Jaraguá do Sul solidária: histórias de como o voluntariado ajudou a construir a cidade
Há 150 anos Jaraguá do Sul se ergue em mutirão. A solidariedade construiu hospitais, estradas e um corpo de bombeiros muito antes de virar política pública.
O Hospital São José é um exemplo de algo que nasceu da mobilização da comunidade. A montagem mostra o primeiro prédio da instituição, inaugurado em 1936, e um registro de moradores trabalhando em mutirão. | Fotos: Arquivo Histórico
Resumo completo
Um século e meio de história: a solidariedade acompanha Jaraguá do Sul desde a colonização
Obra símbolo: o Hospital São José, erguido por subscrição comunitária nos anos 1920 e 1930
Marco de 1966: fundação do Corpo de Bombeiros Voluntários, que completa 60 anos em 2026
Presente vivo: bombeiros, CVV, APAE e dezenas de entidades seguem movidos por voluntários
Virada legal: a Política Municipal do Voluntariado foi aprovada em dezembro de 2023
Há muitas formas de contar a história de Jaraguá do Sul. Pela força da indústria, pela coragem dos pioneiros ou pela cultura diversa que torna a cidade tão única. Mas a solidariedade talvez seja um dos caminhos mais bonitos de conduzir essa narrativa; pelo espírito voluntário de quem dedicou tempo, trabalho e recursos para cuidar da comunidade.
Foi esse espírito que ajudou a abrir estradas, erguer hospitais, criar entidades, enfrentar tragédias e transformar a vida de milhares de pessoas. Em diferentes épocas, os jaraguaenses abraçaram causas, superaram desafios e mobilizaram o coletivo.
A partir de dezenas de documentos históricos, jornais de época e pesquisas em acervos, o JDV reuniu episódios que mostram como a solidariedade acompanhou o crescimento da cidade ao longo de 150 anos.
>> Esta reportagem integra uma exposição artística e histórica promovida pela A.marie. A mostra reúne memórias da cidade e está aberta à visitação no Casarão Emmendorfer, no Centro de Jaraguá do Sul.
Os primeiros mutirões e campanhas beneficentes
Nas primeiras décadas do século XX, quando Jaraguá do Sul ainda dava os primeiros passos como comunidade organizada, boa parte das necessidades coletivas era resolvida pelos próprios moradores.
Eram os bazares, leilões, festas comunitárias, competições esportivas e mutirões que arrecadavam recursos para manter escolas, construir igrejas, melhorar estradas e amparar famílias em momentos de dificuldade.
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Os jornais da época mostram que essa mobilização já fazia parte da rotina da cidade. Em 1921, um festival promovido pela Escola Evangélica Alemã reuniu moradores de diferentes colônias para arrecadar fundos destinados à instituição. Naquela mesma década, o clube de tiro organizou uma competição beneficente em favor da Escola Reunida, reforçando uma prática que se repetiria nos anos seguintes: envolver a comunidade para financiar projetos de interesse coletivo.
A solidariedade também aparecia diante de situações urgentes. Em 1927, um festival com apresentações teatrais arrecadou recursos para ajudar uma viúva e suas filhas doentes. Dois anos antes, no Natal de 1925, os jornais registraram outro episódio marcante: um bebê abandonado na porta de uma casa na então Jaraguástrasse foi acolhido pela família que o encontrou.

Os mutirões também passaram a fazer parte da rotina da cidade. Em 1926, moradores do Rio da Luz reconstruíram cerca de 15 quilômetros de estrada com trabalho voluntário, sob supervisão da Intendência. A obra melhorou a ligação da comunidade com o restante do município e se tornou um dos primeiros exemplos documentados de mobilização coletiva para solucionar um problema público.
A mobilização que ergueu o Hospital São José
Se existe uma obra capaz de resumir a força do voluntariado em Jaraguá do Sul, ela é o Hospital São José.
Nas primeiras décadas do século XX, a cidade ainda não possuía hospital próprio. Casos mais graves precisavam ser levados até Joinville ou Blumenau por estradas de terra, em viagens longas, lentas e muitas vezes decisivas para a sobrevivência dos pacientes.
Essa realidade era vivida diariamente pelos choferes da cidade, responsáveis por fazer o transporte dos doentes. Foram eles que ajudaram a transformar uma necessidade coletiva em um movimento que mobilizou toda a comunidade.

