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Instituto de Guaramirim ajuda cientistas a descobrir vírus que ameaça anfíbios da Mata Atlântica; entenda
Pererecas-macaco (Phyllomedusa distincta) | Foto: Instituto Rã-bugio
Uma pequena lagoa cercada pela Mata Atlântica em Guaramirim se tornou cenário de uma descoberta que chama a atenção de pesquisadores de vários países. Na RPPN Santuário Rã-bugio, cientistas comprovaram pela primeira vez na América do Sul que surtos recorrentes de ranavírus causaram a morte em massa de girinos e contribuíram para o declínio de uma população de perereca-macaco (Phyllomedusa distincta), espécie nativa da Mata Atlântica.
O estudo revelou uma redução de 83% na reprodução da espécie após os episódios de mortalidade registrados entre 2024 e 2026. A pesquisa envolveu cientistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Zoological Society of London, Espanha e Estados Unidos, e foi publicada em 20 de agosto de 2026 na revista científica Biodiversity and Conservation, da editora Springer Nature.
Reserva de Guaramirim registrou três surtos de mortalidade
A descoberta começou a partir do monitoramento realizado pelo Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade na reserva particular localizada em Guaramirim. O ambientalista Germano Woehl Jr., proprietário da RPPN Santuário Rã-bugio, observou uma grande quantidade de girinos mortos em uma lagoa da área protegida e comunicou pesquisadores especializados em anfíbios.

O primeiro episódio ocorreu em janeiro de 2024. Depois, novos surtos foram registrados entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e entre novembro de 2025 e março de 2026.
Durante o período analisado, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos. Desse total, 315 eram da espécie Phyllomedusa distincta, conhecida popularmente como perereca-macaco, e nove pertenciam à espécie Boana bischoffi, chamada de perereca-de-pijama.
Os animais apresentavam sinais característicos da infecção por ranavírus, como inchaço abdominal, vermelhidão intensa e hemorragias. As análises laboratoriais realizadas pela equipe da UFPR confirmaram a presença do vírus e as lesões causadas pela doença.
Conteúdos em alta
Primeiro caso confirmado em espécie nativa brasileira
O ranavírus é um patógeno conhecido por afetar anfíbios, répteis e peixes. Em diferentes regiões do mundo, pesquisadores já relacionaram o vírus a episódios de mortalidade de anfíbios.
No caso de Guaramirim, porém, o estudo representa o primeiro registro confirmado de mortalidade causada pelo ranavírus em uma espécie nativa de anfíbio no Brasil e a primeira evidência robusta na América do Sul de declínio populacional associado ao vírus.

A comprovação ocorreu por meio de análises dos tecidos dos animais e do isolamento e sequenciamento genético do vírus encontrado nos girinos.
O trabalho identificou uma nova cepa de ranavírus, ainda não registrada em nenhum outro local do mundo. Segundo os pesquisadores, essa variação apresenta características associadas à alta mortalidade observada na população de Phyllomedusa distincta.
Monitoramento de quase três décadas revelou queda da população
A confirmação do impacto sobre a espécie só foi possível porque a lagoa da RPPN Santuário Rã-bugio possui um histórico longo de acompanhamento ambiental.
Desde 1999, Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl monitoram a reprodução dos anfíbios no local. Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, são contabilizadas as massas de ovos depositadas pelas fêmeas na vegetação próxima à lagoa.
A comparação dos dados históricos mostrou uma redução expressiva na reprodução após os surtos de ranavirose. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, o número de massas de ovos da perereca-macaco ficou 83% abaixo da média registrada entre 1999 e 2004.
Os pesquisadores também analisaram fatores ambientais que poderiam influenciar a mortalidade, como mudanças climáticas e condições da água. No entanto, nenhum fator apresentou relação semelhante à presença do vírus.
Espécie ameaçada vive em área restrita da Mata Atlântica
A Phyllomedusa distincta é uma espécie endêmica da Mata Atlântica. Isso significa que sua ocorrência natural está restrita a esse bioma.
A perereca-macaco é encontrada em uma faixa que inclui o Norte de Santa Catarina, o Leste do Paraná e o Sul de São Paulo, principalmente em áreas de floresta preservada.

Segundo os pesquisadores, a descoberta aumenta a preocupação porque uma espécie com distribuição limitada demonstrou ser vulnerável ao ranavírus.
O vírus permanece no ambiente e pode voltar a infectar novos girinos durante períodos de reprodução. Na RPPN Santuário Rã-bugio, medidas como a secagem temporária da lagoa e aplicação de cal virgem não impediram novos episódios na temporada seguinte.
Períodos secos podem favorecer avanço do vírus
O estudo também analisou as condições climáticas próximas aos períodos de mortalidade. Os pesquisadores observaram aumento do risco de surtos quando a umidade do ar caiu de cerca de 90% para 65% duas semanas antes dos eventos.
Uma das hipóteses é que a baixa umidade favoreça a multiplicação do vírus e prejudique a defesa natural dos anfíbios contra infecções.

Além disso, quando o volume de água diminui, os girinos ficam concentrados em áreas menores da lagoa. Essa proximidade facilita a transmissão entre os animais.
Para os pesquisadores, o acompanhamento de novas áreas será importante para entender o alcance do ranavírus na Mata Atlântica brasileira.
Pesquisa une Guaramirim a uma rede internacional de conservação
O estudo publicado na Biodiversity and Conservation reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros em uma investigação que teve como ponto de partida uma área protegida do Vale do Itapocu.
Além da UFPR e da Unicamp, participaram do trabalho pesquisadores do Zoological Society of London, do Biodiversity Research Institute da Espanha e da University of Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.
A pesquisa integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, apoiado pela FAPESP, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.
Como isso impacta sua vida?
A descoberta feita em Guaramirim reforça a importância das áreas preservadas próximas às cidades. A RPPN Santuário Rã-bugio, além de proteger um fragmento da Mata Atlântica, mantém um histórico de monitoramento que permitiu identificar uma ameaça que poderia passar despercebida.
Maria Eduarda Günther
Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.