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Fenômeno workslop: quando a IA gera retrabalho
Foto: Mizuno K/Pexels
♫ “[boing ping boom tschak ping]/ Music non stop, techno-pop” (Boing boom tschak; Kraftwerk).
A inteligência artificial veio, em tese, para facilitar a vida das pessoas. Esse era o sonho desde os desbravadores da ideia (em conceito) lá nos anos 1800 e alguma coisa, como no caso de uma das mulheres mais brilhantes da matemática, Ada Lovelace. O mundo girou, as ideias foram se aprimorando, e a inteligência artificial se popularizou como estamos vendo atualmente.
Aconteceu coisa parecida com o telefone, o computador, a internet, o aparelho celular, para ficarmos em apenas alguns exemplos.
O nó agora, porém, é outro. Tem gente demais usando plataformas ou aplicativos de IA. Isso, por si só, óbvio, não seria o problema. O transtorno está em tanta gente sem capacidade usar tais recursos. Isso tem consequências.
O retrabalho
Os americanos já inventaram uma palavra nova para isso, um neologismo: workslop. Os brasileiros, em vez de simplesmente traduzirem ou utilizarem usarem qualquer termo português, como trabalho malfeito ou algo do gênero, resolveram adotar o termo na língua alienígena mesmo. Síndrome de vira-latas à parte, o fato é que a IA está realmente criando alguns problemas nesse sentido.
Para quem nunca se deparou com essa expressão, o termo foi cunhado em setembro de 2025 em um artigo de vários pesquisadores na revista Harvard Business Review. Work significa trabalho, e slop significa lavagem. Isso já dá uma ideia do contexto pretendido com a palavra.
Conteúdos em alta
Os conteúdos produzidos com a ajuda de IA vêm rápido, mas, em muitos casos, estão se mostrando superficiais, pouco úteis. Um lixo, ou… lavagem.
E sendo, os trabalhos, malfeitos, o que resta? O retrabalho. Aquilo que parece bonito, organizado, técnico, pode se transformar, depois de uma análise um pouco mais apurada, um monte de nada aproveitável, ou de muito pouco aproveitável.
Isso obriga as pessoas, superiores ou revisores, independentemente do segmento de atividade, a determinarem que tudo seja refeito ou que eles mesmos tenham que refazer. Um transtorno que gera custos.
O velho ditado…
… parece nunca ter sido tão atual: a pressa é inimiga da perfeição. Ainda que nos dias de hoje muitas vezes é melhor feito do que perfeito, há que se considerar que algo superficial demais ou acochambrado, em regra, não vai resolver o problema a ser solucionado. Pode, na verdade, piorá-lo, pois decisões erradas podem resultar de um arremedo qualquer disfarçado de trabalho profissional.
Pesquisas apontam que entre 15% e 40% (dependendo da fonte ou da área de atuação) de profissionais nas empresas afirmam que já receberam material superficial decorrente da confiança demais na IA de quem o produziu. Imaginem o efeito em cadeia que isso pode provocar se passar por várias mãos que meramente confiem no que foi feito.
Na prática significa outras pessoas corrigindo e, obviamente, perdendo tempo, muitas vezes precioso no contexto corporativo. Diminui a produtividade e aumenta-se o prejuízo (ou reduz-se a lucratividade, eficiência, confiança). Esse não é um problema só de brasileiros; é mundial.
Parece mesmo que muita gente não está se atentando a essa importante questão, preferindo passar essa falsa impressão de intelectualidade ou profissionalismo, que vai ser derrubada na primeira análise um pouco mais aprofundada. Além da empresa ou do escritório, que perde a produtividade, a pessoa que usou a IA sem conferir, como mera muleta, cairá em descrédito com seus colegas ou clientes, além de todas as outras consequências que vocês podem imaginar.
Raphael Rocha Lopes
Disrupção.TUDO! - Raphael Rocha Lopes é advogado e professor. Escreve sobre educação, comportamento e transformação digitais | @raphaelrochalopesadvogado