Cotidiano | 08/09/2026 | Atualizado em: 08/09/26 ás 11:42

Quem foi Emílio da Silva, o primeiro historiador de Jaraguá do Sul e pai de um fundador da WEG

Filho de uma babá contratada pela família Jourdan, o autodidata registrou a memória do Vale do Itapocu e deu origem ao museu que hoje leva seu nome.

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Quem foi Emílio da Silva, o primeiro historiador de Jaraguá do Sul e pai de um fundador da WEG

Emílio da Silva em retrato restaurado por IA a partir de imagem publicada no livro "Emílio da Silva e seu século", de José Alberto Barbosa.

Muito antes de existir um museu para contar a história de Jaraguá do Sul, um homem apaixonado pela cidade decidiu dedicar a vida a reunir os pedaços desse passado.

Emílio da Silva anotou, guardou documentos, fotografou paisagens, ouviu os primeiros moradores e guardou relatos de uma época em que o Vale do Itapocu ainda era formado por colônias e caminhos em transformação. O trabalho do autodidata deu origem ao acervo que hoje ajuda a preservar a memória da cidade.

Não é por acaso que o principal museu da cidade, na Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, leva o nome dele: Museu Histórico de Jaraguá do Sul – Emílio da Silva. O espaço guarda parte do legado deixado pelo homem que passou décadas registrando tudo o que podia, para deixar para a posteridade.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Jaraguá do Sul

Uma origem ligada à fundação da cidade

A história de Emílio começa junto com a da própria colonização. Quando a família de Emílio Carlos Jourdan, considerado o fundador do município, chegou ao então Estabelecimento Jaraguá, trouxe consigo Maria Umbelina da Silva, contratada em Araquari para ser babá das crianças.

Segundo a biografia registrada pelo autor José Alberto Barbosa no livro “Emílio da Silva e seu Século”, ela era filha de escravizados.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

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Quando os Jourdan deixaram a região, depois do fracasso do empreendimento, Maria Umbelina ficou. Em novembro de 1900, deu à luz os gêmeos Emílio e Paula. Ambos levaram o sobrenome da mãe. Conforme o relato do próprio historiador, o pai foi Afonso Alves de Siqueira, de uma família de canoeiros que trabalhava no Estabelecimento Jaraguá.

Com cerca de um ano, Emílio foi adotado por um casal da cidade, Carlos e Claresdina Lehmert, que não podiam ter filhos. Foi ali que ganhou acesso a livros, aprendeu alemão e começou a se formar como autodidata.

O pai adotivo, engenheiro, trabalhou na construção da ferrovia que corta a região, e a convivência ajuda a explicar a variedade de habilidades que Emílio desenvolveria depois.

O professor que ergueu a própria escola

Em 1922, aos 22 anos, Emílio foi nomeado para dar aulas na então Schroederstrasse, hoje Schroeder, pouco depois de retornar à região. Havia um problema: a nomeação estava feita, mas a escola onde ele daria aula não existia.

Emílio da Silva jovem em retrato histórico de Jaraguá do Sul
Foto: Arquivo/Museu Histórico Emílio da Silva

Ele mesmo se encarregou de levantar o prédio, com as próprias mãos, recursos e o apoio de algumas famílias da comunidade. Tornou-se o primeiro professor nomeado do lugar, e a unidade é lembrada como a primeira escola pública da cidade.

“Sem dúvida um dos aspectos mais relevantes da rica vida de Emílio da Silva foi o seu profícuo e oportuno trabalho como educador, mestre-escola, como professor do curso primário, quando foi dos pioneiros do ensino público”, descreve Barbosa.

Emílio lecionou ali até 1929, quando foi transferido para Jaraguá do Sul. Anos depois, em 1951, foi nomeado Inspetor Escolar pelo então prefeito Waldemar Grubba. O reconhecimento sobrevive na cidade: hoje uma escola municipal de Schroeder leva o nome de Professor Emílio da Silva.

