Desde 1936: a história da família de Guaramirim que completou 90 anos no comércio da região
De uma oficina de chuteiras à consolidação no comércio local ao longo de três gerações.
Foto: Divulgação/Arquivo Maluta
Na metade da década de 1930, uma família de Guaramirim começava a construir uma história de empreendedorismo que atravessaria diferentes períodos, gerações e transformações no mundo.
De uma pequena fábrica de chuteiras a uma das lojas mais emblemáticas do Vale do Itapocu, a Maluta Calçados enfrentou desafios e se adaptou a novos cenários, mas toda essa trajetória foi sustentada por gerações da mesma família, que neste 2026 comemora com alegria 90 anos de atividade.
Nesta matéria especial, o JDV com apoio da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) Jaraguá do Sul mergulha nessa história para contar como tudo começou. E o início está na pequena oficina de João Maluta Jr., que resolveu produzir chuteiras para o filho Edgard jogar futebol, mas também ajudar a comunidade com calçados personalizados para pessoas com deficiência.
Das mãos do fundador ao início do negócio
O trabalho de João Maluta Jr. era completamente artesanal, feito peça por peça, com chuteiras destinadas a times da região e calçados especiais produzidos sob medida, conforme a necessidade de cada cliente.
A produção acontecia nos fundos do próprio endereço onde a empresa funciona até hoje, em um espaço simples que reunia ferramentas, couro e pedidos que variavam conforme a demanda. Não havia padronização. Cada produto tinha um processo próprio, definido a partir de quem iria utilizá-lo.

Com o crescimento do negócio, João buscou ampliar a capacidade de produção. Com esforço, conseguiu adquirir máquinas vindas da Alemanha, que passaram a integrar o trabalho da oficina e marcaram um avanço na estrutura da empresa, sem deixar de lado o caráter artesanal da produção.
Conteúdos em alta
A atuação não ficava restrita a Guaramirim e região. As chuteiras seguiam para outras cidades de Santa Catarina, enquanto o couro vinha de fornecedores locais, como o Curtume Schmitz, em Jaraguá do Sul. Parte dos produtos também era adquirida do Rio Grande do Sul, por meio de representantes que visitavam a cidade poucas vezes ao ano.
Durante esses anos, a Maluta se consolidava como referência. Por muito tempo, foi a única fábrica e loja do segmento em Guaramirim, atendendo também moradores de Jaraguá do Sul e região.
1969: o momento de ruptura e reformulação
A trajetória teve uma mudança decisiva em 13 de agosto de 1969. Dentro da própria oficina, o fundador passou mal e acabou falecendo após ser levado ao hospital de Guaramirim.
A continuidade do negócio passou a depender da família. A esposa Erna Maluta assumiu a condução da loja em um período de incerteza, mantendo as atividades em funcionamento e reorganizando a rotina. A oficina foi repassada ao funcionário de João na época, mas o comércio permaneceu ativo, com ela à frente do atendimento e da gestão do dia a dia.

Mesmo diante das dificuldades, Erna manteve a loja funcionando, abrindo inclusive aos sábados até o período da tarde, garantindo a continuidade do negócio. Foi nesse contexto que a empresa passou a consolidar o varejo como base principal do negócio.
A loja também trabalhava com uma variedade de produtos, como chinelos, bolsas, cintos, bolas, cadarços e itens de cuidado com calçados, ampliando o atendimento à comunidade.
A consolidação da marca com a segunda geração
Na década de 1970, a empresa entrou em uma nova fase com a condução de Edgard Maluta, ao lado da esposa Olinda e da irmã Eliane, que assumiram a loja após esse período de transição.
Após alguns anos, o negócio passou a ser conduzido pelo casal, que deu continuidade à empresa junto com os filhos, com presença mais direta do filho mais velho, Cláudio.

Com o passar dos anos, a estrutura foi ampliada, o mix de produtos cresceu e a loja passou a atender de forma ainda mais completa às necessidades das famílias.
Esse processo resultou na expansão gradual da empresa, que chegou a operar cinco lojas em Guaramirim e Jaraguá do Sul e, atualmente, mantém três unidades, preservando sua presença na região.
Com o crescimento e a consolidação do negócio, a empresa também passou a ampliar sua atuação junto a entidades locais. Dos 90 anos de história, 26 anos são marcados pela atuação da Maluta na Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Jaraguá do Sul, reforçando sua ligação com o desenvolvimento do comércio local.
A marca atravessou diferentes cenários econômicos do país, com mudanças de moeda, inflação e períodos de instabilidade, e manteve sua atividade ao longo do tempo. Segundo a família, a base sempre foi a mesma: trabalhar com preço justo, qualidade e proximidade com o cliente.
A terceira geração e os novos desafios
A entrada de Marcio Maluta na gestão ocorreu em 1994, marcando o início de um novo ciclo. A empresa passou por novas modernizações, incluindo a informatização dos processos, substituindo os controles em papel por sistemas. Ao mesmo tempo, precisou se adaptar a um cenário de mercado cada vez mais dinâmico.

Nos últimos anos, os desafios passaram a envolver também o comportamento do consumidor e a concorrência com grandes redes e o comércio online.
Mesmo assim, a empresa mantém o foco no atendimento presencial como diferencial, valorizando a relação direta com o cliente, segundo o diretor da empresa, Marcio Maluta.
“Hoje, mais do que vender, a gente procura atender. O cliente entra na loja, conversa, se sente à vontade, muitas vezes volta não pelo simples ato de comprar, mas pela relação de confiança que cria aqui dentro. Isso sempre fez parte do nosso jeito de trabalhar. Tendo produtos de qualidade e atendimento diferenciado, com essa atenção, acaba fazendo diferença.”
Outro ponto que chama atenção ao longo dessa trajetória é a permanência de colaboradores por longos períodos. Há profissionais que seguem na empresa há anos – em alguns casos, por décadas – acompanhando diferentes fases do negócio.
Esse tempo de casa se reflete no atendimento, com clientes que retornam e encontram rostos conhecidos, reforçando uma relação construída ao longo do tempo.
Uma história ligada à cidade
A trajetória da Maluta também acompanha o desenvolvimento de Guaramirim. A atuação de João e Edgard Maluta na comunidade, além das esposas Erna e Olinda, com participação ativa em entidades e iniciativas locais, reforçou essa ligação entre a empresa e a cidade ao longo do tempo.
Dentro da loja, a presença da família sempre foi constante, tanto no atendimento quanto na gestão, consolidando uma identidade que atravessa gerações.
“Ao longo dessas décadas, a empresa atravessou diferentes períodos econômicos do país, passando por mudanças de moeda, planos de governo e momentos de instabilidade, mas sempre conseguimos dar a volta por cima, mantendo a atividade. É uma história que nos orgulha muito”, completou Marcio.
Hoje, a condução do negócio segue com o desafio de equilibrar tradição e adaptação. Para a empresa, o atendimento próximo continua sendo um diferencial, valorizando a relação direta com o cliente.
Não à toa, a Maluta chega aos 90 anos mantendo sua trajetória ligada à cidade e à comunidade.
Como isso impacta sua vida?
A história da Maluta mostra como um negócio local pode atravessar o tempo mantendo sua atividade e relação com a comunidade. Em meio a tantas mudanças, empresas que permanecem ajudam a preservar vínculos, histórias e referências que fazem parte do cotidiano de quem vive na região.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.