A ideia começou a ganhar força em 1921 e se consolidou em setembro de 1925, quando uma assembleia pública criou a Sociedade Hospital de Jaraguá. Na mesma reunião, foi aberta uma subscrição popular para arrecadar recursos. Em poucos dias, comerciantes, agricultores, empresários e moradores já haviam contribuído com uma quantia considerada expressiva para a época, dando início a uma campanha que se estenderia por mais de uma década.
O hospital começou a ser construído literalmente pelas mãos da comunidade. Churrascos, bailes, festivais beneficentes, torneios de futebol, rifas e campanhas de arrecadação passaram a fazer parte da rotina da cidade.
Em 14 de novembro de 1926, a pedra fundamental foi lançada durante uma grande festa comunitária, simbolizando uma obra que nasceu do esforço coletivo.

A mobilização, porém, não terminou com o início das obras. Em agosto de 1935, a Sociedade Hospital de Jaraguá repassou o empreendimento ainda em construção à Mitra Diocesana de Joinville, que assumiu a missão de concluir o projeto. Sob a liderança do padre Alberto Jakobs, foi criado um conselho administrativo com estatuto próprio para organizar a gestão da futura instituição.
Mesmo sob administração da Igreja Católica, a comissão responsável pelo hospital reunia católicos e protestantes, um arranjo incomum para a época e que mostrava que o objetivo de oferecer atendimento à população estava acima das diferenças religiosas.
O Hospital São José foi inaugurado em 22 de novembro de 1936, diante de cerca de mil pessoas reunidas em uma missa campal. A cidade finalmente conquistava o hospital pelo qual havia trabalhado durante mais de uma década.
Anos depois, a participação dos choferes nesse movimento seria eternizada no nome da Rua Motoristas de 1936, que leva até o atual Hospital e Maternidade Jaraguá e preserva a memória de quem ajudou a transformar uma reivindicação da comunidade em realidade.

>> Recorte no tempo: Enquanto a comunidade unia esforços para concluir esta grande obra coletiva, Jaraguá do Sul também vivia uma transformação política. Em 1934, conquistou a emancipação político-administrativa e deixou de ser distrito de Joinville. A autonomia trouxe novos desafios para uma cidade em crescimento, mas o voluntariado continuou sendo fundamental na construção de serviços e instituições que marcariam as décadas seguintes.
A solidariedade ganhou escala durante a 2ª Guerra
A década de 1940 marcou uma nova fase do voluntariado em Jaraguá do Sul. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942, a mobilização comunitária passou a integrar um esforço nacional. Campanhas beneficentes ganharam dimensão inédita e envolveram moradores, comerciantes e empresas da cidade.
Naquele ano, os jornais publicavam regularmente listas com os nomes de quem contribuía para a Cruz Vermelha Brasileira. As doações financiavam cursos de formação de voluntárias, a compra de materiais médicos e as ações de assistência para apoiar civis e militares brasileiros durante os conflitos.

Junto aos nomes dos colaboradores, os textos reforçavam que a campanha permanecia aberta: quem ainda não havia contribuído poderia procurar a Prefeitura para fazer sua doação. A relação de doadores reunia desde grandes empresas da época até pequenos comerciantes e moradores.
O esforço de guerra também motivou, em 1942, a criação de um núcleo da Legião Brasileira de Assistência (LBA) em Jaraguá do Sul. Presidida pela primeira-dama Darcy Vargas em nível nacional, a entidade foi criada para oferecer apoio às famílias dos soldados convocados para a guerra.

No município, a organização ficou sob liderança de Alzira Aguiar, esposa do prefeito-interventor Leônidas Cabral Herbster, nomeado durante o Estado Novo. O núcleo reuniu mulheres de diferentes comunidades em ações de assistência social e arrecadação.
Diversos anuncios publicados no jornal na época convidava as mulheres a integrarem a entidade, cuja missão era, segundo os registros, “esperar, assistir e servir”.
Mais tarde, a Legião Brasileira de Assistência ampliou sua atuação e passou a desenvolver campanhas voltadas às famílias em situação de vulnerabilidade. Entre as iniciativas estava o tradicional “Natal dos Pobres”, que arrecadava recursos para distribuir roupas, brinquedos e doces a centenas de crianças.

