Tanto faz | 02/07/2026 | Atualizado em: 08/07/26 ás 16:24

Na época do centenário: como era viver em Jaraguá do Sul em 1976

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Na época do centenário: como era viver em Jaraguá do Sul em 1976

Público acompanha o desfile cívico realizado durante as comemorações dos 100 anos de Jaraguá do Sul em 1976 | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Em 1976, Jaraguá do Sul se preparava para celebrar 100 anos de fundação enquanto vivia uma das fases mais transformadoras da sua história. Com cerca de 40 mil habitantes, mais de 5 mil veículos registrados e uma economia impulsionada pela indústria, a cidade crescia em ritmo acelerado e passava a ocupar posição de destaque em Santa Catarina.

O sentimento era de otimismo. Naquele ano, um levantamento repercutido pela imprensa local o apontava como o município mais desenvolvido do estado e um dos mais desenvolvidos do Brasil. Ao mesmo tempo, a realidade ainda revelava contrastes: ruas sem pavimentação, telefonia limitada e segurança pública com pouco efetivo para atender toda a população.

Quase 50 anos depois, registros de jornais, fotografias e relatos da época ajudam a reconstruir como era o cotidiano dos jaraguaenses naquele ano.

>> Esta reportagem integra uma série especial do JDV que resgata histórias, personagens e curiosidades de Jaraguá do Sul, em homenagem aos 150 anos de fundação da cidade.

Uma cidade em clima de centenário

A comemoração dos 100 anos dominou boa parte da agenda pública de Jaraguá do Sul em 1976. Comissões foram criadas para organizar os festejos, empresas participaram da programação e diferentes entidades se envolveram nas celebrações.

Os preparativos começaram meses antes da data oficial do aniversário, 25 de julho. Painéis foram instalados nas principais entradas da cidade, teve a distribuição aérea de panfletos e campanhas de divulgação mobilizaram comerciantes e moradores, para tornar o centenário marcante.

Estruturas da Expo 100 em 1976 em Jaraguá do Sul com pavilhões infláveis e público
Imagem aérea da Expo 100, realizada em comemoração ao centenário de Jaraguá do Sul em 1976. | Foto: Divulgação/Prefeitura de Jaraguá do Sul

As festividades culminaram no mês de julho, quando milhares de pessoas acompanharam desfiles, eventos culturais, concursos e a EXPO 100. A feira reuniu agricultura, comércio e indústria, tornando-se um dos símbolos mais lembrados daquele ano.

Grandes estruturas infláveis montadas para abrigar a EXPO 100 chamavam atenção dos visitantes e ajudaram a transformar a feira em uma das imagens mais marcantes do centenário. Empresas locais aproveitaram a programação para apresentar produtos, tecnologias e investimentos em uma cidade que buscava projetar sua imagem para além do Vale do Itapocu.

Ursula Mueller em frente a um dos balões infláveis da EXPO 100 durante as comemorações do centenário de Jaraguá do Sul em 1976
Eleita Miss Jaraguá do Sul durante as comemorações do centenário, Ursula Mueller posa em frente a um dos balões infláveis que abrigaram a EXPO 100 em 1976. | Foto: Acervo pessoal

Quase cinco décadas depois, a empresária Úrsula Mueller, que tinha 16 anos na época, ainda guarda lembranças vivas daquele período.

“O que eu mais me lembro é do entusiasmo da população como um todo, da união para fazer a melhor das festas e do futurismo das comemorações. O desfile cívico foi maravilhoso, as instalações da feira marcaram a época de todo jaraguaense”, recorda

Úrsula Mueller participa de desfile das comemorações dos 100 anos de Jaraguá do Sul em 1976.
Úrsula Mueller participa do desfile cívico realizado durante as comemorações do centenário de Jaraguá do Sul, em 1976 | Foto: Acervo pessoal/Úrsula Mueller

A adolescente que virou símbolo do centenário

Representando a Sociedade Juventus, Úrsula foi eleita Miss Jaraguá do Sul durante as comemorações dos 100 anos da cidade. Ela participou da programação oficial dos festejos e chegou a recepcionar autoridades durante a EXPO 100, entre elas o então governador Antonio Carlos Konder Reis e o prefeito Eugênio Strebe.

Úrsula Mueller usando a faixa de Miss Jaraguá do Sul durante as comemorações do centenário em 1976.
Aos 16 anos, Úrsula Mueller conquistou o título de Miss Jaraguá do Sul | Foto: Acervo pessoal/Úrsula Mueller

A participação no concurso surgiu de forma inesperada. Frequentadora dos tradicionais bailes de domingo realizados pela Sociedade Juventus, ela recebeu o convite após uma conversa entre dirigentes do clube e seu pai.

“Meu pai me consultou, e nós dois, envaidecidos e honrados, aceitamos o convite”, relembra.

