Ex-presidente da WEG, Décio da Silva revela um dos maiores erros das empresas familiares
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Ex-presidente da WEG, Décio da Silva revela um dos maiores erros das empresas familiares

Max Pires

/ Por Max Pires

Atual presidente do Conselho de Administração da WEG, empresário explica por que confundir os papéis de acionista e gestor pode comprometer o futuro dos negócios familiares.

Resumo da matéria

Décio da Silva, ex-presidente da WEG e atual presidente do Conselho de Administração, apontou um dos principais erros das empresas familiares: a dificuldade de separar o papel de acionista das responsabilidades de quem participa da gestão. Durante um encontro empresarial promovido pelo LIDE Santa Catarina, ele compartilhou experiências sobre sucessão, governança corporativa e preparação das novas gerações. O empresário também explicou como a família controladora da WEG organiza suas relações e preserva os valores que ajudaram a transformar a companhia de Jaraguá do Sul em uma multinacional.

A WEG, de Jaraguá do Sul, tornou-se uma das maiores fabricantes de equipamentos elétricos do mundo. Entretanto, manter uma empresa familiar ao longo de diferentes gerações exige cuidados que vão além dos resultados financeiros. Para Décio da Silva, ex-presidente da companhia, um dos maiores problemas está na dificuldade de separar os papéis de proprietário e gestor.

Atualmente à frente do Conselho de Administração da WEG, Décio abordou o assunto durante um encontro promovido pelo LIDE Santa Catarina. O evento ocorreu em 16 de outubro, na sede da Energiluz, em São José, na Grande Florianópolis. Na ocasião, o empresário compartilhou experiências sobre governança, sucessão familiar e mecanismos para garantir a continuidade dos negócios.

Foto: Divulgação

O erro que Décio da Silva identifica nas empresas familiares

Durante sua participação, Décio chamou a atenção para uma situação comum em negócios administrados por famílias. Muitas vezes, os direitos de quem possui participação na empresa acabam se confundindo com as responsabilidades de quem trabalha diretamente na gestão.

“Seja uma empresa pequena, média ou grande, é importante você saber exatamente qual é o chapéu que você veste. Nas empresas familiares, um dos maiores problemas que eu vejo é a dificuldade de separação do acionista executivo do acionista normal”, afirmou.

Na prática, isso significa reconhecer que um integrante da família pode ser acionista sem necessariamente ocupar um cargo executivo. Por outro lado, quem participa da administração precisa ter responsabilidades bem definidas, independentemente dos vínculos familiares.

Essa preocupação, aliás, não é recente na trajetória de Décio. Em 2021, durante uma palestra na Associação Empresarial de Guaramirim (Aciag), o empresário já havia destacado a importância do planejamento, da gestão participativa e da sucessão empresarial. Na ocasião, ele abordou práticas que ajudam a garantir a continuidade de empresas de diferentes portes.

Foto: Raphael Günther

Como a família fundadora da WEG organiza a sucessão

Décio também explicou como funciona a WPA, estrutura empresarial ligada à gestão das participações dos acionistas controladores da WEG. Entre os mecanismos utilizados está o conselho de família, que acompanha o cumprimento do acordo de acionistas. Além disso, o órgão avalia a necessidade de atualizar suas regras.

Segundo o empresário, essa avaliação ocorre a cada cinco anos. Dessa forma, a família consegue revisar os acordos conforme surgem novas gerações e mudam as necessidades dos negócios. Assim, busca manter regras claras para a relação entre os acionistas e a administração.

Outro aspecto destacado foi a participação dos familiares desde a infância. Décio relembrou que, nas primeiras gerações, os encontros sobre os negócios já contavam com crianças de colo. A tradição permanece e, atualmente, inclui a presença de educadores para orientar os mais jovens.

A preocupação com a continuidade também faz parte da história da multinacional jaraguaense. Como mostra o especial produzido pelo JDV sobre os 60 anos da WEG, a companhia passou por diferentes transições de comando. Uma delas ocorreu em 1989, quando Décio assumiu a presidência executiva. Posteriormente, ele passou a integrar o Conselho de Administração, órgão que hoje preside.

“O mundo mudou, evoluiu, mas o que não pode mudar é a coluna vertebral da cultura”, destacou Décio da Silva.

Por que tão poucas empresas familiares chegam à terceira geração?

A dificuldade de manter empresas familiares ao longo do tempo também entrou na discussão. Eduardo Koerich, diretor comercial do Grupo Koerich, participou do encontro ao lado de outras lideranças empresariais catarinenses. Durante sua participação, apresentou números sobre a continuidade desses negócios.

Segundo os percentuais citados por Koerich, apenas 12% das empresas familiares chegam à terceira geração. Já na quarta geração, o índice cai para 3%. Os dados foram apresentados pelo empresário durante o evento, mas a cobertura divulgada não detalhou sua metodologia.

Esses números reforçaram o debate sobre a importância de preparar sucessores e estabelecer regras de governança. Afinal, a continuidade de uma empresa depende de decisões que considerem tanto os interesses dos proprietários quanto as necessidades da administração.

O encontro também reuniu representantes de companhias como Docol, Grupo Herval, Ábaco, Nexti e Cota Real. Ao longo das discussões, os participantes compartilharam experiências de gestão e abordaram maneiras de organizar a sucessão em empresas de diferentes portes.

Uma cultura empresarial construída ao longo de gerações

A preocupação de Décio com a preservação da cultura empresarial também se relaciona à trajetória de seu pai, Eggon João da Silva. Ele fundou a WEG em 1961, ao lado de Werner Ricardo Voigt e Geraldo Werninghaus. Juntos, ajudaram a estabelecer princípios que acompanharam o crescimento da companhia.

Eggon defendia a valorização das pessoas e a formação profissional como elementos fundamentais para o desenvolvimento da indústria. Por isso, essa filosofia marcou a trajetória da WEG e aparece em relatos de profissionais que participaram de sua expansão.

Um desses episódios envolve Reiner Modro, funcionário que viajou à Alemanha em 1970 para buscar conhecimentos técnicos para a empresa. A história, contada pelo JDV em uma reportagem sobre os primeiros anos da WEG, ajuda a compreender a importância da capacitação profissional na formação da cultura empresarial da companhia.

Nesse contexto, a discussão sobre sucessão envolve mais do que escolher quem ocupará os cargos de direção. Também exige definir responsabilidades, preparar novas lideranças e preservar os princípios que orientam o funcionamento do negócio.

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