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O cheiro do Café Bauer que perfumou Jaraguá do Sul por décadas e ainda desperta saudade
A história do Café Bauer vai muito além da indústria: reúne lembranças de uma cidade que cresceu sentindo o cheirinho da torrefação e transformou a marca em parte de sua identidade.
Foto: Gustavo H. Glasennapp/Colorização IA/JDV
Quem viveu aquela época lembra. Bastava a torrefação começar para um delicioso cheiro de café invadir o Centro de Jaraguá do Sul. O perfume se espalhava pela Avenida Marechal Deodoro da Fonseca – ainda coberta por paralelepípedos – e vias próximas, despertando as mesmas memórias afetivas que o café recém passado provoca dentro de casa.
A origem todos conheciam: um conjunto de galpões brancos, localizado entre a Marechal Deodoro e a Rua Guilherme Weege. Não havia uma arquitetura exuberante, porém aqueles prédios tinham identidade própria. Na fachada, o enorme letreiro Café Bauer dava nome a uma fábrica que se tornou parte da história de Jaraguá do Sul.
Ao lado da fábrica, uma bonita residência completava um dos cenários mais conhecidos de Jaraguá do Sul.

Da padaria nasceu uma das marcas mais tradicionais de SC
“Neste prédio ficava o Café Bauer que era do meu avô materno, Alberto Bauer. A fábrica espalhava por toda a cidade o seu delicioso aroma. Parece que eu ainda sinto o seu cheirinho de café”, escreveu a neta Bia Bartel ao comentar uma foto publicada no Facebook.
“Era um homem simples, foi padeiro e depois, com o passar dos anos, dedicou sua vida ao famoso Café Bauer. Lembro do meu avô materno sempre com o seu cachimbo na mão. Infelizmente nos deixou cedo”, complementou.
Os documentos históricos ajudam a reconstruir esse período. Em agosto de 1947, um anúncio publicado nos jornais comunicava que a Padaria Cruzeiro passava a ser administrada exclusivamente por Alfredo Schulze, enquanto Alberto Bauer seguiria seu próprio caminho à frente da torrefação de café.
Pouco antes, em 16 de julho de 1947, iniciava oficialmente as atividades da Alberto Bauer Indústria e Comércio S.A., empresa que, ao longo das décadas seguintes, se transformaria em uma das mais tradicionais torrefações de Santa Catarina. Há registros que apontam que a atividade de torrefação já existia anteriormente, ainda no início da década de 1940, o que ajuda a explicar referências históricas ao ano de 1942 como marco das origens do Café Bauer.
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O café que conquistou Santa Catarina
O crescimento foi rápido. Em 1949, Alberto Bauer solicitou a ampliação da área destinada à torrefação. Em 1961, novos prédios e anexos foram construídos para acompanhar o aumento da produção.
O livro Focalizando – Canoinhas, Jaraguá do Sul e Guaramirim registra que a Torrefação e Moagem de Café Alberto Bauer produzia diariamente cerca de dois mil quilos de café, distribuídos para diversos municípios catarinenses por meio de frota própria de veículos. Na época, a empresa empregava dez operários e três viajantes.
As fotografias preservadas mostram caminhões, caminhonetes e Kombis estacionados em frente aos galpões, responsáveis por levar o Café Bauer a supermercados, mercearias e armazéns de diversas cidades catarinenses.
Os anúncios publicados nos jornais reforçam o prestígio da marca. O Café Bauer era apresentado como um produto de “pureza, aroma e sabor”, preparado “por processos modernos e máxima higiene”.
Outros anúncios recomendavam: “Ao pedir café, peça sempre Café Bauer”. A empresa também oferecia entregas em domicílio e mantinha uma filial em Itajaí, ampliando sua presença no mercado estadual.

Além do café, a indústria também produzia balas e caramelos da marca Bauer, igualmente lembrados por quem viveu aquela época.
“Meu pai era o torrador de café do Bauer. Eu comi muita bala e como era gostosa”, escreveu Sandra Aguiar, filha de Fritz Otto, conhecido entre os colegas pelo apelido de “Velho Fogo”.
Mini zoo era atração para famílias
Mas o Café Bauer nunca foi lembrado apenas pelo café. Durante muitos anos, a fábrica também se transformou em um dos passeios preferidos das famílias jaraguaenses. Em frente ao prédio havia jardins, viveiros com aves e pequenos animais e até um lago com chafariz.
Aos domingos, crianças corriam pelo local enquanto os adultos passeavam tranquilamente. Assim como são hoje o Parque Malwee e a Via Verde, aquele era um dos programas mais aguardados pelos moradores.
Fotografia preservada em jornais da época registra justamente esse espaço de lazer, destacando os viveiros com pequenos animais e aves, além do lago que encantava os visitantes.