A eleição também rendeu histórias que ela nunca esqueceu. Uma delas aconteceu momentos antes da divulgação do resultado, quando a amiga e concorrente Jussara Ersching segurou sua mão e disse: “Vamos continuar amigas, independente do resultado, né?”. A amizade permaneceu, e esta lembrança ganhou ainda mais significado após a morte precoce da colega anos depois.

Candidatas ao concurso Miss Jaraguá do Sul 1976 durante as comemorações do centenário da cidade.
Candidatas ao título de Miss Jaraguá do Sul participaram da programação oficial dos 100 anos | Foto: Acervo pessoal/Úrsula Mueller

Nem todos, porém, aprovaram o resultado. Úrsula lembra de telefonemas anônimos e até de uma jovem que passou por ela na rua e mostrou a língua em sinal de desaprovação. Hoje ela trata os episódios com humor.

Outra recordação marcante aconteceu durante o desfile cívico. Usando um sapato novo de camurça bordô com salto anabela, ela passou todo o trajeto em pé sobre um jipe do Corpo de Bombeiros tentando não cair na estrutura metálica escorregadia do veículo.

“Passei a Marechal todinha escorregando sobre o estrado metálico do piso da parte de trás do veículo”, conta.

A vida social jaraguaense na década de 1970

Em uma época sem internet, redes sociais ou aplicativos de mensagens, boa parte da vida social dos moradores acontecia nos clubes, associações e eventos comunitários espalhados pela cidade. Bailes, domingueiras, concursos de beleza, apresentações culturais, jogos de futebol e festas locais reuniam jovens e famílias ao longo do ano.

A Sociedade Juventus, frequentada por Ursula Mueller, era um dos principais espaços de econtro, quando se tratava de eventos dançantes. Outro espaço tradicional era o Clube Atlético Baependi, que há décadas fazia parte da vida social jaraguaense – fundado em 1906. Bailes e eventos esportivos ajudavam a movimentar o local.

Mas a vida cultural também era bastante movimentada por aqui. Fundada em 1956, a Sociedade Cultura Artística (SCAR) já desempenhava papel importante. Na época, a entidade ainda não contava com o atual Centro Cultural, inaugurado apenas em 2003, mas promovia concursos, atividades artísticas e iniciativas ligadas à preservação da memória local.

Primeira Orquestra da SCAR durante apresentação em Jaraguá do Sul nas primeiras décadas de atuação da entidade cultural
Integrantes da primeira formação da Orquestra da SCAR posam para fotografia em Jaraguá do Sul. Fundada em 1956, a entidade ajudou a impulsionar a vida cultural da cidade. | Foto: Arquivo SCAR

O futebol também ocupava espaço na rotina dos moradores. No centenário, o Grêmio Esportivo Juventus vivia um dos momentos mais marcantes de sua história ao disputar pela primeira vez a elite do Campeonato Catarinense. Fundado apenas dez anos antes pelo padre Elemar Scheid e por lideranças da comunidade, o clube mobilizou a cidade para adequar a Arena TopSun WEG (antigo Estádio João Marcatto) às exigências da competição e representar Jaraguá do Sul em um dos principais torneios do estado.

A estreia aconteceu diante do Avaí, então campeão catarinense. Em campo, o elenco era formado por jogadores que conciliavam o futebol com outras profissões. Havia atletas que trabalhavam em fábricas, no comércio e até como taxistas. Os jogos movimentavam a comunidade e levavam dezenas de torcedores ao estádio.

>> Leia também: 60 anos de Juventus: 6 batalhas que marcaram a história do clube dentro e fora de campo

Partida do Juventus nos anos 1970 com jogadores em disputa de bola e torcida ao fundo no estádio João Marcatto
Jogadores do Juventus em partida nos anos 1970 no estádio João Marcatto, em Jaraguá do Sul | Foto: Arquivo/Juventus Jaraguá

A força industrial já moldava a cidade

Na época a cidade já demonstrava sinais claros de crescimento industrial. Empresas locais ampliavam operações e ajudavam a fortalecer a arrecadação do município.

Em março de 1976, um levantamento da revista paulista Dirigente Municipal (Grupo Visão), com base em dados do IBGE e do Ministério da Fazenda, colocou Jaraguá do Sul como a cidade mais desenvolvida de Santa Catarina e o 40º mais desenvolvido do Brasil, à frente de centros maiores como Joinville, Brusque e Blumenau.

A WEG, fundada em 1961 por Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus, já se consolidava como um dos símbolos desse crescimento econômico. Quinze anos após sua criação, a empresa ampliava operações e ajudava a projetar o nome do município para outros estados e mercados internacionais.

