Instituto de Guaramirim ajuda cientistas a descobrir vírus que ameaça anfíbios da Mata Atlântica; entenda
| Pererecas-macaco (Phyllomedusa distincta) | Foto: Instituto Rã-bugio

Instituto de Guaramirim ajuda cientistas a descobrir vírus que ameaça anfíbios da Mata Atlântica; entenda

Maria Eduarda Günther

Publicada em 26/08/2026 / Por Maria Eduarda Günther

Uma pequena lagoa cercada pela Mata Atlântica em Guaramirim se tornou cenário de uma descoberta que chama a atenção de pesquisadores de vários países. Na RPPN Santuário Rã-bugio, cientistas comprovaram pela primeira vez na América do Sul que surtos recorrentes de ranavírus causaram a morte em massa de girinos e contribuíram para o declínio de uma população de perereca-macaco (Phyllomedusa distincta), espécie nativa da Mata Atlântica.

O estudo revelou uma redução de 83% na reprodução da espécie após os episódios de mortalidade registrados entre 2024 e 2026. A pesquisa envolveu cientistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Zoological Society of London, Espanha e Estados Unidos, e foi publicada em 20 de agosto de 2026 na revista científica Biodiversity and Conservation, da editora Springer Nature.

Reserva de Guaramirim registrou três surtos de mortalidade

A descoberta começou a partir do monitoramento realizado pelo Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade na reserva particular localizada em Guaramirim. O ambientalista Germano Woehl Jr., proprietário da RPPN Santuário Rã-bugio, observou uma grande quantidade de girinos mortos em uma lagoa da área protegida e comunicou pesquisadores especializados em anfíbios.

Girino de anfíbio da Mata Atlântica analisado em pesquisa sobre ranavírus em Guaramirim
Girino coletado durante investigação científica sobre mortalidade de anfíbios em Guaramirim | Foto: Instituto Rã-bugio

O primeiro episódio ocorreu em janeiro de 2024. Depois, novos surtos foram registrados entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e entre novembro de 2025 e março de 2026.

Durante o período analisado, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos. Desse total, 315 eram da espécie Phyllomedusa distincta, conhecida popularmente como perereca-macaco, e nove pertenciam à espécie Boana bischoffi, chamada de perereca-de-pijama.

Os animais apresentavam sinais característicos da infecção por ranavírus, como inchaço abdominal, vermelhidão intensa e hemorragias. As análises laboratoriais realizadas pela equipe da UFPR confirmaram a presença do vírus e as lesões causadas pela doença.

Primeiro caso confirmado em espécie nativa brasileira

O ranavírus é um patógeno conhecido por afetar anfíbios, répteis e peixes. Em diferentes regiões do mundo, pesquisadores já relacionaram o vírus a episódios de mortalidade de anfíbios.

No caso de Guaramirim, porém, o estudo representa o primeiro registro confirmado de mortalidade causada pelo ranavírus em uma espécie nativa de anfíbio no Brasil e a primeira evidência robusta na América do Sul de declínio populacional associado ao vírus.

Girino com sinais de hemorragia analisado em estudo sobre ranavírus em Guaramirim
Foto: Instituto Rã-bugio

A comprovação ocorreu por meio de análises dos tecidos dos animais e do isolamento e sequenciamento genético do vírus encontrado nos girinos.

O trabalho identificou uma nova cepa de ranavírus, ainda não registrada em nenhum outro local do mundo. Segundo os pesquisadores, essa variação apresenta características associadas à alta mortalidade observada na população de Phyllomedusa distincta.

Monitoramento de quase três décadas revelou queda da população

A confirmação do impacto sobre a espécie só foi possível porque a lagoa da RPPN Santuário Rã-bugio possui um histórico longo de acompanhamento ambiental.

Desde 1999, Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl monitoram a reprodução dos anfíbios no local. Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, são contabilizadas as massas de ovos depositadas pelas fêmeas na vegetação próxima à lagoa.

A comparação dos dados históricos mostrou uma redução expressiva na reprodução após os surtos de ranavirose. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, o número de massas de ovos da perereca-macaco ficou 83% abaixo da média registrada entre 1999 e 2004.

Os pesquisadores também analisaram fatores ambientais que poderiam influenciar a mortalidade, como mudanças climáticas e condições da água. No entanto, nenhum fator apresentou relação semelhante à presença do vírus.

Espécie ameaçada vive em área restrita da Mata Atlântica

A Phyllomedusa distincta é uma espécie endêmica da Mata Atlântica. Isso significa que sua ocorrência natural está restrita a esse bioma.

A perereca-macaco é encontrada em uma faixa que inclui o Norte de Santa Catarina, o Leste do Paraná e o Sul de São Paulo, principalmente em áreas de floresta preservada.

Perereca-macaco Phyllomedusa distincta da Mata Atlântica monitorada em pesquisa em Guaramirim
Perereca-macaco (Phyllomedusa distincta), espécie estudada após surtos de ranavirose | Foto: Instituto Rã-bugio

Segundo os pesquisadores, a descoberta aumenta a preocupação porque uma espécie com distribuição limitada demonstrou ser vulnerável ao ranavírus.

O vírus permanece no ambiente e pode voltar a infectar novos girinos durante períodos de reprodução. Na RPPN Santuário Rã-bugio, medidas como a secagem temporária da lagoa e aplicação de cal virgem não impediram novos episódios na temporada seguinte.

Períodos secos podem favorecer avanço do vírus

O estudo também analisou as condições climáticas próximas aos períodos de mortalidade. Os pesquisadores observaram aumento do risco de surtos quando a umidade do ar caiu de cerca de 90% para 65% duas semanas antes dos eventos.

Uma das hipóteses é que a baixa umidade favoreça a multiplicação do vírus e prejudique a defesa natural dos anfíbios contra infecções.

Girinos mortos encontrados em lagoa da RPPN Santuário Rã-bugio em Guaramirim durante pesquisa sobre ranavírus
Girinos encontrados mortos na RPPN Santuário Rã-bugio, em Guaramirim | Foto: Divulgação/Instituto Rã-bugio

Além disso, quando o volume de água diminui, os girinos ficam concentrados em áreas menores da lagoa. Essa proximidade facilita a transmissão entre os animais.

Para os pesquisadores, o acompanhamento de novas áreas será importante para entender o alcance do ranavírus na Mata Atlântica brasileira.

Pesquisa une Guaramirim a uma rede internacional de conservação

O estudo publicado na Biodiversity and Conservation reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros em uma investigação que teve como ponto de partida uma área protegida do Vale do Itapocu.

Além da UFPR e da Unicamp, participaram do trabalho pesquisadores do Zoological Society of London, do Biodiversity Research Institute da Espanha e da University of Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.

A pesquisa integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, apoiado pela FAPESP, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.

Como isso impacta sua vida?

A descoberta feita em Guaramirim reforça a importância das áreas preservadas próximas às cidades. A RPPN Santuário Rã-bugio, além de proteger um fragmento da Mata Atlântica, mantém um histórico de monitoramento que permitiu identificar uma ameaça que poderia passar despercebida.

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