Siga o JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região no Google
E veja as notícias de Jaraguá do Sul e região com destaque nas suas buscas.
Um conselho do fundador da WEG nos anos 70 que continua atual na era da inteligência artificial
Reiner Modro conta como um conselho recebido antes de embarcar para a Alemanha, nos anos 70, virou a base do jeito como ele usa inteligência artificial hoje.
Reiner Modro em podcast promovido pela UNISOCIESC - Foto reprodução YouTube
Resumo completo
Reiner Modro: começou na WEG no início de 1962 e hoje comanda a Modro Consultoria
Eggon João da Silva: presidia a WEG quando orientou Modro antes do estágio na Alemanha
Podcast: gravado em Jaraguá do Sul pela UNISOCIESC, com a professora Priscila na condução
Lucas Lourenço: engenheiro com formação em inteligência artificial pela Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo
Gestão participativa: nasceu na WEG nos anos 70, e Modro afirma ter sido o primeiro coordenador de comitês
Antes de embarcar para um estágio na Alemanha, nos anos 1970, Reiner Modro ouviu do então presidente da WEG, Eggon João da Silva, uma orientação valiosa. Cinco décadas depois, é com ela que o consultor jaraguaense explica como usa inteligência artificial nas empresas que atende.
“Vocês sabem o que nós precisamos, mas uma coisa eu posso te ensinar: não tenha vergonha de perguntar“, contou Modro, relembrando a fala do presidente. “Então isto é inteligência artificial.”
O tema apareceu em um podcast gravado em Jaraguá do Sul pela UNISOCIESC, conduzido pela professora Priscila, com Modro e o engenheiro Lucas Lourenço, especialista em inteligência artificial.
A frase dita antes do embarque para a Alemanha
A WEG havia contratado o escritório de engenharia alemão Dr. Braun para desenvolver o projeto e os cálculos de uma linha de motores fechados, produto que a empresa ainda não tinha no mercado. Modro foi convocado para acompanhar os projetos no escritório e, depois, fazer estágio em uma fábrica de motores.
Foi durante esse período que ele pediu autorização para copiar projetos que não conseguiria desenhar no tempo disponível.
“Eu tive a oportunidade, no momento certo, de fazer a pergunta, se eu podia tirar algumas cópias de alguns projetos que eu não conseguia desenhar e desenvolver durante o período que estava no estágio. E para a minha surpresa eu fui atendido”, relatou.
Ele resume o episódio dizendo que trouxe cinquenta anos de tecnologia para o Brasil e para a WEG dentro de uma mala.
Conteúdos em alta
A leitura que faz hoje da frase não para no ato de perguntar.
“A gente não pode ter vergonha de perguntar, mas tem que saber perguntar, saber perguntar para quem. Por isso eu digo, o conhecimento não é monopólio de ninguém, o conhecimento ele está no universo.”

Da régua de cálculo ao consultor artificial
Quando entrou na WEG, no início de 1962, o equipamento de cálculo de Modro era uma régua.
“Me lembro quando comecei na WEG, em 1962: o meu computador era uma régua de cálculo, a minha inteligência artificial eram os livros. A pesquisa a gente fazia em livros ou mesmo em estágios, em visita a feiras, visita a clientes, a fornecedores. Essa era a IA naquela época”, disse.
A calculadora Facit apareceu só no fim da década de 1960, e a HP no começo dos anos 70. Naquele tempo, segundo ele, “o telefone era uma loteria conseguir telefonar”. Vieram então o telex, o fax e a internet.
O uso que faz hoje da ferramenta ele descreve sem meio-termo.
“Quando tenho uma dificuldade, procuro me assessorar da inteligência artificial. Ele virou meu amigo, ele é meu consultor. O meu consultor é a inteligência artificial.”
Na consultoria, aplica a tecnologia em previsibilidade de vendas, pesquisa de potencial de mercado, análise de competitividade e planejamento estratégico. “A previsibilidade de vendas, que antes era um mistério, passou a ser uma realidade com a inteligência artificial”, afirmou.

