Cotidiano | 08/09/2026 | Atualizado em: 08/09/26 ás 17:18

Frustrações necessárias

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Frustrações necessárias

Fotos: Pexels

“Nessa terra de gigantes/ Eu sei, já ouvimos tudo isso antes/ A juventude é uma banda/ Numa propaganda de refrigerantes” (Terra de gigantes; Engenheiros do Hawaii).

As gerações do pessoal com mais de trinta anos, pelo menos, acostumaram-se com algo que deveria ser comum mesmo, a tal frustração. Nada era tão fácil. Às vezes, nada fácil. Seja por falta de dinheiro, seja por causa do tempo.

Era chato, era frustrante, mas era assim e funcionou. Chegamos até aqui, afinal.

Orelhões, séries, paciência

O exemplo clássico: ligação interurbana. Especialmente para quem era jovem e estudava fora, a rotina de um orelhão era absolutamente comum.

Saí de casa para estudar em outra cidade aos 17 anos. Início dos anos 90. Não existia celular. Comprar uma linha telefônica convencional era absurdamente caro. A única alternativa era pegar a fila do orelhão, preferencialmente após às 20 horas, pois a ligação interurbana era mais barata.

Tentem imaginar, então, como era a fila do orelhão em uma região universitária próximo desse horário. Ninguém queria ficar no fim da interminável fila. E todos, ou quase todos, tinham consideração com quem estava aguardando a vez, com conversas rápidas com os pais ou quem quer que estivesse do outro lado da linha. A maioria ligava a cobrar (alguém aqui lembra da musiquinha que tocava?), mas alguns utilizavam as fichas (depois substituídas por cartões).

Eventualmente, alguém não ligava para casa no dia e horário combinados. Os pais não se desesperavam, como hoje quando um filho não atende o celular ou não responde uma mensagem em meia hora.

Assistir a séries na TV era isso mesmo: assistir em série. Um episódio por vez, uma vez por semana. Era naquele horário, em uma das quatro ou cinco emissoras que existiam na época. Se perdeu, perdeu. No outro dia, atualizava-se com os amigos na escola ou no trabalho.

Livros? Biblioteca, com prazo para devolver ou renovar.

Filmes, na locadora, com a obrigação de devolver a fita rebobinada porque ninguém queria pagar multa. Para os lançamentos, fila de espera. Quando não tinha o filme que a gente queria, sugestão do atendente para algum na mesma linha.

A vida corria bem, sem muita correria e com alguns tropeços.

“O tempo passa, o tempo voa…

… e a poupança Bamerindus continua numa boa.” Na realidade, não continua. O banco quebrou. E só o pessoal mais antigo entendeu. De toda forma, quem não entendeu, consegue procurar rapidinho na internet. No Google ou, agora, nos apps de inteligência artificial.

Hoje, as ligações telefônicas são imediatas. De celular para celular. Nem pensar falar com o pai ou a mãe do amigo antes do próprio amigo, como costumava ocorrer quando ligávamos para a casa deles antigamente.

Filmes aos borbotões em qualquer plataforma de streaming. Séries agora são maratonadas (um neologismo para assistir todos os capítulos em um dia ou final de semana só). Não dá tempo nem para pensar, refletir, criar expectativa.

Parece até que está rolando uma nova forma de fazer os filmes e séries. As falas estão sendo repetidas porque as pessoas não conseguem prestar atenção. O smartphone atrapalha e para que o expectador não perca totalmente o enredo, os diretores estão tentando. Por isso, tem tanto filme parecendo mais chato do que o normal.

Nesse ritmo, as crianças de hoje serão as estressadas, agoniadas, desatentas e manhosas do futuro, pois não saberão o que é esperar e se frustrar.

As coisas parecem estar ficando facilitadas demais! Parece que os algoritmos estão simplesmente eliminando as dificuldades da vida. E se os professores impõem obstáculos, ainda há pais que reclamam. Lembro que eu dizia para meus alunos no início das aulas: “Entrar na faculdade foi fácil. Minha missão, aqui, é tornar mais difícil sair dela”. Sempre havia quem torcia o nariz, óbvio.

As crianças até podem aprender que a Terra não é plana (espero, pelo menos), mas é necessário refletir sobre o que fazer para que não pensem que são o centro do universo.

E, atenção, esse não é um texto sobre como o passado era melhor. Não era. Apenas alguns comportamentos individuais e coletivos é que precisam ser lapidados para que não vivamos num mundo de gente frustrada.

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Raphael Rocha Lopes

Disrupção.TUDO! - Raphael Rocha Lopes é advogado e professor. Escreve sobre educação, comportamento e transformação digitais | @raphaelrochalopesadvogado

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