60 anos de Juventus: 6 batalhas que marcaram a história do clube dentro e fora de campo
Foto: Montagem JDV/IA
Para o jaraguaense que ama futebol, o Grêmio Esportivo Juventus representa algo que vai muito além do esporte. Em 60 anos de história, o clube atravessou o tempo entre vitórias, reviravoltas e momentos desafiadores, mas sempre apoiado na identidade guerreira que virou sinônimo de resistência por aqui.
Fundado em 1º de maio de 1966 por um grupo ligado à igreja e à vida comunitária de Jaraguá do Sul, o clube cresceu junto com a cidade. Viu gerações passarem pela Arena Topsun – antigo Estádio João Marcatto -, enfrentou momentos de euforia e também períodos em que simplesmente seguir existindo já era uma vitória.
E para marcar esta data do sexagenário do “Moleque Travesso”, resgatamos algumas das grandes batalhas que moldaram o time lá no início da sua caminhada – e outras mais recentes -, algumas dentro de campo, outras longe dele, mas todas decisivas para que o Juventus continuasse vivíssimo sendo o clube que Jaraguá tanto ama.

1. As lutas de um clube que surgiu da comunidade
O Juventus nasceu na década de 1960, a partir de uma iniciativa coletiva que marcou o início da sua ligação com a cidade. A fundação do clube reuniu 27 pessoas, lideradas pelo Padre Elemar Scheid, em um momento em que Jaraguá do Sul ainda estruturava sua identidade social e esportiva.

Naquele contexto, o futebol local refletia divisões presentes na própria sociedade. De um lado, clubes ligados a grupos mais estabelecidos; de outro, o Juventus surgia com forte apoio de trabalhadores e da comunidade católica, ocupando um espaço que até então não tinha representação direta dentro do esporte.
Esse vínculo com a base comunitária foi determinante nos primeiros anos. Sem grandes recursos financeiros ou estrutura consolidada, o clube dependia da mobilização local para existir. Paróquias, famílias e pequenos apoiadores formavam a sustentação do projeto, tanto dentro quanto fora de campo.
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2. A briga por espaço no futebol profissional em 1976
A entrada no Campeonato Catarinense, em 1976, trouxe um desafio imediato fora das quatro linhas: adequar a Arena Top Sun – antigamente Estádio João Marcatto – às exigências da competição.
O prazo era curto, e o clube precisou realizar uma série de intervenções estruturais em poucas semanas. Foram feitas melhorias como instalação de iluminação, adequação de vestiários e ajustes no espaço para receber público e delegações, em um esforço concentrado da diretoria.
Sem orçamento amplo, a solução passou novamente pela mobilização local; rifas, eventos, ajuda de empresários e muito trabalho direto da comunidade. Dirigentes, apoiadores e trabalhadores da cidade participaram diretamente das obras, muitas vezes conciliando as atividades com suas rotinas profissionais. Em menos de um mês, o estádio estava pronto.
A conclusão das melhorias dentro do prazo garantiu não apenas a participação do Juventus no campeonato, mas também marcou um dos primeiros grandes testes de organização do clube.
>> Leia também: O segredo italiano por trás do manto: como um padre trouxe da Europa a “alma” do Juventus Jaraguá
3. Jogadores entre o trabalho e o futebol
A realidade do elenco do Juventus antes da virada do século era bem diferente dos padrões atuais do futebol profissional. Grande parte dos jogadores conciliava a rotina de treinos e jogos com outras atividades profissionais.
Com recursos limitados, o clube não tinha condições de manter um grupo totalmente dedicado ao futebol. Havia atletas que trabalhavam durante o dia em fábricas, comércios ou negócios próprios, e treinavam à noite, muitas vezes em condições climáticas adversas e com desgaste acumulado.

Essa rotina exigia um nível de comprometimento elevado. Além dos treinos, o grupo ainda enfrentava viagens longas para disputar partidas em outras regiões do estado, frequentemente em condições logísticas mais simples do que as encontradas hoje.
Era com essa demonstração de luta e farra que público se via representado em campo por jogadores que compartilhavam a mesma realidade do dia a dia, o que fortalecia o vínculo com o clube e dava um significado maior a cada partida disputada.
4. A vitória em Lages e a superação com elenco reduzido
Ainda em 1976, a partida contra o Internacional de Lages, fora de casa, é lembrada como uma das maiores demonstrações de superação do Juventus naquele período inicial. Com um grupo reduzido e enfrentando limitações no banco de reservas, o time precisou se reorganizar durante o jogo para suportar a pressão do adversário, que atuava diante da sua torcida.
Há registros de que membros da comissão técnica chegaram a ser utilizados em situações emergenciais.
Mesmo com essas dificuldades, o Juventus conseguiu segurar o adversário e marcar o gol que garantiu a vitória por 1 a 0. O resultado teve grande repercussão e reforçou a imagem de um time competitivo, capaz de enfrentar equipes mais estruturadas fora de casa.
5. O dia em que o Juventus calou o Joinville fora de casa
O confronto contra o Joinville Esporte Clube, ainda na década de 1970, marcou um dos momentos mais emblemáticos da trajetória inicial do Juventus no futebol catarinense.
Na época, o JEC era considerado uma das equipes mais estruturadas do estado e entrava como favorito na partida disputada em seus domínios. A expectativa local era de superioridade do time da casa, diante de um Juventus que ainda dava seus primeiros passos no cenário estadual.