A entidade também participou da campanha do Preventório, em apoio aos filhos de pessoas com hanseníase (à época conhecida como lepra). A LBA permaneceu em atividade até 1995, quando foi extinta pelo governo federal.
Pouco depois, outras organizações femininas também consolidavam uma rede permanente de solidariedade no município. Entre elas estava o primeiro grupo de senhoras evangélicas da comunidade, criado em 1931 e chamado inicialmente de Frauenverein (Grupo de Senhoras).
A entidade nasceu depois que a morte de uma jovem durante o parto mobilizou mulheres da comunidade luterana. O primeiro objetivo foi arrecadar recursos para contratar uma enfermeira-parteira formada e qualificada, que também pudesse auxiliar no atendimento aos demais doentes da comunidade. Para ajudar no pagamento da profissional, as senhoras passaram a organizar bazares com trabalhos artesanais e peças doadas pelos moradores.
O trabalho rapidamente se ampliou, e os recursos arrecadados passaram a apoiar diferentes iniciativas, como a compra dos sinos da Igreja Luterana Apóstolo Pedro, em 1946, a aquisição de objetos utilizados nas celebrações religiosas e a confecção de enxovais destinados ao Hospital e Maternidade Jaraguá.



Ao longo das décadas, o grupo passou por mudanças de nome e organização. Em 1954, o Frauenverein passou a se chamar Frauenhilfe (Grupo de Ajuda) e, posteriormente, consolidou sua atuação como OASE (Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas), uma organização presente em comunidades luteranas de todo o Brasil.
O grupo, cujo lema é “Comunhão, Testemunho e Serviço”, permanece ativo até hoje em diferentes comunidades luteranas de Jaraguá do Sul, mantendo ações de assistência à comunidade.
Esse mesmo espírito de mobilização comunitária também marcou a construção de outro símbolo religioso da cidade. Com o crescimento acelerado de Jaraguá do Sul na década de 1950, a antiga Igreja Matriz São Sebastião já não comportava o número de fiéis.
A comunidade, então, decidiu erguer um novo templo. A demolição da antiga igreja foi concluída em 2 de abril de 1958 e, a partir dali, começaram as obras da nova estrutura, sustentadas pelo trabalho voluntário dos fiéis e coordenadas pelo padre Donato Weimes.




Enquanto homens atuavam na demolição da antiga igreja e na construção da nova estrutura, mulheres e crianças limpavam os tijolos que seriam reaproveitados na obra. Fiéis também ajudaram no transporte de materiais, na montagem dos andaimes e em diversas outras etapas da construção.
O trabalho coletivo transformou o canteiro de obra em um verdadeiro ponto de encontro da comunidade e, em 1962, a nova Igreja Matriz foi inaugurada.

O nascimento dos Bombeiros Voluntários
Se nas primeiras décadas do século XX os moradores se mobilizaram para construir hospitais, igrejas e obras comunitárias, o espírito voluntário da cidade encontrou, nos anos 1960, um novo símbolo: os Bombeiros Voluntários de Jaraguá do Sul.
O movimento começou após um incêndio de grandes proporções, em 1963, que destruiu o edifício da família Mahnke, na Avenida Marechal Deodoro. As chamas consumiram o prédio onde funcionava a empresa Mahnke & Cia. Ltda., atingindo também residências próximas e deixando grandes prejuízos. Moradores correram ao local para tentar salvar objetos e controlar o fogo, mas a proporção do incêndio exigiu ajuda externa, com o acionamento do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville.

Na época, a cidade ainda não contava com uma corporação organizada para combater incêndios e dependia da ajuda de municípios vizinhos ou da mobilização improvisada dos próprios moradores. O episódio deixou claro que Jaraguá do Sul precisava de um serviço permanente para proteger a população.

