COLUNISTAS: A difícil missão de mudar a alimentação e abrir mão dos velhos prazeres
Foto: IA/JDV
A vida é feita de ciclos. Essa frase não é novidade pra ninguém. O problema é que estou vendo os ciclos se repetirem. A começar pelo título dessa crônica, que seria bem mais impactante: VOU MORRER!
Quando fui dar uma olhada nos meus textos anteriores, achei essa mesma manchete publicada em jornal – e depois em livro – há uma década.
Dizem que o empresário Roberto Marinho (1904-2003) usava a expressão “Se eu morrer”. Se acontecer comigo, já lhes antecipo a causa: vai ser de desgosto.
Pelos mesmos motivos que, lá atrás, me propus a escrever uma crônica quase que de despedida, chego novamente nesta mesma página. Vou explicar.
No mês passado, por conta de um check-up, fiz uma endoscopia. Mesmo não tendo retornado ao doutor, fiz o que todo o brasileiro médio faz: li o laudo do exame e pedi um diagnóstico à inteligência artificial.
Somente o meu Duodeno apareceu com a palavra “Normal”. Todos os outros oito (!) parágrafos do exame dizem um monte de coisas preocupantes como: hérnia hiatal, esofagite, gastrite, lesão polipoide, orifício gástrico entreaberto…
Conteúdos em alta
Estou como uma bandeja de morangos vendida no semáforo, olhando por fora está tudo bem, mas se você olhar por dentro… Em tempo, segundo a IA, não posso comer morangos.
Por ora, sigo a minha vida normal, porque ainda nenhum médico me passou limites, mas fico com a consciência pesada, porque só gosto das coisas que a IA proibiu, talvez porque não a informei que sou taurino:
- Café
- Coca-Cola
- Churrasco
- Amendoim
- Pastel
- Pizza
- Chocolate
- Abacaxi
- Hamburguer
- Pudim
Já desmarquei com o médico três vezes, alegando compromissos profissionais. A secretária me avisou que terei que pagar nova consulta, o prazo do retorno se foi.
Falando em médico, foi um deles que salvou a vida do poeta Mario Quintana (1906-1994), alcoólatra e que tinha um desejo muito grande – embora não assumido – de ser reconhecido nacionalmente. Ele disse: “Seu Mario, se o senhor não parar de beber, nunca ficará famoso”. O escritor internou-se voluntariamente em uma clínica e ganhou notoriedade perto dos 60, vivendo até seus 88 anos.
Vou tomar vergonha na cara e ir logo nesta consulta, depois de tomar o meu último cafezinho com quindim. Por via das dúvidas, já atualizei meu seguro de vida, caso a família venha a precisar. Pensei em deixar uma autorização em cartório para publicação de um livro póstumo, mas desisti. Vai ser melhor estar “pessoalmente” na noite de autógrafos.
Parafraseando Mark Twain (1835-1910): A única maneira de preservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer o que se preferia não fazer”.
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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora. Quer contatá-lo? Escreva para: marcelolamasbr@gmail.com.
Marcelo Lamas
Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.