Colunistas | 24/03/2026 | Atualizado em: 24/03/26 ás 13:18

[Opinião] Red pills, os (pseudo) machos alfa

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[Opinião] Red pills, os (pseudo) machos alfa

Foto: Pexels/MART Production

“But I’m a creep / I’m a weirdo / What the hell am I doing here? / I don’t belong here” (Creep, Radiohead)

Mais um crime escabroso contra mulher, cujo autor do homicídio, segundo investigações da Polícia Civil, é alguém que deveria ser o guardião da lei e deveria ter autocontrole e discernimento, um tenente-coronel da PMSP, que, pelas matérias veiculadas, claramente contava com sua impunidade, seja pelo seu comportamento no dia da ocorrência, seja pela simulação de suicídio.

Ainda tão assustadoras quanto o ato em si, foram as mensagens dele para sua mulher, também policial, das quais, de todas absurdas, a seguinte consegue se destacar:

“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.

Vejam, meus caros leitores, a bestialidade e imbecilidade com que este cidadão tratava sua esposa e como considera o papel de uma mulher casada. “Macho alfa”, “fêmea submissa”. E isso já passado mais de um quarto do século XXI. Ele é uma aberração, mas, diferentemente da música que abre este texto, não se reconhece assim.

Terra de Malboro distorcida

Infelizmente, ele não está sozinho. Outras aberrações, homens que têm o idiotizado orgulho de se intitularem red pill, incel, MGTOW, “homem sigma”, estão se proliferando na chamada “machosfera”. Seriam apenas mais alguns adultos infantilizados se não fosse um fator: o crescimento exponencial desse discurso impulsionado pela internet tem gerado consequências concretas, como a morte dessa policial pelo próprio marido.

A internet não criou o machismo, a violência ou a misoginia, mas trouxe escala, validação e comunidade. O que antes eram pensamentos isolados, reprimidos ou socialmente constrangidos, hoje encontra eco, aplauso e reforço em fóruns, grupos e algoritmos que premiam exatamente o conteúdo mais agressivo, simplista e polarizador. As pessoas perderam a vergonha de se mostrarem burras ou abomináveis!

Esses ambientes funcionam como verdadeiras incubadoras de distorções. Um jovem inseguro não encontra ali orientação; encontra radicalização. Não encontra equilíbrio; mas ressentimento. E, aos poucos, passa a acreditar que o mundo é dividido entre dominadores e submissos, entre “machos alfa” e “fêmeas beta”, como se relações humanas fossem um experimento de laboratório mal interpretado. Ou de filmes mal interpretados, como Matrix (origem da expressão red pill).

Há, nesse fenômeno, uma mistura perigosa de ignorância científica, fragilidade emocional e validação digital. O conceito de “macho alfa”, importado de leituras equivocadas de comportamento animal, é transformado em ideologia de vida. A complexidade das relações humanas é reduzida a hierarquias simplistas e autoritárias.

E tudo isso é embalado como empoderamento masculino. Sim, você leu certo: empoderamento masculino, uma criação nebulosa (e assombrosa) de certos “coaches da masculinidade”.

Mas, no fundo, não passa de insegurança; de incapacidade de lidar com frustração; e de ignorância elevada à condição de identidade.

Do ponto de vista social, não são apenas ofensas e comportamentos inadequados. Trata-se de um ambiente que contribui para a normalização da violência contra mulheres.

A responsabilidade das plataformas.

Algoritmos não são neutros. Eles amplificam aquilo que gera engajamento e o ódio engaja. A radicalização, o conflito e a simplificação grosseira das relações humanas produzem cliques, visualizações e retenção de atenção. O resultado é um ciclo de retroalimentação que fortalece o extremismo.

Repito, porque sei que já vão aparecer os críticos: isso não significa censura. É responsabilidade proporcional ao poder que essas plataformas exercem na formação de comportamento.

Entretanto, a responsabilidade não é só delas. Família, escola e sociedade precisam retomar um papel que foi parcialmente abandonado e tomado pelas plataformas: o de formação ética, emocional e relacional. Educação digital também é ensinar a reconhecer distorções e armadilhas discursivas.

A moça da música tema de hoje conseguiu sair livre e ilesa. Na machosfera isso não vem acontecendo.

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Raphael Rocha Lopes

Disrupção.TUDO! - Raphael Rocha Lopes é advogado e professor. Escreve sobre educação, comportamento e transformação digitais | @raphaelrochalopesadvogado

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