Jaraguá do Sul. | Ilustração: Ricardo Daniel Treis/JDV
Em agosto de 1966, a resposta veio da própria comunidade. Liderado pelo Lions Clube, o movimento para criar o Corpo de Bombeiros Voluntários reuniu prefeitura, empresários, clubes de serviço e dezenas de moradores. A iniciativa seguiu o modelo já adotado em outros países, no qual cidadãos se voluntariam para atuar no atendimento de emergências após treinamento específico.
A construção da corporação também foi coletiva. A WEG doou a primeira sirene, fabricada pela própria empresa, enquanto a sede foi erguida com recursos arrecadados em campanhas comunitárias e com trabalho voluntário. Empresas colaboraram com materiais, moradores participaram das mobilizações e a cidade ajudou a transformar um projeto em realidade.


Quase seis décadas depois, o modelo continua sendo um dos maiores símbolos do espírito comunitário da cidade. Em 2026, a corporação reúne cerca de 200 integrantes entre bombeiros efetivos e voluntários, mantém uma frota de sete ambulâncias e cinco caminhões e atende aproximadamente 5,5 mil ocorrências por ano, uma média de 20 a 25 chamados por dia.
O vínculo com a comunidade permanece forte. Parte dos recursos que ajudam a manter a corporação ainda é arrecadada por meio de bazares, rifas, pedágios e outras campanhas beneficentes.

Quando o voluntariado ganhou CNPJ
A partir da década de 1970, muitas iniciativas que nasceram da mobilização comunitária passaram a se organizar como associações e entidades permanentes.
Um dos exemplos foi a Ação Social de Jaraguá do Sul. Além de bazares, rifas e campanhas beneficentes, a entidade promovia grandes bailes para arrecadar recursos destinados à construção da Creche Constância Piazera, a primeira do município.
A instituição também recebeu o apoio de voluntárias que fizeram história na cidade, como Lucila Emmendörfer, que mais tarde doou em testamento o casarão centenário da família para que continuasse a serviço da comunidade.

Pouco depois, em julho de 1973, foi fundada a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Jaraguá do Sul. Liderada por Tereza Nicoluzzi em parceria com o Lions Clube, a iniciativa surgiu para atender crianças com deficiência que, até então, não contavam com uma escola especializada na cidade.

Cinco décadas depois, a instituição atende 783 alunos entre crianças, adultos e idosos, mobiliza cerca de 200 voluntários por ano e segue contando com o apoio da comunidade, inclusive por meio das contribuições nas contas de água e energia.
Outras entidades também ampliaram essa rede de solidariedade. O Rotary consolidou campanhas como o Natal da Criança, que passou a beneficiar mais de mil crianças em cada edição, enquanto clubes de serviço, igrejas e associações comunitárias fortaleceram ações permanentes voltadas à educação, à saúde e à assistência social.
Na década de 1980, o voluntariado voltou a ganhar novos contornos. Em 1987, nasceu a Rede Feminina de Combate ao Câncer de Jaraguá do Sul, que passou a reunir voluntárias na orientação de pacientes, no apoio ao tratamento e na promoção de campanhas de prevenção.
Anos depois, a entidade se tornaria uma das principais responsáveis pelas mobilizações do Outubro Rosa no município, envolvendo centenas de empresas, estabelecimentos comerciais e moradores na arrecadação de recursos para exames preventivos.
O voluntariado chegou às empresas
A partir da década de 1990, a cultura do voluntariado ganhou um novo impulso com a participação das empresas. Se antes as mobilizações eram lideradas principalmente por igrejas, clubes de serviço e associações comunitárias, grandes indústrias passaram a incentivar o envolvimento de seus colaboradores em ações sociais e a investir em iniciativas voltadas à comunidade.
Um dos principais exemplos foi a Ação Comunitária da WEG. Em algumas edições, a iniciativa reuniu cerca de 900 voluntários e atendeu aproximadamente 30 mil pessoas em um único dia, oferecendo serviços gratuitos como emissão de documentos, exames de saúde, corte de cabelo, orientação jurídica e atividades de lazer.
Hoje, presente em dezenas de países, a empresa também mantém programas e investimentos sociais em diferentes regiões do Brasil e do exterior.
Com o passar dos anos, o envolvimento da iniciativa privada deixou de acontecer apenas por meio de campanhas pontuais. Em Jaraguá do Sul, empresas passaram a financiar e incentivar projetos que se tornaram parte da rotina da cidade. Grande parte da programação cultural, esportiva e social realizada ao longo do ano depende dessa parceria.
É o caso de iniciativas da Sociedade Cultura Artística (Scar), como o Femusc, a Orquestra Filarmônica, a Orquestra Jovem e o projeto Música para Todos, que há mais de duas décadas oferece aulas gratuitas de música para crianças e adolescentes graças ao apoio de empresas da região. O incentivo também alcança festivais, exposições, espetáculos, oficinas e ações de formação artística abertas à comunidade.

