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A saga das famílias negras expulsas de Jaraguá do Sul que mudaram a história da cidade em 1907
Para reivindicar por um pedaço de chão, três homens caminharam por 30 dias até a capital catarinense. O resultado mudou a geografia social e a história da cidade.
Representação artística da caminhada de Domingos Rosa, João Ventura e Justino de Oliveira até Florianópolis em 1907. Imagem gerada por inteligência artificial.
Resumo completo
Quem: Domingos Rosa, João Ventura e Justino de Oliveira, três trabalhadores negros que chegaram a Jaraguá do Sul em 1876 com o Coronel Emílio Carlos Jourdan
Quando: A expulsão ocorreu em 1907 e a caminhada até Florianópolis aconteceu no mesmo ano
O que aconteceu: Os três foram despejados a ferro e fogo das terras onde moravam havia mais de 30 anos, no centro do que hoje é Jaraguá do Sul
Quem ordenou o despejo: A sociedade formada por Francisco Tavares da Cunha Mello Sobrinho, César Pereira de Souza e Ângelo Piazera, novos proprietários da Colônia Jaraguá
Como foi cumprida a ordem: O mandado foi expedido pelo Juiz de Direito de Joinville e cumprido pelo soldado Gabriel Moraes, que incendiou as casas e destruiu as roças
A resposta: Os três caminharam aproximadamente 30 dias entre ida e volta até Florianópolis, atravessando picadas pela serra de Pomerode, Blumenau, Gaspar, Brusque e Biguaçu
O resultado: O governo estadual concedeu três lotes em terras devolutas na encosta do Morro da Boa Vista, mediante pagamento parcelado
A comunidade fundada: O Povoado Morro da África, com capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário e festa anual celebrada em 26 de dezembro com a dança do Catumbi
Pioneiros relacionados: Calixto Domingos Borges, canoeiro chefe da primeira expedição em 1876, e Maria Umbelina da Silva, babá dos filhos de Jourdan e avó de Eggon João da Silva, fundador da WEG
Legado urbano: A rua Domingos Rosa foi assim nomeada pela Lei Municipal nº 172, de 10 de maio de 1967
Bairros formados pelos descendentes: Boa Vista, Nova Brasília, Vila Lenzi e Ilha da Figueira
Êxodo do morro: A partir da década de 1960, com a industrialização de Jaraguá do Sul e o crescimento de empresas como WEG, descendentes desceram do morro para trabalhar nas fábricas
Fonte principal: Livro "Memórias do Povoado Morro da África e a história dos negros em Jaraguá do Sul", de Egon Lotário Jagnow com colaboração de Beatriz de Lima Alves, publicado em 2019
Quando os primeiros projetos de colonização começaram a surgir em Jaraguá do Sul, homens e mulheres negros já faziam parte da ocupação do Vale do Itapocu.
Eles chegaram à região em 1876, com Emílio Carlos Jourdan, para trabalhar na criação do Estabelecimento Jaraguá, considerado um dos primeiros núcleos de formação da cidade.
Entre esses pioneiros estavam Domingos Rosa, João Ventura e Justino de Oliveira. Em 1907, depois de mais de duas décadas vivendo nas terras onde hoje fica a área central de Jaraguá do Sul, eles e suas famílias foram expulsos com violência.
As casas foram incendiadas. As roças, destruídas. Sem aceitar o despejo como fim da própria história, Domingos, João e Justino decidiram seguir a pé até Florianópolis para pedir ao governo do Estado o direito de ter um lugar para morar. A jornada durou cerca de 30 dias, entre ida e volta.
>> Leia também: Pioneiros negros de Jaraguá: memórias de um povo que resistiu e ajudou a construir a cidade
Os pioneiros que vieram antes da colonização europeia
Para entender a expulsão de 1907, é preciso voltar a 1876. Naquele ano, o Coronel Emílio Carlos Jourdan chegou ao vale do Itapocu trazendo cerca de 60 trabalhadores para erguer um engenho de açúcar nas terras dotais da Princesa Isabel. A maioria desses trabalhadores era de homens negros, vindos do Rio de Janeiro e de províncias do norte do país.
Conteúdos em alta

O canoeiro chefe da primeira expedição que subiu o rio Itapocu até o local onde hoje é a cidade foi um mulato chamado Calixto Domingos Borges. Foi ele quem trouxe o sogro de Jourdan, Charles Cafier, para escolher onde se ergueria o Estabelecimento.
Outros nomes da época que ficaram registrados são Joaquim Francisco de Paulo, pedreiro nascido em alto-mar durante a viagem da África para o Brasil, e Maria Umbelina da Silva, babá dos filhos de Jourdan e avó de Eggon João da Silva, um dos fundadores da WEG.
Quando o Estabelecimento Jaraguá fracassou, em meados de 1880, parte desses trabalhadores foi embora. Outra parte ficou. Eram famílias que haviam construído suas casas nas terras de Jourdan e que continuaram ali, plantando, criando animais, mantendo o pequeno engenho funcionando como dava.
A expulsão de 1907
Com a Proclamação da República, as terras dotais voltaram a ser do Estado. Jourdan retornou em 1895, fundou a Colônia Jaraguá e a vendeu em 1898. A propriedade passou por outras mãos até que, em 1907, foi adquirida por uma sociedade de novos proprietários.

