços importantes pontos de convivência para os moradores.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul/Correio do Povo

A partir de 1948, o público ganhou uma nova opção com a chegada do Cine Ideal. Administrado inicialmente por Alberto Santos e Harry Karger, o cinema passou a funcionar em um salão pertencente a José M. Müller e começou a disputar a atenção dos espectadores com o Cine Buhr.

Por alguns anos, os dois cinemas dividiram a programação da cidade. Mas manter uma sala de exibição também tinha seus desafios. Em 1957, o Correio do Povo publicou uma reportagem com o título “Cine Buhr, um caso de polícia”, criticando problemas no funcionamento do cinema. A expressão fazia referência a uma série de reclamações dos espectadores sobre a programação.

Na época, filmes eram anunciados, mas nem sempre chegavam para as sessões previstas. Em uma semana, cinco títulos foram divulgados, mas apenas um foi exibido. Para os cancelamentos, a justificativa que se repetia era: “não veio o filme”.

Reportagem de jornal sobre o Cine Buhr em Jaraguá do Sul em 1957
Publicação de 1957. | Foto: Arquivo Histórico/Correio do Povo

Em 1958, Cine Buhr e Cine Ideal ainda apareciam nos registros da cidade. Pouco tempo depois, porém, o cenário mudou: o Cine Buhr passou a ser citado como o único cinema em funcionamento em Jaraguá do Sul.

A mudança definitiva viria em dezembro de 1959, com a inauguração do Cine Jaraguá, que abriria uma nova fase para as salas de cinema da cidade.

Cine Jaraguá marcou uma nova geração

O cinema que permanece mais vivo na lembrança de muitos jaraguaenses começou a tomar forma em 1959. Diferente das salas improvisadas que marcaram os primeiros anos das exibições na cidade, o Cine Jaraguá nasceu com uma estrutura planejada para receber o público e se tornou, por décadas, um dos principais espaços de lazer e cultura de Jaraguá do Sul.

A criação do empreendimento começou em janeiro daquele ano, quando os interessados na formação da empresa Cine Jaraguá S.A. foram convocados para uma assembleia no Bar e Restaurante Buhr. Documentos oficiais registram a participação de cerca de 70 acionistas, com capital de quatro milhões de cruzeiros dividido em 400 ações. Entre os nomes ligados ao projeto estavam Artur Breithaupt, Durval Marcatto, Mário Müller, Oswaldo Heuser e a Empresa Max Wilhelm, representada por Nelson Driessen.

O Cine Jaraguá entrou em funcionamento em 1959, e contava com tela panorâmica e equipamentos considerados modernos para a época. Tinha uma capacidade entre 600 e 650 lugares.

Com aproximadamente mil metros quadrados, o prédio não recebeu apenas sessões de cinema. O local também abrigou apresentações culturais, eventos e encontros da comunidade. Durante mais de três décadas, as matinês, os encontros de jovens e as grandes estreias fizeram parte da rotina de muitas famílias jaraguaenses.

Rua Emílio Carlos Jourdan em Jaraguá do Sul na década de 1970 com antigo cinema
Rua Emílio Carlos Jourdan, na década de 1970 – hoje ao lado do shopping Partage Jaraguá do Sul. O terceiro prédio da esquerda para a direita é o antigo Cine Jaraguá. | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Queda de público levou ao fechamento em 1994

Com o passar dos anos, a realidade dos cinemas mudou. A chegada da televisão, o avanço do vídeo doméstico, a falta de climatização e as dificuldades para conseguir lançamentos reduziram o público do Cine Jaraguá. No início da década de 1990, a grande sala já enfrentava dificuldades para se manter em funcionamento.

Os números da época mostram essa mudança. Em outubro de 1993, a média era de 46 espectadores por sessão. No mês seguinte, caiu para 17. Em dezembro, ficou em 41 e, nos primeiros dez dias de janeiro de 1994, chegou a apenas 13 pessoas por sessão.