Werner Voigt e Geraldo Werninghaus acompanham a produção de motores elétricos na WEG em Jaraguá do Sul na década de 1970.
Werner Voigt e Geraldo Werninghaus com o motor 1 milhão da empresa | Foto: Divulgação/WEG

O crescimento da companhia refletia uma transformação que também podia ser observada em outras indústrias locais e consolidava Jaraguá do Sul como um dos principais polos econômicos catarinenses.

O ensino superior começava a nascer

Enquanto a indústria crescia, Jaraguá também dava um passo importante na educação. Em janeiro de 1976, a Fundação Educacional Regional Jaraguaense (FERJ), criada três anos antes por iniciativa do padre Elemar Scheid e outras lideranças locais, realizou o primeiro vestibular da história do município.

O curso inaugural foi o de Estudos Sociais, voltado à formação de professores. Ao todo, 86 estudantes foram aprovados no primeiro processo seletivo, marcando o início do ensino superior por aqui. As aulas aconteciam no período noturno, uma necessidade para muitos alunos que conciliavam os estudos com o trabalho durante o dia.

A criação da FERJ representou uma mudança importante para a região. Até então, quem desejava cursar uma faculdade precisava se deslocar para outras cidades. O projeto deu origem à instituição que décadas mais tarde se transformaria na atual Católica de Santa Catarina, hoje uma das principais instituições de ensino superior do Norte catarinense.

Primeira turma de formandos da Fundação Educacional Regional Jaraguaense durante cerimônia realizada em Jaraguá do Sul.
Primeira turma de formandos da Fundação Educacional Regional Jaraguaense | Foto: Divulgação/Católica

Desenvolvimento e problemas caminhavam juntos

Apesar do momento de prosperidade, a infraestrutura ainda estava longe de acompanhar o ritmo do crescimento econômico. Ruas sem pavimentação, poucos policiais, dificuldades de mobilidade e telefonia limitada apareciam com frequência nas discussões da época.

Ter uma linha telefônica ainda era privilégio para poucos moradores naquela época, então a ampliação das centrais telefônicas era tratada como uma das principais demandas da região, e o tema aparecia frequentemente nas discussões sobre desenvolvimento.

Em fevereiro de 1976, Corupá recebeu uma central telefônica de 250 terminais e Jaraguá do Sul ganhou outras 300 linhas. A ampliação buscava reduzir essa falta de acesso ao serviço em uma região que crescia rapidamente. Na época, a expansão do serviço era vista como fundamental para acompanhar o crescimento da população, do comércio e das indústrias locais.

Wilhelm Spengler participa de desfile comemorativo dos 100 anos de Jaraguá do Sul em veículo histórico.
Wilhelm Spengler, descendente de um dos fundadores de Jaraguá do Sul, participa do desfile do centenário em 1976 | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

A ligação rodoviária com outras regiões do estado era tratada como prioridade, assim como projetos de urbanização e melhorias nos serviços públicos. O asfaltamento da ligação com a BR-101 e as discussões sobre novos acessos rodoviários eram vistos como fundamentais para sustentar o crescimento econômico que a cidade experimentava.

Além disso, a estrutura pública ainda era limitada. Registros da época mostram que Jaraguá do Sul contava com apenas quatro policiais para atender toda a população, situação que gerava preocupação constante entre autoridades e moradores.

Uma cidade que sempre preservou suas origens

O centenário também despertou interesse pela história local. Livros, exposições, homenagens e pesquisas ajudaram a resgatar personagens ligados à fundação e ao desenvolvimento do município. Os moradores foram convidados a doar fotografias, documentos e objetos antigos para ajudar na criação de um museu histórico.

A iniciativa buscava preservar a memória de uma cidade que crescia rapidamente sem perder a ligação com suas origens.

Carro alegórico representa tradições rurais durante desfile do centenário de Jaraguá do Sul em 1976.
Carro alegórico retrata costumes ligados à colonização e à vida rural durante as festividades do centenário | Foto: Acervo histórico PMJS

Ao mesmo tempo, elementos da cultura dos imigrantes continuavam presentes no cotidiano. Sobrenomes tradicionais, clubes, associações e até conversas em alemão no cotidiano mostravam que as raízes culturais ainda faziam parte da identidade jaraguaense.

Em 1976, publicações em alemão ainda circulavam na imprensa local e algumas empresas valorizavam candidatos que dominavam o idioma. O uso da língua já não era tão comum quanto nas décadas anteriores, mas permanecia vivo em famílias, associações e tradições da comunidade.

Como isso impacta sua vida?

Muitas características que definem Jaraguá do Sul hoje já estavam presentes em 1976. O protagonismo industrial, a valorização da educação, as discussões sobre mobilidade e o orgulho pela própria história faziam parte da cidade no ano do centenário. Revisitar aquele período ajuda a entender como Jaraguá se transformou nas últimas cinco décadas e quais desafios continuam fazendo parte da sua trajetória.

* Edição e colaboração: Gabriela Bubniak

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Maria Eduarda Günther

Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.

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