25 anos do ataque às Torres Gêmeas: o mundo construído sobre os escombros
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25 anos do ataque às Torres Gêmeas: o mundo construído sobre os escombros

Bruno Younes

Publicada em 11/09/2026 / Por Bruno Younes

Resumo da matéria

Há acontecimentos que entram para a História porque foram extraordinários. Outros porque, depois deles, nada permanece exatamente como antes. O 11 de Setembro pertence a essa segunda categoria. Naquela manhã de 2001, os Estados Unidos foram atingidos no coração de seu poder econômico, militar e simbólico. As Torres Gêmeas arderam diante das câmeras, o Pentágono […]

Há acontecimentos que entram para a História porque foram extraordinários. Outros porque, depois deles, nada permanece exatamente como antes. O 11 de Setembro pertence a essa segunda categoria.

Naquela manhã de 2001, os Estados Unidos foram atingidos no coração de seu poder econômico, militar e simbólico. As Torres Gêmeas arderam diante das câmeras, o Pentágono foi atingido e um quarto avião caiu na Pensilvânia. Quase três mil pessoas morreram.

A tragédia foi real. A dor foi real. O terrorismo foi real.

Mas a história daquele dia não terminou quando as torres desabaram. Naquele momento, começava também uma nova história política.

Vinte e cinco anos depois, precisamos olhar para além da fumaça. É preciso perguntar o que foi construído sobre aqueles escombros. E poucas figuras são tão importantes nessa história quanto George W. Bush.

O medo transformado em política

Depois dos atentados, o governo Bush lançou a chamada Guerra ao Terror. O mundo passou a ser apresentado sob uma lógica binária: “Ou vocês estão conosco, ou estão com os terroristas”.

A frase era poderosa porque transformava uma realidade complexa em uma escolha simples. Havia aliados e inimigos, segurança e ameaça, civilização e terror.

Combater a Al-Qaeda era necessário. O problema surgiu quando a luta contra o terrorismo passou a justificar uma política muito mais ampla de vigilância, intervenção militar e suspensão de garantias.

O Patriot Act ampliou os mecanismos de segurança e vigilância. Guantánamo tornou-se símbolo da exceção jurídica. O Afeganistão foi invadido em 2001. Em 2003, veio o Iraque.

O medo deixou de ser apenas uma reação à violência. Tornou-se instrumento de governo.

Quando o Oriente virou suspeito

O 11 de Setembro também fortaleceu uma antiga maneira ocidental de representar o Oriente.

Edward Said demonstrou como o orientalismo construiu historicamente imagens do Oriente como exótico, atrasado, irracional e perigoso. Depois de 2001, esse imaginário ganhou uma nova linguagem: a da segurança.

O árabe tornou-se suspeito. O muçulmano passou a ser questionado sobre terrorismo. O imigrante vindo do Oriente Médio passou a ser observado através de filtros de segurança.

O problema não é apenas o preconceito individual. É a transformação de povos inteiros em categorias de ameaça.

Representar o outro também é exercer poder sobre ele.

O Islã não é a Al-Qaeda. O árabe não é terrorista. O Oriente Médio não é sinônimo de guerra.

O Iraque e a política do inimigo

Os atentados foram cometidos pela Al-Qaeda. O Iraque de Saddam Hussein não foi responsável por eles.

Ainda assim, em 2003, os Estados Unidos invadiram o país sob a justificativa, entre outras, de que Saddam possuía armas de destruição em massa. Elas não foram encontradas.

O regime caiu, mas vieram a insurgência, a violência sectária e a instabilidade. Uma guerra apresentada como necessária à segurança ajudou a produzir uma região ainda mais instável.

A pergunta histórica permanece: quantas decisões tomadas depois do 11 de Setembro foram realmente decisões de segurança e quantas foram decisões de poder?

Fazer essa pergunta não significa relativizar o terrorismo. Significa fazer História.

Algumas vidas têm nome. Outras viram estatística.

As imagens das Torres Gêmeas foram repetidas até se transformarem em memória universal. Conhecemos os rostos de muitas vítimas, seus nomes, suas famílias e suas histórias.

Mas quantos rostos afegãos permaneceram na memória ocidental? Quantas crianças iraquianas? Quantas famílias deslocadas?

A memória também possui hierarquias.

Algumas vidas são apresentadas como indivíduos. Outras aparecem apenas como estatísticas.

É aí que a dimensão política e antropológica do 11 de Setembro se revela. A disputa não é apenas sobre o que aconteceu, mas sobre quem será lembrado, quem será humanizado e quem permanecerá invisível.

Vinte e cinco anos depois

As guerras do Afeganistão e do Iraque não explicam sozinhas todos os conflitos posteriores do Oriente Médio. Mas fazem parte de uma sequência que transformou profundamente a região.

Hoje, diante da devastação de Gaza, algumas perguntas continuam necessárias: por que algumas crianças são vistas primeiro como crianças, enquanto outras são vistas primeiro como pertencentes a um território, religião ou conflito?

Não se trata de dizer que Gaza e o 11 de Setembro são acontecimentos equivalentes. Não são.

Trata-se de perceber uma permanência: a disputa sobre quais vidas serão vistas, ouvidas e humanizadas.

Vinte e cinco anos depois, podemos condenar a Al-Qaeda sem demonizar o Islã. Podemos reconhecer o direito dos Estados Unidos à segurança sem transformar esse direito em licença para guerras ilimitadas. Podemos lembrar as vítimas americanas sem apagar as vítimas das guerras posteriores.

As Torres Gêmeas caíram em poucas horas. Mas algumas estruturas erguidas sobre seus escombros continuam de pé: a vigilância, a militarização, a islamofobia, a política do medo e a ideia de que determinados povos podem ser permanentemente tratados como ameaça.

Por isso, recordar o 11 de Setembro não deve significar perpetuar o medo daquele dia.

Recordar é interrogar o passado.

E talvez a maior homenagem às vítimas seja construir um mundo no qual nenhuma criança precise ser transformada em inimiga para que outra criança possa ser considerada segura.

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