A cidade de SC que recebeu sobreviventes de Nagasaki e guarda sino de 400 anos doado pelo Japão
Fotos: Divulgação | Montagem: JDV
No coração da colônia japonesa de Frei Rogério, no Meio-Oeste catarinense, está um dos mais marcantes monumentos relacionados ao país do Sol Nascente: o Parque Sino da Paz. O espaço nasceu da memória dolorosa dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial, e se tornou um elo entre o Brasil, o Japão e o mundo.
O terreno que abriga o parque pertencia a Kazumi Ogawa, ex-morador de Nagasaki e um dos seis ou sete (os números são divergentes) sobreviventes da tragédia que acabaram se instalando no município catarinense.
Em homenagem às vítimas e à resistência dos que sobreviveram aos ataques, que mataram mais de 230 mil pessoas em 1945, em sua maioria mulheres e crianças, foi erguido um monumento de 28 metros de altura. Ele é inspirado no pássaro Tsuru, símbolo japonês da paz e da esperança.
Dentro da estrutura repousa o verdadeiro protagonista: um sino de bronze com mais de 400 anos de história, pesando cerca de 40 quilos. Presente do governo japonês ao Brasil, o sino encontrou em Frei Rogério um espaço único. Hoje, ele é um dos três exemplares no mundo: os outros estão em Hiroshima e na sede da ONU, em Nova York.


Cerimônias que unem emoção e memória
Todos os anos, nos dias 6 e 9 de agosto, datas que marcam os bombardeios atômicos, a comunidade se reúne para a Cerimônia da Badalada do Sino. O som ecoa carregado de significado, emocionando sobreviventes, descendentes e visitantes. O gesto não é apenas simbólico: é um lembrete de que a paz deve ser um compromisso contínuo da humanidade.
O parque foi inaugurado em 15 de outubro de 2002, em solenidade que contou com a presença de autoridades catarinenses e de uma delegação da província de Nagasaki. Na ocasião, foi assinada a Declaração da Paz, encaminhada à Unesco, e a cerimônia ganhou transmissão internacional pela emissora japonesa NHK.
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Com o passar dos anos, o espaço se consolidou como destino turístico e ponto de reflexão.
Cultura e tradição japonesa
Embora o Sino da Paz seja o principal cartão-postal de Frei Rogério, a cidade reserva outros atrativos que reforçam sua ligação com a imigração japonesa e com a preservação cultural.
A história da imigração começou oficialmente em 28 de janeiro de 1963, quando o então governador Celso Ramos assinou o documento que instituiu a primeira colônia japonesa de Santa Catarina, localizada no Núcleo Celso Ramos.
Pouco mais de um ano depois, em 9 de abril de 1964, chegaram os primeiros imigrantes: oito famílias, somando mais de 50 pessoas. Entre elas estavam os núcleos familiares de Kazumi Ogawa, Shingo Sugiyama, Niro Kuwahara, Takao e Koji Katsurayama, Kiyotsugu Kubota, Wataru Ogawa e Fujishige Eguchi.
Essas famílias deixaram marcos profundos na cidade, caracterizada por preservar a cultura da terra do Sol Nascente.
O Parque Sakura Matsuri é um dos exemplos mais emblemáticos. Nele foram plantadas três mil mudas de cerejeiras, que, a cada primavera, protagonizam a espetacular florada da Sakura. O fenômeno, que dura menos de uma semana, é celebrado com a tradicional Festa da Florada da Cerejeira, quando apresentações de danças, cerimônias do chá, kendô, caligrafia japonesa e culinária típica transformam o espaço em um pedaço do Japão em território catarinense. O evento atrai em média 1,5 mil visitantes, vindos de diferentes regiões.
Outro ponto de interesse é a Casa Octogonal, inaugurada em 2008 e batizada de Yumedono, ou “casa dos sonhos”. Seus oito lados representam a realização contínua de novos desejos. No topo, uma porunga simboliza a superação do impossível, reforçando o espírito de perseverança da comunidade japonesa.


Para quem aprecia o contato com a natureza, a Cachoeira Salto Correntes é uma parada obrigatória. Suas quedas chegam a dez metros de altura, espalhadas por mais de 70 metros de extensão, emolduradas por uma paisagem exuberante. A trilha que leva até o local, passando por uma ponte que divide Frei Rogério e Curitibanos, é um convite à aventura e ao lazer.
Herança da primeira colônia japonesa de SC
A história de Frei Rogério está intimamente ligada à Colônia Japonesa de Núcleo Celso Ramos, fundada oficialmente em 1963 e povoada no ano seguinte pelas primeiras oito famílias de imigrantes vindas do Japão. Ao todo, mais de 50 pessoas se estabeleceram no local, cultivando não apenas a terra, mas também tradições culturais que permanecem vivas até hoje.
A sede da Associação Cultural Brasil-Japão, inaugurada em 1970, consolidou esse legado e ainda hoje é palco de atividades culturais. Essa forte herança japonesa explica por que Frei Rogério se tornou guardiã de símbolos mundiais da paz e da memória da Segunda Guerra.
Um destino que une memória, cultura e natureza
Frei Rogério pode ser pequena em tamanho, mas é gigante em significado. O Sino da Paz coloca a cidade no mapa mundial da memória histórica, enquanto atrações como a florada das cerejeiras, a Casa Octogonal e a Cachoeira Salto Correntes completam uma experiência única para quem a visita.
Mais do que um roteiro turístico, Frei Rogério, uma das joias de Santa Catarina, é um convite à reflexão, ao respeito pelas tradições e ao compromisso coletivo com a paz.