Uma das primeiras providências dos novos proprietários foi pedir à Justiça o despejo das famílias negras que ainda moravam nas terras. Essas famílias não tinham títulos de propriedade. Tinham apenas a posse, mantida desde os tempos de Jourdan, possivelmente como compensação por salários atrasados que nunca foram pagos.
O mandado de despejo foi expedido pelo Juiz de Direito de Joinville. Para cumpri-lo, foi destacado o soldado Gabriel Moraes. O despejo não foi pacífico. As casas foram incendiadas. As roças, destruídas. As famílias, desalojadas com violência.
O fato é registrado no livro Memórias do Povoado Morro da África e a história dos negros em Jaraguá do Sul, do pesquisador Egon Lotário Jagnow, com colaboração de Beatriz de Lima Alves.
A caminhada de 30 dias
Foi nesse contexto que Domingos Rosa, João Ventura e Justino de Oliveira tomaram a decisão. Em vez de aceitarem o despejo, foram a Florianópolis pedir reparação ao governo do Estado. A pé.

O relato chegou até os dias de hoje pela memória oral, principalmente pelo filho de Domingos, o senhor Norberto Rosa, que prestou depoimento ao livro de Jagnow e Alves. Segundo ele, a jornada levou cerca de quinze dias na ida e outros tantos na volta.
Não havia estrada pelo litoral até a capital. O caminho passava por picadões abertos no meio da mata atlântica. De Jaraguá, o trio seguiu pela serra de Pomerode até Blumenau, e de lá rumo a Gaspar, Brusque, Biguaçu até alcançar Florianópolis. Foi aproximadamente um mês de caminhada, entre serras, rios e picadas, para entregar pessoalmente o pedido às autoridades estaduais.
O argumento que levavam era simples: o despejo era injusto, porque eles ocupavam aquelas terras desde os tempos de Jourdan. Não tinham documento, mas tinham a história.
O que conseguiram
O governo atendeu ao pedido. Os três conseguiram autorização para se estabelecer em lotes na encosta do Morro da Boa Vista, em terras devolutas do Estado. Não era um presente. Era uma compra, paga em prestações. Mas era um lugar.
Segundo a historiadora Silvia Kita, do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul, os terrenos foram divididos entre as famílias da seguinte forma: o lote número 1 ficou com Marcos Rosa e o lote 2 com Domingos Rosa. O pagamento foi feito ao longo de cinco anos.

A escolha do local não foi por beleza nem por boa terra para plantar. A encosta do Morro da Boa Vista era íngreme, pedregosa, sem rua, sem acesso fácil a água, sem escola, sem capela.
“O pessoal não foi pra lá porque era bonito. Sabem que aquele morro pra plantação é ruim, cheio de pedra. Não tinha rua. Eram uns picadões que eles mesmos fizeram”, relatou o senhor Juarez Gomes ao livro.
O que a encosta tinha era uma vantagem decisiva: eram terras públicas. Ali, com a concessão estadual em mãos, ninguém poderia mais incendiar suas casas.
O povoado que virou bairro
Domingos, João e Justino fundaram o que viria a ser conhecido como Povoado Morro da África, em referência ao continente de origem dos seus moradores.
Outras famílias negras se juntaram a eles ao longo das décadas seguintes, formando uma comunidade que chegou a ter sua própria capela, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, e sua própria festa anual, celebrada todo dia 26 de dezembro com a dança do Catumbi.

Domingos Rosa teve trinta e seis filhos em três casamentos e viveu até pelo menos os oitenta anos, segundo registros encontrados pelo pesquisador Emílio da Silva. Seus descendentes hoje estão espalhados pelos bairros Nova Brasília, Vila Lenzi, Boa Vista e Ilha da Figueira.
A rua principal que dá acesso ao Morro da Boa Vista leva o nome de Domingos Rosa desde 1967, por força da Lei nº 172.
A partir dos anos 1960, com a industrialização de Jaraguá do Sul e o crescimento de empresas como a WEG, muitos descendentes desceram do morro para trabalhar nas fábricas e foram morar mais perto do centro. Mas a história começou ali, na encosta, depois de uma caminhada de trinta dias até a capital.

Como isso impacta sua vida?
Quem mora em Jaraguá do Sul e passa pela rua Domingos Rosa, sobe o Morro da Boa Vista ou conhece alguém dos bairros Nova Brasília e Vila Lenzi, está em contato direto com o resultado dessa caminhada. A cidade que se orgulha de ter sido fundada por imigrantes europeus também foi construída por homens e mulheres negros que abriram a floresta com Jourdan, perderam suas casas em 1907 e se recusaram a aceitar a expulsão sem resposta. A história está nas ruas. Basta saber para onde olhar.
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Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.