Cotidiano | 28/08/2026 | Atualizado em: 31/08/26 ás 16:57

Aos 95 anos, benzedeira guarda memórias de uma Guaramirim que quase não existe mais

Odette Borba viveu a transformação do interior do município, aprendeu a tradição de benzer com a avó, ajudou a construir a história da comunidade e mantém viva uma memória que atravessou gerações

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Aos 95 anos, benzedeira guarda memórias de uma Guaramirim que quase não existe mais

No bingo: Odette Borba ativa aos 95 anos. | Fotos: arquivo familiar

Antes das estradas asfaltadas, das máquinas substituírem parte do trabalho no campo e da transformação das pequenas comunidades do interior, Odette da Silva Borba conheceu uma Guaramirim em que a vida acontecia em ritmo diferente da atual.

Era a década de 1940, quando localidades como Putanga, Rio Branco e Guamiranga ainda preservavam uma rotina marcada pela agricultura e pela convivência entre famílias que ajudaram a formar o município.

Aos 95 anos, enquanto Guaramirim completa 77 anos de emancipação política neste 28 de agosto, Odette guarda as lembranças de um tempo em que a terra era preparada com as próprias mãos, os alimentos vinham da própria roça e as comunidades do interior mantinham uma rotina construída pela fé, pelo trabalho e pela convivência.

Mais do que testemunha dessas mudanças, Odette ajudou a construir parte dessa história.

Odette e suas irmãs Oridis da Costa e Carmem da Costa, primeira comunhão. | Foto: Arquivo da família

Uma vida entre a roça e as mudanças de Guaramirim

Filha de Braz Albino da Costa e Maria Amélia da Silva Canarini, Odette nasceu em Joinville, passou um período em Curitiba e retornou à região antes de chegar ao Putanga aos 13 anos.

Quando chegou à localidade, encontrou uma realidade muito diferente da atual. As estradas eram pequenas vias de chão batido, e a ligação entre Putanga e Massaranduba dependia de uma ponte de madeira.

Foi nesse cenário que construiu sua trajetória como lavradora e dona de casa. A rotina no campo envolvia um trabalho pesado, que começava pela preparação da terra: roçar, derrubar a vegetação, queimar e limpar o terreno antes do plantio.

Na lavoura, a família cultivava alimentos que garantiam a subsistência, como milho, arroz, feijão, batata, taiá, cará. Também fazia parte da rotina o corte manual do arroz e a retirada de palmito no mato.

Era uma época em que praticamente tudo dependia do esforço da família. O engenho de farinha, por exemplo, funcionava de forma manual, sem máquinas ou tração animal, com o trabalho realizado pelos próprios moradores.

Núcleo Colonial Barão do Rio Branco em Guaramirim na década de 1950
Registro de Guaramirim na década de 1950, período em que comunidades rurais ainda tinham forte presença na rotina do município. Na imagem Farmácia e Correios no Núcleo Colonial Barão do Rio Branco. | Foto: Arquivo Histórico de Guaramirim

A tradição do benzimento passada entre gerações

Benzedeira e catequista por mais de 30 anos, Odette participou da trajetória da comunidade Nossa Senhora do Rosário, no Putanga, onde ajudou a preservar tradições religiosas e culturais passadas entre gerações.

A prática do benzimento veio de família. Ela aprendeu com a avó, Dona Benta Catarina do Rosário, parteira e benzedeira, filha de escravizados, que marcou a comunidade e cuja história está ligada à memória da população negra da região.

Foto: Arquivo pessoal

Para Odette, o dom de benzer representa uma missão recebida pela fé.

“É um dom que Deus dá”, resume a tradição que ela mantém até hoje.

Além da benzedura, sua dedicação à comunidade marcou diferentes momentos da vida religiosa local. Durante seis anos, atuou como coordenadora da igreja e participou da construção da nova igreja de alvenaria da comunidade, que substituiu a antiga estrutura de madeira.

Mas foi na catequese que encontrou uma das maiores realizações. Foram mais de três décadas ensinando crianças e jovens.

A ligação com essa história também foi reconhecida pela comunidade. Em 2007, Odette recebeu uma homenagem da Câmara de Vereadores de Guaramirim pelo Dia da Consciência Negra.

Em 2025, voltou a ser homenageada pela Prefeitura de Guaramirim pela mesma data, pelo legado ligado à cultura e à memória da comunidade negra.

Homenagem na Câmara de Guaramirim. Foto: Arquivo pessoal

Uma grande família construída ao longo de 59 anos

Ao lado de Abílio Belarmino de Borba, com quem foi casada por 59 anos, Odette construiu uma grande família. O casal teve 10 filhos, sendo nove deles vivos atualmente, além de 15 netos e 15 bisnetos.

Hoje, ela mora com um dos filhos e mantém a proximidade com os demais, que vivem nas redondezas ou fazem questão de visitá-la com frequência.

Mesmo aos 95 anos, segue com uma rotina ativa. Continua participando da igreja, realizando leituras durante as celebrações, mantém o hábito da leitura e reserva momentos da semana para jogar bingo.

Com o marido, Abílio Belarmino de Borba (falecido). | Foto: Arquivo pessoal

O que Odette aprendeu sobre viver bem

Quando fala sobre a própria trajetória, Odette aponta que a longevidade está ligada a escolhas simples que fizeram parte de toda a sua vida.

A alimentação natural da roça esteve presente durante décadas: arroz, feijão, taiá, batata-doce, peixe, carnes, galinha e ovos produzidos pela própria família.

Mas, além da comida, ela destaca valores que acompanharam sua caminhada: a fé, a gratidão e a importância de não carregar mágoas.

Aos 95 anos, Odette não guarda apenas lembranças pessoais. Ela preserva pedaços de uma Guaramirim que mudou com o passar do tempo, de uma forma de viver que ficou distante para muitas pessoas e de uma tradição que continua atravessando gerações.

Ela é uma ponte viva entre o passado e o presente, uma das poucas pessoas capazes de contar, em primeira pessoa, como era a vida quando a cidade ainda era construída principalmente pelas mãos de quem nela vivia.

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Marcio Martins

Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público.

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