Grande parte desse apoio é viabilizada por mecanismos de incentivo fiscal, que permitem às empresas destinar parte dos impostos a projetos aprovados nas áreas de cultura, esporte e assistência social.
Esse envolvimento, no entanto, não se limita a projetos sociais ou culturais. Em Jaraguá do Sul, tornou-se comum que empresas assumam papel de apoiadoras e patrocinadoras em iniciativas que fortalecem a vida comunitária.
No esporte, por exemplo, ajudam a manter equipes tradicionais, como o Jaraguá Futsal, além de competições de base nas mais diversas modalidades, corridas de rua e grandes eventos esportivos que movimentam milhares de pessoas ao longo do ano.
Da solidariedade espontânea à política pública
Ao longo da história de Jaraguá do Sul, enchentes, pandemias e outras tragédias colocaram à prova o espírito de solidariedade da comunidade. Em diferentes momentos, a resposta foi a mesma: moradores, empresas, entidades e voluntários se organizaram para ajudar quem mais precisava.
Em novembro de 2008, Santa Catarina viveu uma das maiores tragédias climáticas de sua história. Fortes chuvas provocaram mais de 130 mortes e deixaram milhares de pessoas desalojadas. Jaraguá também foi atingida com alagamentos, deslizamentos e prejuízos em diferentes bairros.
Mesmo enfrentando os próprios impactos, a comunidade se mobilizou para ajudar. Igrejas, escolas, empresas, clubes de serviço e entidades abriram as portas para receber alimentos, roupas, colchões, água potável e produtos de higiene, enquanto voluntários atuaram na triagem e distribuição dos donativos para famílias da cidade e de outras regiões atingidas.

Já a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, voltou a mobilizar essa rede de solidariedade. Enquanto profissionais da saúde enfrentavam a emergência sanitária, servidores públicos e artesãos confeccionaram milhares de máscaras de tecido para distribuição à população de baixa renda, principalmente.
Entidades adaptaram eventos tradicionais, como bazares e feijoadas, ao sistema drive-thru para manter a arrecadação de recursos, enquanto campanhas comunitárias garantiram alimentos e produtos de higiene para famílias afetadas pela perda de renda durante o período de isolamento.
Mais recentemente, em 2024, quando as enchentes atingiram fortemente o Rio Grande do Sul, a cidade novamente respondeu de forma rápida. Empresas, entidades e moradores organizaram campanhas de arrecadação que enviaram toneladas de donativos às cidades gaúchas.
Um dos exemplos foi a Barra Independente, torcida organizada do Jaraguá Futsal, que mobilizou a comunidade e arrecadou cerca de 45 toneladas de alimentos, água, roupas, colchões e produtos de higiene, transportados em quatro caminhões até municípios atingidos pelas cheias.
A mobilização dos torcedores voltou a acontecer em novembro de 2025, quando um forte temporal de granizo atingiu Erechim (RS). A Barra Independente transformou uma viagem para acompanhar a equipe em uma ação solidária. Com apoio da comunidade e de patrocinadores, os torcedores arrecadaram quase uma tonelada de alimentos, fraldas e produtos de higiene, entregues às famílias atingidas.

