Inédito: estudo revela 16 registros históricos de onças-pintadas em SC, um deles em Corupá
Um estudo publicado no Journal of Threatened Taxa em janeiro de 2026 revelou um panorama surpreendente e até então pouco documentado sobre a presença da onça-pintada (Panthera onca) em Santa Catarina. A pesquisa identificou 16 registros fotográficos históricos da espécie no estado entre 1866 e 1984, sendo a maioria inédita na literatura científica. Um desses registros ocorreu em Corupá, município do norte catarinense.
Pesquisa resgata memória esquecida
O trabalho foi conduzido por Jackson Fábio Preuss, da UNOESC, e Pedro Henrique Amancio Padilha, da UNISOCIESC. Eles realizaram um levantamento detalhado de fontes históricas, como:
- Arquivos de jornais antigos;
- Fotografias de museus regionais;
- Acervos pessoais e familiares;
- Testemunhos de moradores antigos.
O objetivo foi reconstruir a presença da onça-pintada no território catarinense, mapeando onde e quando os animais foram avistados, capturados ou mortos. Todos os registros foram georreferenciados e analisados com rigor técnico, respeitando incertezas de localização.
Onde viviam as onças em SC?
A maior concentração dos registros está no extremo oeste e oeste de Santa Catarina, mas há evidências também em áreas hoje densamente povoadas do norte do estado. A distribuição dos 16 registros ficou assim:
- Oeste e Extremo Oeste: 9 casos (56,25%)
- Vale do Itajaí e Planalto Norte: 4 casos (25%)
- Nordeste (incluindo Corupá): 2 casos (12,5%)
- Planalto Serrano: 1 caso (6,25%)
Entre as cidades citadas, destacam-se: Joinville, Blumenau, Itapiranga, Fraiburgo, Taió, Sul Brasil, Guaraciaba, Paraíso, Anchieta, Cunha Porã, Urubici, Campo Erê e Corupá, que teve um registro documentado em 1905.

Linha do tempo da presença da onça-pintada em SC
- 1866: Primeiro registro em Joinville
- 1905: Registro em Corupá (animal abatido)
- 1952–1960: Concentração de registros no oeste
- 1972: Registro em Urubici (Planalto Serrano)
- 1984: Última evidência confirmada, em Campo Erê, próximo à divisa com o Paraná
Esse levantamento mostra que a onça-pintada era mais comum do que se imaginava — inclusive em regiões hoje urbanizadas, como o norte catarinense.
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Por que as onças desapareceram de SC?
Os pesquisadores apontam quatro fatores principais para a extinção local da espécie:
- Caça predatória: 13 dos 16 registros mostram animais abatidos.
- Perda de habitat: Desmatamento, agricultura e urbanização fragmentaram a Mata Atlântica.
- Redução das presas naturais: Espécies como queixadas e antas também desapareceram.
- Perseguição cultural: A onça era vista como ameaça e símbolo de medo, especialmente em zonas rurais.
Corupá no mapa da biodiversidade
O registro histórico de Corupá, datado de 1905, é um dos mais antigos identificados no estudo e reforça que a região norte de Santa Catarina integrou a área de ocorrência da onça-pintada no passado. Segundo os autores, esses dados ampliam o conhecimento sobre a distribuição histórica da espécie no estado e mostram que ela esteve presente também em áreas hoje mais ocupadas e modificadas pela ação humana.
O estudo não analisa unidades de conservação específicas do município nem descreve áreas atuais de preservação. A menção à região ocorre exclusivamente a partir do registro fotográfico histórico, utilizado como evidência da presença da espécie naquele período.
E hoje, ainda há onças em SC?
Desde 1984, nenhum registro confirmado foi feito em Santa Catarina. Em estados vizinhos, como Paraná e Rio Grande do Sul, há populações remanescentes monitoradas em áreas protegidas, como o Parque Nacional do Iguaçu e o Parque Estadual do Turvo.
Modelos ecológicos indicam que algumas áreas de SC ainda possuem conectividade com florestas do Paraná e da Argentina, o que abre possibilidade para a passagem de indivíduos dispersos. No entanto, só estudos modernos com câmeras automáticas e DNA ambiental poderão confirmar essa hipótese.
Como isso impacta sua vida?
Se você mora em Corupá, Jaraguá do Sul ou em qualquer cidade do norte catarinense, este estudo mostra que a maior felina das Américas já habitou as matas da sua região. Preservar o que resta da Mata Atlântica local é mais do que proteger árvores: é manter viva a memória de uma fauna que um dia rugiu por aqui e que talvez ainda possa voltar, com planejamento e vontade política.
Marcio Martins
Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público. Observador, contador e protagonista de histórias, conheço Jaraguá do Sul como a palma da mão