O erro que faz a IA acelerar o problema
Lucas Lourenço aponta um déficit anterior à tecnologia. “Desde a década de 80 as empresas brasileiras têm um grande déficit, que é a clareza nas regras do negócio”, disse. Na definição dele, regra de negócio é saber como a empresa determina preço de venda, o que considera meta, o que é eficiência, qual o tamanho do time, como define o markup.
Sem esse desenho pronto, automatizar piora a situação.
“Automação de lixo é só potencialização do caos. Ou seja, dados não consolidados corretamente, informações não processadas corretamente, vão só acelerar ainda mais um potencial erro”, disse Lucas Lourenço.
Ele contou o caso de uma mentoria em que a cliente tentava delegar à IA a criação de peças de endomarketing e não obtinha resultado consistente. “Ela falou: Lucas, eu tentei, fiz isso, fiz aquilo, joguei para uma aqui e outra ali e não ficou bom. Eu falei: espera, não se trata de ferramenta. E eu deixo isso muito claro, não se trata de ferramenta, se trata de clareza.”
Ao listar passo a passo o que a ferramenta precisava saber, os dois chegaram a 18 variáveis que precisavam estar registradas antes. Depois disso, o nível de acerto ficou entre 95% e 96%, segundo o engenheiro.
“Eu sempre digo que eu sou mais especialista em processos do que com IA. Então eu consigo enxergar o processo e botar a IA nele”, afirmou. Ele também estabelece uma condição para começar qualquer automação: “A IA tem que gerar dinheiro, ela tem que gerar ROI. Se não gerar ROI, não tem por que a gente botar esforço.”

Por onde uma empresa pequena começa
Modro discorda da ideia de que inteligência artificial serve apenas a grandes companhias. “Não é verdade. Pode ser aplicado desde a pessoa individual”, disse. Para ele, o obstáculo é outro: “Eu acredito que um dos fatores é o medo. É o medo da inovação, o medo de que é algo que é muito complicado, que vai trazer problemas.”
O ponto de partida, na consultoria dele, é sempre o mesmo.
“Normalmente no gargalo. Todas as empresas têm um gargalo, então na minha consultoria sempre o desafio é identificar onde está o gargalo principal. Às vezes ele está no planejamento de produção, às vezes está em vendas, às vezes está na qualidade, às vezes está no produto, na engenharia.”
A ordem de trabalho ele resume com um ditado que repete: “O ótimo é inimigo do bom. Para eu fazer o ótimo eu primeiro preciso fazer o bom.”
Ele também sustenta que é possível ampliar a lucratividade sem aumentar o faturamento, simulando cenários de ganho de escala, redução de custos, ganho de produtividade ou de qualidade. A análise de valor, segundo ele, mostra em que funções do produto ou do processo a empresa deve concentrar a diferenciação.

Pessoas antes da ferramenta
Para Modro, a inteligência artificial aumenta a exigência sobre quem trabalha.
“A inteligência artificial, quando você prepara um agente, ele na verdade faz as perguntas. Se eu não souber responder as perguntas que ele me fizer, a inteligência artificial não funciona. Eu preciso ter a qualificação, o conhecimento técnico daquele tema para poder responder.”
A consequência prática aparece na qualificação das equipes. “As empresas que não formam pessoas, elas ficam para trás”, disse. “O crescimento e desenvolvimento das empresas vem diretamente com a capacidade das empresas de qualificarem as suas pessoas.”
Lucas Lourenço chega ao mesmo lugar por outro caminho: “Ela faz tudo? Sim, ela faz, mas depende muito de quem está do outro lado conversando com ela.”
Modro conecta o tema à gestão participativa, modelo que nasceu na WEG nos anos 70 e que ele afirma ter ajudado a coordenar como primeiro responsável pelos comitês. Já implantou o sistema em empresas como a Benex, de Indaial.
“A partir do momento que a empresa tem gestão participativa implantada, ela não é mais puxada pela direção, ela é empurrada pelos seus gestores”, disse.
Como isso impacta sua vida?
Jaraguá do Sul tem milhares de pequenas e médias empresas, e a maioria vai encostar em alguma ferramenta de inteligência artificial nos próximos anos. O recado dos dois é que a conta não começa na assinatura do software. Começa em saber responder como a empresa forma preço, o que ela chama de meta e onde está o gargalo. Quem não tem essas respostas escritas vai pagar para acelerar o próprio erro.
A síntese fica com a frase que Modro repete desde os anos 70.
“Eu não preciso saber tudo, mas eu tenho que saber quem sabe. Se eu sei quem sabe, eu busco o conhecimento.”
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.