Dentro de campo, o roteiro foi diferente. Com organização tática e forte disciplina defensiva, o Juventus conseguiu equilibrar o jogo e explorar as oportunidades. O gol da vitória veio no segundo tempo, em finalização de Nelo, garantindo o triunfo por 1 a 0.
Na volta para Jaraguá do Sul, a recepção foi marcada por mobilização de torcedores e clima de comemoração.
6. O retorno ao cenário nacional após mais de 25 anos
O Juventus voltou a disputar uma competição nacional em 2021, encerrando um intervalo de mais de 25 anos sem presença em torneios organizados pela Confederação Brasileira de Futebol.

A última participação antes disso havia sido em 1995, quando o clube disputou o Campeonato Brasileiro da Série C. Na ocasião, o Juventus teve desempenho competitivo, avançando de fase e chegando até as oitavas de final da competição.
O longo período fora do cenário nacional reflete as dificuldades enfrentadas pelo clube ao longo das décadas seguintes, com oscilações esportivas e limitações financeiras que impactaram diretamente a continuidade em competições de maior alcance.
O retorno em 2021, com a disputa da Série D, representou um sinal de retomada esportiva e de reorganização, recolocando o Juventus novamente no mapa do futebol brasileiro após mais de duas décadas.
A recuperação judicial como novo capítulo da história do Juventus
O processo de recuperação judicial do Grêmio Esportivo Juventus marca uma nova fase na trajetória do clube fora das quatro linhas, com impacto direto também no momento esportivo.
Com o plano aprovado pela Justiça, o Juventus passa a ter um caminho definido para reorganizar suas finanças, estruturando o pagamento de dívidas e garantindo a continuidade das suas atividades. A aprovação ocorreu no início deste ano, sem necessidade de assembleia de credores, já que não houve contestações relevantes ao plano apresentado.
Desta forma, o clube entra em uma fase de maior previsibilidade, o que já começa a refletir no dia a dia. Para a temporada 2026, o Juventus iniciou a disputa da Série B do Campeonato Catarinense com um elenco reformulado, marcado pela chegada de reforços e pela intensificação da preparação, em um movimento claro de fortalecimento esportivo.

Entre as novidades, o clube anunciou contratações para diferentes setores e também o retorno de atletas com identificação local, buscando dar mais consistência ao grupo dentro de campo.
Outro passo recente foi a venda dos naming rights do estádio, que passou a se chamar Arena TopSun. O acordo representa uma nova fonte de receita e reforça a tentativa de estruturar o clube com base em parcerias e projetos de longo prazo.
“A recuperação judicial é um marco histórico para o Juventus. Ela permite que o clube reorganize sua situação financeira, pague seus credores e preserve seu patrimônio”, afirmou o presidente Paulo Ricardo Raimondi Marcelino.
Mais do que resolver dívidas, o momento atual indica uma tentativa de reorganização mais ampla, que envolve gestão, estrutura e desempenho esportivo, e pode definir os próximos passos do clube dentro e fora de campo.

O futuro de um clube guerreiro, que busca se reconectar com a cidade
Se existe um padrão na história do Juventus, ele passa pela capacidade de recomeçar. Mas, aos 60 anos, o desafio vai além disso. A atual diretoria entende que o principal ponto a ser resgatado é o vínculo com a cidade.
“O Juventus é o clube de Jaraguá do Sul, é parte da história da cidade e um motivo de orgulho. O principal valor que precisamos resgatar é o amor da cidade pelo clube e a confiança do jaraguaense na instituição”, destaca o presidente Paulo Ricardo.
Esse distanciamento aparece principalmente na relação com as novas gerações. Hoje, grande parte da torcida ainda é formada por quem viveu os momentos mais marcantes do clube, especialmente nas décadas passadas. O desafio, agora, é fazer com que o Juventus volte a ser referência para o público mais jovem.

Entre as estratégias adotadas estão o investimento nas categorias de base, a criação de projetos com aulas gratuitas e parcerias com escolinhas de futebol, numa tentativa de reconstruir esse vínculo desde cedo.
Ao mesmo tempo, o clube trabalha em um novo modelo de gestão, mais estruturado e com foco em sustentabilidade financeira. A possibilidade de entrada de investidores e a criação de uma SAF fazem parte desse processo, já aprovado internamente e em análise pela diretoria.
A perspectiva, segundo o clube, é de reconstrução gradual. E a meta é voltar a ser competitivo dentro de campo, mas com uma base mais sólida fora dele, evitando os ciclos de instabilidade que marcaram parte da sua trajetória.
“O futebol hoje é um esporte caro, e o investimento é essencial. Mas temos diferenciais importantes: um estádio próprio, com capacidade relevante, uma torcida apaixonada e uma cidade com grande potencial econômico. A junção desses fatores é o que pode permitir a reconstrução do clube.”
Aos 60 anos, o Juventus olha para frente com um objetivo definido: deixar de apenas resistir e voltar a se consolidar como um clube forte, conectado com a cidade e presente no dia a dia de Jaraguá do Sul.
“O Juventus é o clube de Jaraguá do Sul, é parte da história da cidade e um motivo de orgulho para todos nós. O torcedor pode esperar trabalho sério, transparência e um clube que não vai desistir de voltar a ser protagonista no futebol catarinense”, conclui o presidente.
Como isso impacta sua vida?
O Juventus segue presente no dia a dia de Jaraguá do Sul, seja nos jogos, no estádio ou nos projetos ligados ao esporte. Com o clube passando por um processo de reorganização, cresce a expectativa de mais estabilidade e de continuidade dessa história junto com a cidade.
>> Agradecimento especial ao jornalista e pesquisador Henrique Sudatti Porto, que cedeu fotos e informações a partir de pesquisas que realizou para o livro “A Primeira Vez do Moleque”.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.