[Opinião] Urgência civilizatória: profissionalização dos influenciadores digitais
| Freepik

[Opinião] Urgência civilizatória: profissionalização dos influenciadores digitais

Raphael Rocha Lopes

/ Por Raphael Rocha Lopes

“♫ Vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir/ Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir/ Já entregamos o alvo e a artilharia/ Comparamos nossas vidas e mesmo assim/ Não tenho pena de ninguém” (O teatro dos vampiros; Legião Urbana)

Atualmente, influenciadores digitais (figura sequer imaginadas não muitos anos atrás), muitas vezes jovens e amplamente admirados, tornaram-se referências em assuntos que vão desde moda e entretenimento até saúde, finanças, direito e educação. Esse fenômeno social transformou a influência em uma força econômica e cultural poderosa e mostrou um evidente vazio regulatório e conceitual: quem garante que a informação difundida a milhões seja correta, qualificada e responsável?

Na vanguarda dessa discussão, a China tomou um passo ousado e paradigmático em outubro de 2025: aprovou uma lei que exige que influenciadores comprovem formação acadêmica, certificação ou qualificação profissional antes de postarem sobre temas sensíveis, como medicina, direito, finanças ou educação. A norma, emitida pela Administração do Ciberespaço da China com o Ministério da Cultura e Turismo, impõe que as plataformas verifiquem credenciais dos criadores e garantam transparência sobre fontes e eventuais conteúdos produzidos com uso de inteligência artificial, sob pena de restrições e multas a quem descumprir as regras.

Mitigação de danos

O objetivo declarado dessa iniciativa é conter a desinformação e proteger os usuários de conselhos que podem ser prejudiciais ou enganosos (como se trata de um país de ditadura travestida e monitora tudo, obviamente há outros interesses por trás). Contudo, num ambiente digital saturado de palpiteiros, essa exigência de qualificação é um reconhecimento tácito de que nem toda opinião merece o mesmo peso, especialmente quando impacta a saúde, o bolso ou a educação de milhões.

A reflexão é profunda. Se até um Estado autoritário percebe como necessária a qualificação do emissor digital em certos temas, por que em democracias ocidentais, esse debate ainda esbarra em relativismos? A resposta é, em parte, cultural e em parte institucional. No Ocidente, teme-se que regulamentação signifique censura, e assim se evita legislar temas complexos no ambiente digital.

E, o que muitos se negam a ver, também é financeira: as big techs perderiam milhões de dólares se os pseudo-entendidos da internet parassem de publicar as bobagens que contaminam a mente das pessoas e trazem engajamento.

No Brasil

Aqui, a resposta legislativa existente, por ora, é a Lei nº 15.325/2026, sancionada em janeiro (2026) e conhecida como “Lei dos Influenciadores Digitais”. Essa norma representa um marco importante ao reconhecer, no ordenamento jurídico, a figura do profissional de multimídia, categoria que abrange atividades de criação, edição e gestão de conteúdo digital.

No entanto, essa lei é bastante superficial e não exige formação acadêmica nem certificação específica para influenciadores que postam sobre temas complexos como saúde, direito ou economia. Seu foco reside em organizar juridicamente a atividade econômica e técnica daqueles que fazem da criação de conteúdo uma profissão remunerada, sem criar reserva de mercado por meio de diplomas ou conselhos profissionais.

Por outro lado, é importante destacar que, no Brasil, a falta de regulamentação específica não significa ausência de responsabilidade. Criadores de conteúdo que disseminam desinformação podem ser responsabilizados com base em normas existentes, como o Código Civil, o CDC, o Marco Civil da Internet e até mesmo o Código Penal.

No Congresso, porém, já tramitam projetos de lei que tentam preencher lacunas específicas. Há iniciativas que propõem, por exemplo, estabelecer deveres de transparência na comunicação digital patrocinada e atribuir responsabilidade civil e administrativa a influenciadores, agências e contratantes pela disseminação de desinformação coordenada. Outros projetos sugerem, e aqui talvez esteja o nó górdio, restrições para conteúdos que demandem conhecimento especializado sem certificação técnica apropriada.

Esses debates apontam para uma sociedade cada vez mais consciente da necessidade de limites e responsabilidades no ambiente digital.

O ponto central dessa discussão não é criar barreiras artificiais, restringir a liberdade de expressão ou transformar diplomas em escudos de superioridade intelectual. O que está em jogo é a proteção da confiança social na informação. Quando um influenciador sem formação aponta tratamentos de saúde, dá orientações financeiras ou ensina direito comparado, ele não está compartilhando uma opinião inócua; está potencialmente influenciando decisões que podem ter consequências reais e duradouras na vida de milhões.

É necessário elevar o padrão de responsabilidade, tornando claro que informação de qualidade não é mercadoria indiferenciada. É um bem social que merece critérios.

AnúncioSAMAE
Clique para ler mais notícias como esta
Adicione o JDV como fonte preferida no Google Participe de nossa comunidade no WhatsApp

Últimas 10 notícias publicadas

Especial JDV

Carregando clima…

Especial JDV

22 de outubro de 2026

Primeiro conto de ficção maçônica brasileira se passa em sociedade futurista

A história dos Templários e os símbolos da Maçonaria ganham uma nova abordagem em Exílio Templário: Conto de Ficção Maçônica, lançamento do escritor e Mestre Maçom grau 31 Wildon Lopes. A obra reúne pesquisa histórica, ensaios, poesias, microcontos e ficção científica para discutir questões relacionadas à fraternidade, liberdade, justiça e desenvolvimento humano. Em uma das […]

Cotidiano

Especial JDV