Em novembro de 1993, nove sessões precisaram ser canceladas por falta de público. Mesmo diante da queda de movimento, a empresa ainda havia investido cerca de 600 mil cruzeiros reais em reparos considerados urgentes poucos meses antes do encerramento.

A última sessão aconteceu em 16 de janeiro de 1994, com a exibição do filme Free Willy. A renda da despedida foi destinada à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Jaraguá do Sul (Apae).

Depois do fechamento, o prédio foi demolido e o terreno deu lugar ao Shopping Center Breithaupt, que anos mais tarde ajudaria a trazer novamente salas de cinema para Jaraguá do Sul.

Do cinema de rua ao shopping em 1999

Jaraguá do Sul ficou mais de cinco anos sem uma sala comercial de cinema depois do fechamento do Cine Jaraguá, em 1994. A retomada aconteceu somente no fim da década, com a inauguração do Shopping Center Breithaupt, que trouxe novamente a experiência de assistir a filmes em uma estrutura própria para o público.

O shopping foi inaugurado para convidados em 4 de novembro de 1999 e aberto ao público no dia seguinte. O cinema começou com três salas, que somavam 470 lugares, sob operação da GNC, por meio da Sul Projeções.

Fachada do Shopping Breithaupt em Jaraguá do Sul, na Avenida Getúlio Vargas
Foto: Arquivo Breithaupt

A novidade rapidamente chamou a atenção dos moradores. Entre os primeiros filmes anunciados estavam O Sexto Sentido, Clube da Luta e American Pie, e as filas registradas nos primeiros dias mostravam a expectativa de uma cidade que havia passado anos sem uma sala de cinema.

Com o passar do tempo, o complexo passou por mudanças de operação e de nome. A estrutura já foi chamada de Jaraguá Center Cine, Cine Shopping, Cine Breithaupt e Arco-Íris. Em 2006, a programação passou a ser associada à operação que mais tarde adotaria a marca Arcoplex.

A estrutura também cresceu. Das três salas inaugurais, o complexo chegou a cinco salas e incorporou novas tecnologias, como as sessões em 3D – agora no shopping Partage Jaraguá do Sul.

Em 2026, o espaço anunciou uma nova modernização, com melhorias previstas para áudio, imagem, conforto, fachada, corredores e a criação de poltronas VIP – saiba mais aqui.

Foto: Divulgação/Partage Jaraguá do Sul

Ah, e não deixe de conferir a programação desta semana com os filmes em cartaz. O JDV publica a agenda do cinema toda semana, sempre com um dia de antecedência – às quartas-feiras. 😉

Afinal, quantos cinemas Jaraguá do Sul teve?

Considerando os nomes comerciais que apareceram nos registros ao longo do tempo, Jaraguá do Sul teve pelo menos oito cinemas ou marcas de exibição: Cinema Jaraguá, Cinema Mielke, Cinema Central, Cine Odeon, Cine Buhr, Cine Ideal, Cine Jaraguá e os diferentes nomes adotados pelo complexo de cinema do shopping.

Mas o que os registros permitem afirmar é que o cinema acompanha a história de Jaraguá do Sul há mais de um século. A cidade passou das primeiras sessões de filmes mudos, com músicos fazendo o acompanhamento ao vivo, até chegar às atuais salas digitais, mostrando que a vontade de assistir a um filme continua atravessando gerações.

Como isso impacta a sua vida?

Da época em que filmes mudos eram acompanhados por músicos ao vivo às atuais salas digitais, assistir a um filme em Jaraguá do Sul mudou muito em mais de um século. Os espaços e as tecnologias se transformaram, mas o cinema continuou fazendo parte dos momentos de lazer de diferentes gerações.

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>> Nota da redação: Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio editorial na organização de informações e cruzamento de dados. Porém, a apuração, análise, redação e edição do conteúdo foram realizadas pela equipe jornalística do JDV, com base em registros históricos e informações das fontes consultadas.

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