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O que uma simples ida à barbearia pode revelar sobre as pessoas?
Já ouvi da sabedoria popular que só existem duas categorias profissionais habilitadas a governar o País: os motoristas de táxi e os cabelereiros. A teoria se baseia na experiência deles terem todos os tipos possíveis sentados em seu banco e cadeira e, por ouvirem reclamações e explicações sobre os mais variados conhecimentos, teriam todas as soluções que precisamos.
Na família dos Lamas existe uma tradição de sempre cortar o cabelo com o mesmo barbeiro. Começou com o meu avô, o Chico “Lama”, que era cliente do Sr. Pedro. Antes dele abrir o Salão São Pedro, o serviço era feito na rua, mais precisamente no banco da praça, em Pelotas, onde os barbeiros ficavam à espera dos clientes.
Depois o Luis, filho dele, passou a trabalhar na cadeira ao lado e sabia fazer os cortes dos jogadores de futebol, donde eu e meu primo éramos clientes frequentes. Hoje, meu pai continua cortando o cabelo lá no São Pedro, mas com outro rapaz, que substituiu o – falecido – Luis.
Comecei a quebrar essa fidelidade quando mudei para Jaraguá do Sul. Fiquei experimentando lugares conforme ia passando pelos salões e, ainda, quando visitava a família, passava lá no “Bem-te-ví”, digo, no Luis. Na época era mais fácil testar até encontrar o melhor atendimento, não havia essa quantidade enorme de barbearias retrô / vintage, que quase empata com o número de farmácias nas esquinas.
A minha lista de cidades em que já cortei o cabelo é bem extensa. Tive um barbeiro que aproveitava bem essa minha “infidelidade”. Quando eu aparecia no salão dele, queria saber o que eu tinha visto de diferente por aí, como a barbearia de Porto Alegre que tinha uma televisão acima de cada cadeira, assim o cliente poderia assistir o canal que quisesse, e não ser obrigado a ver Tombense x ASA, pela série D.
Já troquei de barbearia porque o sujeito tinha político de estimação e não falava de futebol e fui justamente para o salão onde os ex-jogadores eram os barbeiros.
Outro dia, o meu barbeiro atual disse que corta o cabelo de oito pessoas que moram no meu prédio. É a bolha, da bolha, da bolha. Talvez eu tenha que trocar de cadeira, vai que eu chego lá estressado, reclamando de outrem e é justamente o cliente preferido dele?
Parafraseando Ambrose Bierce (1842-1914), em Dicionário do Diabo:
Fidelidade s.f. virtude peculiar àqueles que estão prestes a ser traídos.
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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora. Quer contatá-lo? Escreva para: marcelolamasbr@gmail.com.




