O que um exame do sono revelou sobre quem se achava especialista em dormir
Modéstia à parte, uma das minhas principais virtudes é dormir. Consigo pegar no sono com facilidade, em qualquer horário e lugar. Se tiver que acordar às 2h da madrugada, para uma viagem, vou para a cama às 19h e já era. Se estou de carona, contrário a maioria, prefiro ir no banco de trás, assim não tenho obrigação de ficar conversando com o motorista e posso dormir tranquilamente.
No início do ano, no meu check-up, antes de falar sobre a importância de fazer exercícios físicos e da alimentação correta, o médico começou alertando sobre a importância de ter um sono saudável, o que me deixou menos preocupado, pois nas outras variáveis – alimentação e exercícios – estou sempre devendo.
Há dois meses, estive na Semana do Cérebro, em Porto Alegre. Nas palestras que participei como ouvinte, as questões do sono, foram abordadas com bastante ênfase quando relacionadas a saúde mental e como de hábito, saí por aí espalhando isso para todo mundo. O algoritmo fez a leitura das minhas pesquisas e conversas e passou a me bombardear com opções de testes do sono, a polissonografia, para os íntimos.
Vi um anúncio no patrocinado e marquei um exame. Quando saiu o resultado o gráfico estava cheio de detalhes preocupantes, contrariando o que eu imaginava sobre o meu “sono perfeito”.
Rapidamente já achei o motivo, escolhi a noite errada para levar o aparelho para casa, pois a minha noite de avaliação foi logo depois de um jogo do Brasil, na Copa do Mundo. Como sou bom apreciador do esporte, sempre costumo acompanhar todas as resenhas após as partidas, o que não consegui fazer naquela noite, pois precisava realizar o exame e devolver o aparelho na manhã seguinte; tampouco consegui relaxar.
Quando voltei à clínica, me foi sugerido utilizar como teste um equipamento durante o sono. A gerigonça fica conectada à tomada, com uma tubulação ligada ao paciente através de uma máscara. A intenção era usar por três noites, mas não tive coordenação motora suficiente para remontar o aparelho em casa, conforme orientação recebida na clínica. A minha esposa já estava dormindo quando cheguei com o equipamento e não quis acordá-la.
Conteúdos em alta
A experiência foi extremamente desconfortável, talvez pela minha imperícia na montagem. Na manhã seguinte, quando minha esposa viu toda aquela aparelhagem na mesa de cabeceira…
– Marcelo! Como foi dormir com esse negócio?
– Foi horrível, não consegui montar direito…
– Usaste essa máscara que geral já botou na cara?
– Sim…
– Qual foi a outra opção que te deram?
– Olha, o médico falou que fazer exercícios com frequência pode ajudar a melhorar o desempenho do sono…
– Então vais tomar vergonha na cara e fazer os exercícios. Estás muito novo para dormir parecendo um paciente na UTI.
Prometi que vou procurar uma academia e cuidar para que profecia da minha saudosa avó, Doralice, não se confirme. Quando jovem, sempre tirava uma siesta – honrando minha descendência 25% espanhola – e dormia tão profundamente que ela precisava me acordar, sempre com a frase:
– Acorda Marcelo! Vais morrer dormindo?
Parafraseando Luis Fernando Verissimo (1936 – 2025): Todo Homem é a soma NÃO das suas decisões, mas das suas hesitações, ou do que, pensando melhor, decidiu NÃO fazer.
Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no Cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora. marcelolamasbr@gmail.com
Marcelo Lamas
Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.