Por que a picada do maruim dói e coça tanto? Médico de Jaraguá explica como aliviar e se proteger
Foto: Reprodução/Prefeitura de São José - SC
Extremamente pequeno, quase imperceptível, mas com uma capacidade enorme de transformar um fim de tarde no quintal ou na lavoura em momentos de desconforto. O maruim faz parte da rotina de quem vive em Jaraguá do Sul e no Vale do Itapocu – e principalmente nos dias quentes do verão.
Conhecido também por miruí, muruim, mosquitinho-do-mangue ou mosquito-pólvora picador, este inseto minúsculo aos olhos mede entre um e quatro milímetros e se desenvolve em ambientes úmidos com matéria orgânica em decomposição, como madeira apodrecida, lama, restos vegetais e, especialmente na região, cepos de bananeira em decomposição.
Mas o que realmente incomoda no Maruim não é o tamanho e nem a presença dele, e sim, a intensidade da picada.

Como é a picada do maruim
Segundo o dermatologista Jorge Bernardo Garnica Camargo, de Jaraguá do Sul, a picada do maruim é realmente mais agressiva do que a de outros mosquitos.
Enquanto alguns insetos apenas perfuram a pele para sugar o sangue, o maruim provoca uma pequena dilaceração (um rasgo) do tecido cutâneo. Mesmo microscópica, essa lesão estimula mais terminações nervosas e desencadeia maior resposta inflamatória.
Ele explica que apenas as fêmeas picam, pois precisam do sangue para maturação dos ovos, e, durante a picada, são injetadas substâncias que facilitam a sucção, como componentes que promovem dilatação vascular.
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“Essas substâncias, associadas à ruptura da pele, acabam produzindo uma reação inflamatória mais intensa. Em algumas pessoas surgem vergões e bolinhas que podem persistir por dias”, completa.
Como aliviar picadas de maruim e se proteger
Após a picada, a recomendação inicial é simples: higienizar a área com água e sabão, aplicar compressa fria para reduzir a inflamação e, principalmente, evitar coçar, já que o atrito pode agravar a lesão e aumentar o risco de infecção.
Nos casos em que a coceira e o inchaço são mais intensos, segundo o dermatologista, podem ser indicados antialérgicos ou corticoides tópicos de baixa a média potência. O uso desses medicamentos, no entanto, deve ser feito com orientação médica, para garantir segurança e eficácia no tratamento.
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Receitas que circulam nas redes sociais devem ser vistas com desconfiança. Substâncias como pasta de dente, vinagre e álcool aparecem com frequência como “solução rápida”, mas não têm comprovação científica para esse tipo de lesão e podem, na prática, agravar a irritação.
O álcool, por exemplo, resseca ainda mais a pele, que já está fragilizada pela picada. Pasta de dente e vinagre podem provocar ardência, aumentar a inflamação e até desencadear dermatite de contato. O dermatologista orienta evitar essas chamadas “dicas milagrosas” e optar por medidas simples, seguras e, quando necessário, com orientação profissional.

Para se proteger dos mosquitinhos, os repelentes comuns ajudam, mas não são uma solução única. Como o maruim é muito pequeno, consegue atravessar frestas de roupas e alcançar áreas descobertas com facilidade. O uso de roupas compridas, preferencialmente claras, aliado à reaplicação do produto conforme orientação do fabricante, aumenta a proteção.
>> Importante evitar aplicar repelente sobre pele machucada, irritada ou com feridas. Segundo o dermatologista, nesses casos o produto não é indicado e pode agravar alguma infecção na pele; então evite usar até que a pele esteja recuperada.
Alergia à picada do maruim, o que fazer?
Nem toda reação intensa significa alergia, o especialista explica. A própria forma como o maruim lesa a pele já é suficiente para provocar uma resposta inflamatória mais evidente. Muitas vezes, o que parece alergia é apenas a reação natural do organismo diante da pequena dilaceração e das proteínas presentes na saliva do inseto.
A suspeita de alergia deve surgir quando o inchaço é desproporcional, a vermelhidão se espalha de forma extensa, a lesão persiste por mais de quatro ou cinco dias ou surgem sintomas gerais, como febre e mal-estar.
Também é importante considerar que várias picadas em curto intervalo podem dar a impressão de uma reação alérgica, quando na verdade representam apenas a soma de múltiplas inflamações locais.
Doença provocada pela picada do maruim
O maruim também pode atuar como vetor da febre Oropouche, uma infecção viral transmitida quando o inseto está contaminado.
A picada comum provoca dor, coceira e inchaço local, mas não causa febre alta nem sintomas generalizados. Já na infecção viral, o quadro é diferente: podem surgir febre persistente acima de 39 graus, dor de cabeça intensa, dores musculares e articulares, além de mal-estar importante.

Segundo o especialista, o principal sinal de alerta é justamente a febre alta e contínua após a exposição ao inseto. Diante desses sintomas, a orientação é procurar atendimento médico para avaliação e acompanhamento adequado.
Como fazer o controle do maruim?
Apesar de ser inconveniente, o maruim é natural do ecossistema e integra diversas cadeias alimentares. Suas larvas participam do ciclo de nutrientes ao consumir matéria orgânica, e os adultos servem de alimento para outros animais. O problema surge quando há desequilíbrio ambiental e proliferação excessiva.
Dentro da floresta há maior equilíbrio ecológico e controle natural de predadores. Já em ambientes agrícolas, por serem modificados pelo homem, pode haver maior concentração do inseto. Não por acaso, nos últimos anos algumas cidades catarinenses tiveram grandes infestações do inseto.
Diferentemente do Aedes aegypti, que deposita larvas em água parada, e do borrachudo (Simuliídeo), que se desenvolve em água corrente, o maruim depende de ambientes úmidos com matéria orgânica em decomposição, como restos vegetais e cepos de bananeira.

Por isso, as orientações técnicas para reduzir a proliferação incluem:
- Reduzir o acúmulo de matéria orgânica úmida
- Realizar manejo adequado de resíduos agrícolas
- Intensificar o controle em áreas com grande concentração de bananais
Essas medidas não eliminam completamente o inseto, mas ajudam a diminuir sua densidade e, consequentemente, o impacto na rotina da população.
Em Jaraguá do Sul, moradores que enfrentam problemas com infestação de maruim podem contar com apoio do poder público. A Secretaria de Desenvolvimento Rural e Abastecimento disponibiliza gratuitamente o CBM, Controlador Bioativo do Maruim, um produto biológico específico para o controle do mosquito-pólvora.
O composto é biodegradável, não prejudica outras espécies nem o meio ambiente e atua diretamente na matéria orgânica onde as larvas se desenvolvem, alterando o pH e impedindo sua alimentação. Para ter acesso, o munícipe deve realizar cadastro presencial na secretaria, que avalia o local antes da liberação do produto.
Como isso impacta sua vida?
Em uma região com forte presença de áreas úmidas e agricultura, como Jaraguá do Sul e municípios vizinhos, o maruim é parte da realidade local. Entender sua biologia e reconhecer sinais de alerta na saúde ajudam a reduzir o desconforto e evitar complicações. Informação é fundamental para conviver com o inseto sem transformar a rotina em um incômodo constante.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.