Criação da Política Municipal do Voluntariado
Mais de um século depois dos primeiros bazares beneficentes registrados nos jornais de 1921, a solidariedade continua fazendo parte da identidade de Jaraguá do Sul. E esse legado ganhou reconhecimento oficial no fim de 2023, quando a Câmara de Vereadores aprovou a Política Municipal do Voluntariado, que entrou em vigor em fevereiro de 2024.
A lei nº 9.575/2024 criou regras para organizar e incentivar o trabalho voluntário na cidade, permitindo que moradores participem de projetos desenvolvidos pelo poder público e por entidades em áreas como cultura, educação, esporte, meio ambiente, assistência social e segurança alimentar.
O serviço pode ser prestado tanto em ações pontuais, como mutirões, campanhas e eventos, quanto em atividades permanentes, sempre mediante a assinatura de um Termo de Adesão e sem gerar vínculo empregatício.
Também prevê a capacitação de voluntários e de entidades que promovem ações voluntárias, além de autorizar a criação de um cadastro eletrônico e de um banco de voluntários – cuja implantação ainda será regulamentada por decreto.
Onde mora o voluntariado hoje
O mapa da solidariedade de Jaraguá do Sul é largo; faz parte de uma história que continua sendo escrita diariamente por dezenas de entidades que atuam em diferentes áreas da cidade.
Na Casa do Caminho, por exemplo, voluntárias se reúnem desde 1997 para confeccionar enxovais destinados a bebês de famílias em situação de vulnerabilidade. São cerca de 25 kits por mês, produzidos com retalhos, lãs e tecidos doados pela comunidade. O material que sobra abastece bazares beneficentes, cuja renda ajuda a manter a própria instituição.
Na área da saúde, o voluntariado também segue presente. A Rede Feminina de Combate ao Câncer oferece, desde o fim da década de 1980, acolhimento e orientação a pacientes oncológicos. A Associação de Voluntários do Hospital São José acompanha pacientes sem familiares durante a internação e promove atividades como música e teatro dentro da instituição. O Projeto A Semente acolhe pessoas que iniciam o tratamento contra o câncer, enquanto a Mãos Solidárias arrecada recursos para custear exames e consultas de crianças que aguardam atendimento pelo SUS.
Há ainda o CVV (Centro de Valorização da Vida) – há 20 anos na cidade -, que no piso superior da rodoviária mantém uma linha de escuta pelo telefone 188, de graça e sob sigilo, a qualquer hora do dia ou da noite. Cerca de 20 voluntários locais fazem algo em torno de 15 mil atendimentos por ano.
Charles Alexandre Costa, autônomo e voluntário há mais de dez anos, contou ao JDV a importância desse trabalho.
“A proposta do CVV é simples: oferecer um espaço seguro para que qualquer pessoa possa falar sobre o que quiser, no seu tempo e do seu jeito. Sofrer não é bom, ninguém gosta e ninguém quer, mas não é feio sofrer”, acrescenta.
Na inclusão, a AMA (Associação dos Amigos do Autista) atende mais de 350 pessoas com autismo e famílias, a UPDown acolhe famílias na chegada de um bebê com síndrome de Down, e a AJAE (Associação Jaraguaense de Equoterapia) usa a equoterapia como tratamento. Há também lugares que acolhem quem luta contra a dependência química, como a Casa de Apoio Pe. Aloísio Boeing, e grupos que cuidam dos animais abandonados, como a Gang dos Patinhas, entre várias outras.
Algumas das entidades que mantêm o voluntariado vivo em Jaraguá do Sul
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- Corpo de Bombeiros Voluntários – Há 60 anos protege a comunidade no combate a incêndios, resgates, acidentes e atendimentos pré-hospitalares. Emergências, ligue: 193. Como ajudar: (47) 2106-1002 | @bvsc.jaraguadosul
- APAE de Jaraguá do Sul – Fundada em 1973, promove inclusão e garantia de direitos de pessoas com deficiência intelectual, múltipla e autismo, atendendo nas áreas de saúde, educação, assistência social, cultura e esporte. Como ajudar: (47) 3054-2775 | @apaejaragua
- Casa do Caminho – Desde 1997 confecciona enxovais completos para recém-nascidos de famílias em situação de vulnerabilidade. Com doações e trabalho voluntário, entrega cerca de 25 kits por mês. Como ajudar: (47) 9 9115-9004 | @casadocaminhojgs
- Centro de Valorização da Vida (CVV) – Oferece apoio emocional gratuito e sigiloso por telefone, chat e atendimento presencial, funcionando 24 horas por dia graças ao trabalho de voluntários. Como ajudar: (47) 3275-1144 | @cvvjaragua
- Rede Feminina de Combate ao Câncer – Atua desde 1987 na prevenção do câncer de mama e do colo do útero, além de oferecer acolhimento, exames preventivos e apoio a pacientes oncológicos de Jaraguá do Sul e Corupá. Como ajudar: (47) 3275-0268 | @redefemininajaraguadosul
- Projeto A Semente – Acolhe pacientes que iniciam o tratamento contra o câncer com a entrega gratuita de lenços, turbantes, gorros e mensagens de esperança, além de promover ações de conscientização. Como ajudar: (47) 9 9104-6510 | @projetoasemente
- Mãos Solidárias – Arrecada recursos para custear exames, consultas e tratamentos de crianças que aguardam atendimento pelo SUS, além de prestar apoio às famílias em situação de vulnerabilidade. Como ajudar: (47) 9 9747-8290 | @maossolidariasjguadosul
