[Opinião] É o fim da vida simples?
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♫ “Boy, don’t you worry, you’ll find yourself/ Follow your heart and nothing else/ And you can do this, oh, baby, if you try/ All that I want for you, my son/ Is to be satisfied/ And be a simple kind of man” (Simple man; Lynyrd Skynyrd)
Há algo profundamente melancólico em ouvir Simple Man nos dias de hoje. A música, escrita no início dos anos 70, traz conselhos quase modestos para uma vida boa: simplicidade, honestidade, calma, amor verdadeiro, paciência. Nada grandioso. Nada performático. Apenas viver de maneira minimamente equilibrada.
O curioso é que, meio século depois, talvez essas coisas simples tenham se tornado mais difíceis do que nunca.
Paraísos artificiais
A tecnologia está comumente associada à promessa de facilitação da vida. E, de fato, facilita muita coisa. Se o tema for internet e tudo o que veio com ela, a situação fica mais clara. Hoje se trabalha, compra, conversa, estuda, paga contas, marca consultas e resolve problemas diretamente da palma da mão. O smartphone se transformou na maior central de conveniência da história. Mas também virou uma espécie de coleira ao estilo do filme O Sobrevivente (com Arnold Schwarzenegger, de 1987), só que invisível.
Antes, o trabalho tinha endereço e horário. Hoje, está no bolso. Mensagens chegam de madrugada, grupos corporativos não silenciam, e-mails atravessam finais de semana. O expediente deixou de terminar. Em muitos casos, a própria ideia de descanso passou a causar culpa.
A tecnologia economizou tempo em tarefas práticas, mas esse tempo raramente voltou para as pessoas. Foi imediatamente ocupado por mais produtividade, mais demanda, mais urgência e mais estímulos. Nunca a humanidade esteve tão ocupada e cansada.
Conteúdos em alta
Há uma estafa mental coletiva silenciosa em curso. Não necessariamente dramática ou visível. Constante, porém. Uma sensação de exaustão difusa que acompanha milhões de pessoas todos os dias. O cérebro humano não foi projetado para lidar com tamanha quantidade de informação, comparação social, indignação política e disponibilidade contínua.
Antes, o ócio era parte natural da vida. Hoje, tornou-se um ato de resistência. Ficar sem fazer nada parece errado. Não responder imediatamente parece desinteresse. Desconectar-se parece improdutividade. Ou coisas de multimilionários.
No meio desse turbilhão, as coisas essenciais começam a perder espaço. Pais fisicamente presentes, e mentalmente presos à tela. Amigos reunidos sem conversar. Crianças competindo com notificações pela atenção dos adultos. Famílias dividindo o mesmo sofá e cada um em universo digital diferente. A tecnologia aproximou distâncias geográficas e criou distâncias emocionais curiosas.
Sempre alguém versus alguém
Há, ainda, outro elemento que tornou o cotidiano mais pesado: a polarização permanente. Discussões políticas ideológicas invadiram praticamente todos os espaços da convivência humana. Relações familiares, amizades, ambientes profissionais e até entretenimento passaram a ser filtrados por disputas identitárias e narrativas extremadas. A internet transformou divergência em espetáculo e indignação em combustível algorítmico. E viver em estado constante de conflito emocional também cansa.
Talvez o maior paradoxo da era digital é justamente o fato de que foram criadas ferramentas para simplificar a vida e que acabaram produzindo uma sociedade emocionalmente mais complexa, acelerada e fragmentada.
A simplicidade ficou sofisticadamente difícil.
A música tema de hoje parece quase um recado vindo de um mundo distante, onde ainda era possível sentar, conversar, ouvir sem interrupções e construir relações sem mediação permanente de telas.
O problema, como digo sempre, está menos nas ferramentas do que na incapacidade coletiva de estabelecer limites saudáveis para elas.
Está cada vez mais raro conseguir tempo e silêncio, e uma vida minimamente simples em um mundo que parece fazer questão de complicar tudo.
Raphael Rocha Lopes
Disrupção.TUDO! - Raphael Rocha Lopes é advogado e professor. Escreve sobre educação, comportamento e transformação digitais | @raphaelrochalopesadvogado