Quem esteve ali nunca esqueceu.
“Lembro que na minha infância brincávamos muito nesta fábrica de café. Corríamos entre os sacos de café nos finais de semana. Onde hoje fica localizada a Farmácia Catarinense ficava a casa do meu ‘Opa Bauer’, assim chamado pelos netos, e também em frente à fábrica havia o mini zoológico, aberto ao público. Este, por sinal, era visitado nos finais de semana por muitas famílias jaraguaenses. Saudades deste tempo bom demais!”, recorda Bia Bartel, neta de Alberto Bauer.
As lembranças se repetem em diferentes gerações.
“Aos domingos era uma festa tal o número de visitantes. Tudo muito bem cuidado. E o aroma do café, como alguém já mencionara”, escreveu José Ademir Mader ao rever uma fotografia da antiga fábrica.
Também Deni Häring recordou o espaço que encantava tantas crianças: “Ao lado me lembro a ideia do mini zoo, tenho fotos minhas e do meu irmão.”
A continuidade da empresa
Alberto Bauer acompanhou o crescimento da empresa até 29 de maio de 1974, quando morreu aos 68 anos. O falecimento foi comunicado oficialmente pela Alberto Bauer S.A. nos jornais da época, que também registraram o agradecimento da família pelas inúmeras manifestações de solidariedade recebidas.
Com a morte do fundador, a presidência da empresa passou para seu filho, Victor Bauer, que deu continuidade ao trabalho iniciado pelo pai.
Foi já como presidente da empresa que Victor Bauer publicou um comunicado colocando a estrutura do Café Bauer à disposição dos cafeicultores de Jaraguá do Sul e municípios vizinhos para tratar de medidas relacionadas ao escoamento das safras.
Além da atuação empresarial, Victor Bauer também participou da vida pública do município, exercendo os cargos de vereador e, posteriormente, de prefeito de Jaraguá do Sul. A herança política da família teve continuidade: Paulo Bauer, filho de Victor e neto de Alberto, percorreu uma vitoriosa trajetória em diversos cargos eletivos, inclusive vice-governador de Santa Catarina e senador da República.

O fim de um ciclo, mas não da marca
Em 1994, a tradicional empresa foi adquirida pela Franzner Alimentos Ltda., pertencente ao Grupo Urbano Agroindustrial. A reportagem publicada na época informava que a negociação envolvia a marca, a frota de veículos e os equipamentos da empresa. A produção seguiria inicialmente nas mesmas instalações, enquanto havia planos de ampliar o mercado para outros estados brasileiros.
A marca permaneceu nas prateleiras dos supermercados durante vários anos. Um anúncio publicado nos jornais em 2006 comprova que o tradicional Café Bauer de 500 gramas ainda era comercializado em Jaraguá do Sul, mais de uma década após a aquisição da empresa.
Com o passar dos anos, o produto deixou de ser encontrado nas gôndolas. Mas jamais desapareceu da memória de quem o saboreou. Ainda hoje, basta surgir uma fotografia dos antigos galpões ou uma lembrança compartilhada nas redes sociais para que dezenas de jaraguaenses contem suas próprias histórias.

A edificação que abrigava a empresa perdurou por muitos anos ainda, até ser completamente demolida por volta de 2015. Hoje, permanece apenas o terreno daquela que foi uma grande referência para Jaraguá do Sul.

Como isso impacta sua vida?
O Café Bauer saiu do mercado e os antigos galpões já não existem mais. E uma das indústrias mais tradicionais de Jaraguá do Sul, que espalhava o cheiro de café pelo Centro da cidade, deixou saudade. Resgatar essa história é manter viva a memória de uma empresa que fez parte do desenvolvimento do município e da infância de milhares de jaraguaenses.
Marcio Martins
Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público.