SOL Grupo de Solidariedade – Organiza campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos, roupas e itens essenciais para famílias em situação de vulnerabilidade social. Como ajudar: (47) 9 9902-0221 | @sol.solidariedade
AMA (Associação de Amigos do Autista) – Há mais de 30 anos oferece atendimento especializado para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com serviços de saúde, educação, assistência social e apoio às famílias. Como ajudar: (47) 3373-8863 | @amajaragua - UPDOWN – Acompanha famílias desde o nascimento de crianças com síndrome de Down, promovendo acolhimento, orientação, estimulação precoce e ações voltadas à inclusão. Como ajudar: (47) 9 9708-0227 | @updownjaragua
- AJAE (Associação Jaraguaense de Equoterapia) – Utiliza a equoterapia para promover o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social de crianças, jovens e adultos com deficiência ou necessidades especiais. Como ajudar: (47) 9 9175-4786 | @ajae_equoterapia
- Associação de Voluntários do Hospital São José (AVSJ) – Reúne voluntários que acolhem pacientes e familiares, organizam bazares beneficentes e mantêm projetos como Conforto Oncológico, GPS e Amoração. Como ajudar: (47) 3274-5000 | @voluntarios.hsj
- Doutores Sementinhas – Leva alegria, acolhimento e arte a crianças hospitalizadas, lares e instituições por meio de voluntários caracterizados como palhaços. Como ajudar: (47) 9 9104-6510 | @doutoressementinhas
- Rotary Club – Desenvolve projetos humanitários nas áreas de saúde, educação, meio ambiente e desenvolvimento comunitário, mobilizando voluntários e recursos para ações permanentes. Como ajudar: @rotaryclubjaraguadosul
- Rotaract Club de Jaraguá do Sul – Reúne jovens voluntários que desenvolvem projetos sociais, campanhas solidárias e ações de liderança voltadas à transformação da comunidade. Como ajudar: @rotaractjaraguadosul
- Lions Clube – Atua há mais de seis décadas em projetos de saúde, educação, assistência social e inclusão, integrando uma das maiores redes de voluntariado do mundo. Como ajudar: @lionsjaraguadosul
- Núcleo de Voluntariado Corporativo Acijs – Núcleo que fomenta o voluntariado empresarial, incentivando ações sociais, cidadania e o engajamento dos colaboradores em iniciativas que beneficiam a comunidade. Como ajudar: @nucleovoluntariadocorp.acijs
- Associação de Clubes de Mães de Jaraguá do Sul – Reúne cerca de 470 mulheres em 24 núcleos, promovendo artesanato, capacitação, geração de renda e preservação das tradições locais. Como ajudar: /Clubes-de-Mães-de-Jaraguá-do-Sul
- Casa de Apoio Padre Aloísio Boeing – Acolhe e trata pessoas em recuperação da dependência química, oferecendo atendimento humanizado e apoio para a reinserção social. Como ajudar: (47) 99138-5677 | @ctpadrealoisioboeing
- Comunidade Terapêutica Novo Amanhã – Oferece acolhimento gratuito para homens em situação de vulnerabilidade e dependência química, além de desenvolver ações de prevenção e apoio às famílias. Como ajudar: (47) 3440-1180 | @comunidadenovoamanha
- Associação Amigos em Ação – Mobiliza voluntários para distribuir alimentos, agasalhos, material escolar, brinquedos e auxílio emergencial a famílias em situação de vulnerabilidade. Como ajudar: (47) 9 8822-1707 | @amigosemacaojgs
- Gang dos Patinhas – Grupo de proteção animal que resgata cães e gatos abandonados, promove tratamentos veterinários, adoção responsável e campanhas de conscientização. Como ajudar: @gangdospatinhas
- Ajapra (Associação Jaraguaense Protetora dos Animais) – Atua no resgate, recuperação e encaminhamento para adoção de animais em situação de abandono, além de incentivar a guarda responsável. Como ajudar: @ajaprasc
- Focinhos Carentes – Grupo de voluntários que auxilia famílias em situação de vulnerabilidade a manter seus animais de estimação, arrecadando e distribuindo ração, medicamentos e outros itens para cães e gatos. Como ajudar: @focinhoscarentes_poreles
Histórias individuais de quem mantém essa tradição
A história do voluntariado em Jaraguá do Sul sempre foi sobre pessoas cuidando de pessoas; de quem transforma o ato de servir em parte da própria vida.
É o caso de Amábile Pedrotti, uma importante líder comunitáriaque dedicou sua vida ao voluntariado e ao cuidado com os moradores da região do Rio Molha. Participou da construção da igreja, da escola e da gruta da comunidade e, em 2025, passou a dar nome à Unidade Básica de Saúde do bairro, reconhecimento por uma vida inteira dedicada ao trabalho comunitário.
Ainda entre os nomes que marcaram essa história está Lucila Emmendörfer. Filha dos pioneiros José e Augusta Emmendörfer, ela herdou o casarão que se tornou um dos símbolos do Centro de Jaraguá do Sul e dedicou parte da vida ao trabalho voluntário na Ação Social.
Quando faleceu, em 2017, deixou o imóvel para a entidade por meio de testamento, para que continuasse servindo à comunidade. Também foi responsável pela doação do terreno onde foi construído o Lar das Flores.


