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Jaraguaense de 51 anos completa a Comrades, ultramaratona criada para honrar mortos da Primeira Guerra
Viviane Kreis perdeu a inscrição, entrou por um sorteio de vagas e fechou os 86 km da prova mais antiga e dura do mundo em 10h17, na sua segunda Comrades.
A atleta jaraguaense durante a preparação para a ultramaratona na África do Sul | Foto: Arquivo Pessoal
A maior e mais antiga ultramaratona do mundo nasceu de um luto. Criada em 1921 para homenagear soldados mortos na Primeira Guerra Mundial, a Comrades atravessa a África do Sul entre as cidades de Durban e Pietermaritzburg e reúne corredores de diversos países todos os anos. Neste domingo, 14 de junho, uma jaraguaense estava entre eles.
Viviane Kreis, de 51 anos, completou a edição de 2026 da prova em 10 horas e 17 minutos. São cerca de 86 quilômetros de subida percorridos em um único dia ao lado de milhares de participantes. Esta foi a segunda participação dela na Comrades.
Uma vaga que ela achava perdida
Meses atrás, a resposta de Viviane sobre correr a Comrades de 2026 era direta: não. Ela havia perdido o período de inscrição, e a prova já parecia mais uma na lista de oportunidades que passaram.
A virada veio numa conversa entre amigas. Durante uma visita a Estela, que acompanhava em uma corrida, o assunto voltou à mesa. Estela e outra amiga, Zilma, insistiram para que ela tentasse um sorteio de vagas. Sem grande expectativa, Viviane se inscreveu. Dias depois, veio a notícia de que tinha sido sorteada. Foi naquele momento, conta ela, que percebeu que voltaria para a África do Sul.
A partir dali, tudo aconteceu rápido. Ela já treinava para a Maratona de Sydney e vinha de um ciclo intenso de provas. Faltava, segundo ela, reorganizar a cabeça e o coração para encarar de novo o que muitos consideram a ultramaratona mais dura do mundo.
O peso de voltar

A edição deste ano tinha um nome para Viviane: Back-to-Back, a marca de quem completa a prova em anos seguidos. Era a segunda Comrades dela, e voltar carregava um peso diferente de estrear.
Conteúdos em alta
Quem olha só para os quilômetros talvez não entenda o que essa medalha representa. Para ela, simboliza consistência, e a decisão de voltar sabendo exatamente o quanto vai doer.
“Simboliza voltar quando você já sabe exatamente o quanto vai sofrer. Simboliza escolher enfrentar novamente as dúvidas, o cansaço e os momentos em que o corpo pede para parar.”
Ao mesmo tempo, Viviane faz questão de se colocar como aprendiz. Diz que, apesar dos anos de maratona, ainda é novata no universo das ultras, e que dividiu a estrada com brasileiros de décadas de experiência na prova. Em muitos momentos, ouviu mais do que falou.
Uma corrida que nasceu da guerra
A história da Comrades começou há mais de um século. A prova foi idealizada por Vic Clapham, veterano sul-africano da Primeira Guerra Mundial, como uma homenagem permanente aos companheiros mortos no conflito. O nome da corrida, que significa “camaradas”, faz referência a esse propósito.

A primeira edição, em 1921, reuniu 34 participantes. A constituição da prova estabelece entre seus objetivos celebrar o espírito humano diante da adversidade, princípio que segue presente até hoje. Em 2026, na 99ª edição, as inscrições se esgotaram em menos de dez horas, atingindo o limite de 22 mil corredores.
O que começou como uma homenagem aos soldados mortos transformou-se, ao longo das décadas, em uma celebração da resistência e da superação. Foi justamente esse ambiente que mais marcou Viviane.
O Brasil gritado na beira da estrada
Durante horas de prova, o que mais impressionou a corredora não foram os quilômetros, e sim as pessoas. Voluntários ofereciam água, comida, gelo e spray para o calor, sempre com uma palavra de incentivo. Famílias inteiras passavam o dia à beira da estrada torcendo por gente que nunca tinham visto.

A camisa do Brasil, conta ela, criava uma conexão imediata. Ao longo do percurso, ouviu o próprio nome ser chamado e gritos de “Brasil!”, “Rio!”, “Samba!”, “Pelé!” e até “Senna!”. Muitos esperavam para tirar uma foto ou dividir um sorriso.
“O que mais me impressiona é o amor que os sul-africanos têm pelos brasileiros. Nunca me senti tão especial em uma prova.”
Para Viviane, a Comrades vai além da corrida. É, nas palavras dela, uma celebração da capacidade de pessoas se conectarem mesmo sem falar a mesma língua.
A emoção que não passou na chegada
Quando cruzou a linha, Viviane diz que não sentiu só alívio, e sim gratidão. Gratidão a Estela e a Zilma, que a empurraram para o sorteio quando ela já achava que a chance tinha passado. Gratidão por ter um corpo capaz de aguentar o desafio.
Um dia depois, ao colocar a experiência no papel em relato enviado ao JDV, a prova ainda estava viva nela. “Me emocionei novamente só de escrever esse relato.”

Como isso impacta sua vida?
Aos 51 anos, partindo de Jaraguá do Sul, Viviane mostra que a linha de chegada de uma das provas mais duras do mundo cabe na rotina de quem treina firme e não abre mão do próximo passo. O dela já tem nome: a Maratona de Sydney, que será sua oitava World Marathon Major.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.