Cotidiano | 15/06/2026 | Atualizado em: 15/06/26 ás 15:31

Jaraguaense de 51 anos completa a Comrades, ultramaratona criada para honrar mortos da Primeira Guerra

Viviane Kreis perdeu a inscrição, entrou por um sorteio de vagas e fechou os 86 km da prova mais antiga e dura do mundo em 10h17, na sua segunda Comrades.

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Jaraguaense de 51 anos completa a Comrades, ultramaratona criada para honrar mortos da Primeira Guerra

A atleta jaraguaense durante a preparação para a ultramaratona na África do Sul | Foto: Arquivo Pessoal

A maior e mais antiga ultramaratona do mundo nasceu de um luto. Criada em 1921 para homenagear soldados mortos na Primeira Guerra Mundial, a Comrades atravessa a África do Sul entre as cidades de Durban e Pietermaritzburg e reúne corredores de diversos países todos os anos. Neste domingo, 14 de junho, uma jaraguaense estava entre eles.

Viviane Kreis, de 51 anos, completou a edição de 2026 da prova em 10 horas e 17 minutos. São cerca de 86 quilômetros de subida percorridos em um único dia ao lado de milhares de participantes. Esta foi a segunda participação dela na Comrades.

Uma vaga que ela achava perdida

Meses atrás, a resposta de Viviane sobre correr a Comrades de 2026 era direta: não. Ela havia perdido o período de inscrição, e a prova já parecia mais uma na lista de oportunidades que passaram.

A virada veio numa conversa entre amigas. Durante uma visita a Estela, que acompanhava em uma corrida, o assunto voltou à mesa. Estela e outra amiga, Zilma, insistiram para que ela tentasse um sorteio de vagas. Sem grande expectativa, Viviane se inscreveu. Dias depois, veio a notícia de que tinha sido sorteada. Foi naquele momento, conta ela, que percebeu que voltaria para a África do Sul.

A partir dali, tudo aconteceu rápido. Ela já treinava para a Maratona de Sydney e vinha de um ciclo intenso de provas. Faltava, segundo ela, reorganizar a cabeça e o coração para encarar de novo o que muitos consideram a ultramaratona mais dura do mundo.

O peso de voltar

Viviane Kreis posa com uniforme do Brasil diante do Muro da Fama da Comrades Marathon, na África do Sul, durante a edição de 2026.
Foto: Arquivo Pessoal

A edição deste ano tinha um nome para Viviane: Back-to-Back, a marca de quem completa a prova em anos seguidos. Era a segunda Comrades dela, e voltar carregava um peso diferente de estrear.

Quem olha só para os quilômetros talvez não entenda o que essa medalha representa. Para ela, simboliza consistência, e a decisão de voltar sabendo exatamente o quanto vai doer.

“Simboliza voltar quando você já sabe exatamente o quanto vai sofrer. Simboliza escolher enfrentar novamente as dúvidas, o cansaço e os momentos em que o corpo pede para parar.”

Ao mesmo tempo, Viviane faz questão de se colocar como aprendiz. Diz que, apesar dos anos de maratona, ainda é novata no universo das ultras, e que dividiu a estrada com brasileiros de décadas de experiência na prova. Em muitos momentos, ouviu mais do que falou.

Uma corrida que nasceu da guerra

A história da Comrades começou há mais de um século. A prova foi idealizada por Vic Clapham, veterano sul-africano da Primeira Guerra Mundial, como uma homenagem permanente aos companheiros mortos no conflito. O nome da corrida, que significa “camaradas”, faz referência a esse propósito.

Pelotão de corredores durante a Comrades Marathon 2026, ultramaratona disputada entre Durban e Pietermaritzburg, na África do Sul.
Corredores percorrem os cerca de 86 quilômetros da Comrades Marathon | Foto: Divulgação/Comrades Marathon

A primeira edição, em 1921, reuniu 34 participantes. A constituição da prova estabelece entre seus objetivos celebrar o espírito humano diante da adversidade, princípio que segue presente até hoje. Em 2026, na 99ª edição, as inscrições se esgotaram em menos de dez horas, atingindo o limite de 22 mil corredores.

O que começou como uma homenagem aos soldados mortos transformou-se, ao longo das décadas, em uma celebração da resistência e da superação. Foi justamente esse ambiente que mais marcou Viviane.

O Brasil gritado na beira da estrada

Durante horas de prova, o que mais impressionou a corredora não foram os quilômetros, e sim as pessoas. Voluntários ofereciam água, comida, gelo e spray para o calor, sempre com uma palavra de incentivo. Famílias inteiras passavam o dia à beira da estrada torcendo por gente que nunca tinham visto.

Viviane Kreis exibe a bandeira do Brasil após completar a Comrades Marathon 2026 na África do Sul.
Foto: Arquivo Pessoal

A camisa do Brasil, conta ela, criava uma conexão imediata. Ao longo do percurso, ouviu o próprio nome ser chamado e gritos de “Brasil!”, “Rio!”, “Samba!”, “Pelé!” e até “Senna!”. Muitos esperavam para tirar uma foto ou dividir um sorriso.

“O que mais me impressiona é o amor que os sul-africanos têm pelos brasileiros. Nunca me senti tão especial em uma prova.”

Para Viviane, a Comrades vai além da corrida. É, nas palavras dela, uma celebração da capacidade de pessoas se conectarem mesmo sem falar a mesma língua.

A emoção que não passou na chegada

Quando cruzou a linha, Viviane diz que não sentiu só alívio, e sim gratidão. Gratidão a Estela e a Zilma, que a empurraram para o sorteio quando ela já achava que a chance tinha passado. Gratidão por ter um corpo capaz de aguentar o desafio.

Um dia depois, ao colocar a experiência no papel em relato enviado ao JDV, a prova ainda estava viva nela. “Me emocionei novamente só de escrever esse relato.”

Viviane Kreis posa em frente ao painel oficial da Comrades Marathon antes da prova na África do Sul.
A jaraguaense Viviane Kreis durante a programação oficial da Comrades Marathon 2026 | Foto: Arquivo Pessoal

Como isso impacta sua vida?

Aos 51 anos, partindo de Jaraguá do Sul, Viviane mostra que a linha de chegada de uma das provas mais duras do mundo cabe na rotina de quem treina firme e não abre mão do próximo passo. O dela já tem nome: a Maratona de Sydney, que será sua oitava World Marathon Major.

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Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

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