O homem de sete instrumentos

O apelido de “homem de sete instrumentos” não surgiu por acaso. Emílio reunia habilidades que iam muito além da sala de aula: foi professor, músico, pintor, alfaiate, marceneiro e sapateiro nos primeiros anos de Schroeder. Também atuou como agrimensor, topógrafo e cartógrafo, deixando mapas de Jaraguá do Sul e do Vale do Itapocu.

Não parava aí. Trabalhou como eletricista em Rio Negro e como mecânico, capaz de montar e desmontar carros. Chegou a atuar como arquiteto para famílias da região.

“Ele era procurado para isso, conversava sobre as características desejadas; em seguida esboçava, media, calculava e desenhava as plantas, sendo que seus clientes, então, contratavam por si os construtores”, conta o biógrafo.

Da música ao Salão Silva

Ainda nos primeiros anos como professor em Schroeder, Emílio conheceu Magdalena Salomon, com quem se casou em 1924. A casa do casal ficava no começo da Estrada Schroeder, perto de onde hoje passa a Avenida Waldemar Grubba. Ali, os dois abriram um comércio de secos e molhados, tocado por Magdalena e pelos filhos.

Emílio da Silva com familiares em fotografia histórica de Jaraguá do Sul
Foto: Arquivo/Museu Histórico Emílio da Silva

Apreciador de música e com habilidade nos instrumentos, Emílio abriu ao lado de casa o Salão Silva, onde aconteciam bailes e festas. Contam que ele levava o gramofone para as festas na garupa da bicicleta, animando os encontros. Mais tarde, foi um dos movimentadores da Sociedade Cultura Artística, a Scar, descrito como exímio violinista e violoncelista, além de tocar trompete, clarinete e contrabaixo.

O pai do fundador da WEG

A família cresceu com sete filhos: Emílio Junior, Eugênio, Edgard, Eggon, Edith, Érica e Elvira. A trajetória de um deles é conhecida em toda a região. Eggon João da Silva foi um dos fundadores da WEG, uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo, nascida em Jaraguá do Sul.

Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus, fundadores da WEG | Foto: Arquivo/WEG

A ligação costura três gerações a um mesmo fio da história local: Maria Umbelina, a babá que chegou com os Jourdan; Emílio, o filho que registrou a memória da cidade; e Eggon, o neto dela que ajudaria a construir uma multinacional a partir do chão jaraguaense.

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O historiador que guardou a cidade

Desde cedo, Emílio gostava de olhar para o passado. Leitor voraz, tinha interesse por história, arqueologia e antropologia. Foi responsável por registrar em fotografias e preservar imagens de outros fotógrafos da região, eternizando como era o Vale do Itapocu no início do século.

“Se tinha alguma dúvida, alguma questão, ia ver de perto, entrevistar, verificar, medir. Tinha interesse por tudo. E especialmente por pessoas. Por vidas e vivências”, relata Barbosa.

Foi esse método, pesquisar em cartórios e até em lápides de cemitério, que o transformou no historiador do Vale do Itapocu. O resultado ficou registrado no “Segundo Livro de Jaraguá do Sul, Um Capítulo da Povoação do Vale do Itapocu”, com redação final em 1975, cheio de biografias de moradores da cidade.

Emílio da Silva tocando contrabaixo em registro histórico de Jaraguá do Sul
Foto: Arquivo/Museu Histórico Emílio da Silva

Foi o acervo pessoal dele, doado à cidade, que constituiu o primeiro museu de Jaraguá do Sul.

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Como isso impacta sua vida?

Quem mora em Jaraguá do Sul convive com o trabalho de Emílio da Silva sem saber. Cada foto antiga da cidade que circula, cada data dos primeiros tempos da colônia, boa parte disso passou pelas mãos dele antes de virar memória pública. Conhecer quem foi o homem por trás do nome do museu é entender que a história local não se preservou sozinha: alguém precisou parar, anotar e guardar.

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Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

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