>> Leia também: A história do casarão centenário que coroa o Calçadão de Jaraguá do Sul
Outro exemplo é Nelson Luiz Pereira. Desde que chegou a Jaraguá do Sul, em 1978, nunca deixou de doar sangue. Aos 66 anos, mantém um registro de cada doação realizada e pretende continuar até os 69 anos, idade limite para doadores. Segundo o Ministério da Saúde, uma única bolsa de sangue pode salvar até quatro vidas, mas menos de 2% dos brasileiros mantêm esse hábito regularmente.
“Ser servido sem servir é apenas existir. Não há outro sentido de estarmos habitando esse planeta, senão para servir.”
O voluntariado também assume formas que não existiam antigamente. Há cerca de quatorze anos, o tatuador Acácio Dalsochio decidiu oferecer gratuitamente a reconstrução de aréolas mamárias para mulheres que passaram por uma mastectomia em decorrência do câncer de mama.

A iniciativa nasceu após uma sugestão da esposa, Madriane, inspirada pelo relato de uma amiga que enfrentou a doença. Desde então, aproximadamente 600 mulheres passaram pelo estúdio em busca não apenas de uma tatuagem, mas de uma forma de recuperar a autoestima.
“Elas acham que eu estou fazendo algo por elas, mas elas fazem muito por mim. Saio melhor depois de cada história que ouço aqui”, contou ao JDV.
>> Leia também: Como um tatuador jaraguaense devolve autoestima a mulheres após câncer de mama
A renovação dessa tradição também pode ser vista em Bruno Luiz Gonçalves. Aos 36 anos, ele integra o Rotary Club Jaraguá Vale do Itapocu e ajuda a organizar ações como o Costelão e o Almoço das Nações, eventos que arrecadam recursos para entidades da cidade, além de colaborar com projetos de doação de cadeiras de rodas e equipamentos de resgate.
“A responsabilidade social foi construída em casa, por pai e mãe, ainda quando eu era criança. Hoje eu ajudo, amanhã eu posso estar precisando.”
Entre os moradores que reconstruíram estradas em mutirão e o tatuador que devolve autoestima a pacientes com câncer, há mais de cem anos de distância. O gesto, porém, continua o mesmo: dedicar parte da própria vida para melhorar a vida de alguém.
* Edição e colaboração: Gabriela Bubniak

Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.