Colunas

Conto: A viagem de Natal

Natal – Alberto sabia que viajar de ônibus no dia 23 de dezembro seria bem corrido, mas fazer o que? A grana estava curta, as despesas fixas do mês já comprometiam grande parte do salário e ainda por cima tinha de levar alguns presentinhos para a família, que mora tão…

10/12/2023

Por

Sônia Pillon é jornalista e escritora, formada em Jornalismo pela PUC-RS e pós-graduada em Produção de Texto e Gramática pela Univille. Integra a AJEB Santa Catarina. Fundadora da ALBSC Jaraguá do Sul.

Natal – Alberto sabia que viajar de ônibus no dia 23 de dezembro seria bem corrido, mas fazer o que? A grana estava curta, as despesas fixas do mês já comprometiam grande parte do salário e ainda por cima tinha de levar alguns presentinhos para a família, que mora tão longe. Com o aumento das passagens de avião, ele desistiu da ideia e decidiu encarar mais horas de viagem até chegar à cidadezinha onde nasceu e cresceu.

 

Por sorte, ainda conseguiu comprar as passagens de ida e volta, só que… na poltrona 44, bem ao lado do banheiro! Soltou um longo suspiro após garantir a compra pelo site oficial da empresa de ônibus e procurou se conformar.

 

– Três anos sem ver a família é um bom tempo!, pensou.

natal

A viagem de Natal, por Sônia Pillon

O jovem lembra quando chegou na cidade já contratado para trabalhar no chão de fábrica de uma indústria têxtil, da expressão triste e dos abraços apertados que recebeu da mãe Dinalva e do pai Adalberto. Ele não esquece dos olhos marejados da mãe, naquele momento. Era o filho caçula, o “queridinho da mamãe”, como diziam os três irmãos mais velhos, que por vezes não conseguiam esconder uma pontinha de ciúme.

 

E enfim chegou o dia da viagem. Alberto desceu rapidamente do carro de aplicativo com as duas malas e a mochila nas costas. Como ele previa, a rodoviária estava lotada e o chega-e-parte de ônibus nas plataformas é constante, nesta época de Natal.

 

E em meio à muvuca geral de pessoas apressadas com a passagem nas mãos, mães segurando as crianças pela mão e passageiros retardatários correndo para não perder o horário da partida, há também os mais prevenidos (e sortudos!), que assistem a aquela agitação toda tranquilamente sentados e com olhares sem expressão.

A viagem de Natal, por Sônia Pillon

Certamente, parte daquelas pessoas já haviam passado por sufocos semelhantes e prometeram a si mesmas chegarem mais cedo no terminal rodoviário… Não era o caso de Alberto, que permaneceu de pé, escorado em uma das colunas do prédio, com um olho nas malas e o outro na vinda nos veículos de transporte de passageiros.

 

– Não dá pra marcar bobeira! Se a gente não cuida, fica sem a mala, a carteira e o celular, falou em voz baixa, sem que ninguém ouvisse.

 

O alto-falante anunciou que o carro das 8h30, com destino a Campos Verdejantes acabara de estacionar. Chegou a hora! Sabendo que o odor que exalaria do banheiro ficaria insuportável ao longo do trajeto, estava munido de máscaras remanescentes da pandemia. Não iria resolver, mas amenizaria o problema…

 

Estava nervoso, mas ao mesmo tempo a expectativa do reencontro familiar se tornou mais intensa quando o motorista ligou o motor e partiu da rodoviária. Enquanto o ônibus se afastava de Jaraguá do Sul e seguia a rota, Alberto acompanhava pela janela as mudanças da paisagem.

 

Na primeira parada, com o embarque de mais passageiros, constatou que um jovem embarcou com uma única mala de mão e se lembrou da semelhança de quando desembarcou em Jaraguá do Sul, dos esforços para se adaptar, da pensão onde foi morar e dos sacrifícios que fez para frequentar o curso noturno de tecnólogo.

 

O sol forte e a lentidão no fluxo de veículos eram previsíveis, nem por isso deixavam de incomodar.

 

– Que sufoco! Desse jeito vai atrasar muito!, soltou, em voz alta, e os demais concordaram.

 

Foram 11 horas de tensão e cansaço até o destino. Ao descer do ônibus, a alegria superou a exaustão. Lá estavam os pais e os três irmãos, que o receberam calorosamente.

 

Na noite de Natal, a mesa estava lotada e farta, com todas as delícias natalinas que, para ele, só mãe Dinalva sabia fazer. Que saudade ele estava da comidinha caseira, do aroma da terra, de respirar o ar puro do sítio. Ao percorrer os olhos pela mesa, Alberto se emocionou. Para ele, aquele era o melhor Natal dos últimos anos e queria aproveitar cada minuto junto às pessoas que amava.

 

 

Leia também: >>>> Coluna: Um dia de Papai Noel

Feliz Natal!

Quer saber das notícias de Jaraguá do Sul e Região primeiro? Participe do nosso grupo de WhatsApp ou Telegram!

Siga nosso canal no youtube também @JDVonline

 

Notícias relacionadas

x