Nereu Ramos: por que um ex-presidente do Brasil virou nome de bairro em Jaraguá do Sul?
Fotos: Divulgação e Josiane Soorer/Google Maps
Já parou para pensar no nome do bairro onde você mora? Czerniewicz, Barra do Rio Molha, Vila Lalau, Chico de Paulo… São palavras tão presentes no dia a dia do jaraguaense que, muitas vezes, passam despercebidas. Mas você já teve curiosidade de saber quem ou o que deu origem a esses nomes?
Por trás de cada um deles existe uma história curiosa ou inusitada. Alguns têm relação com a geografia da região, outros vieram de famílias tradicionais ou de personagens que marcaram a cidade; e essas memórias ajudam a entender como Jaraguá do Sul cresceu e se organizou ao longo do tempo.
O bairro Nereu Ramos reúne um pouco de cada um desses caminhos. A história da região começa ligada ao rio, à colonização italiana e à formação de uma comunidade rural no fim do século 19. Mas o nome que hoje aparece nas placas e endereços veio bem depois, e substituiu completamente a forma como a localidade era conhecida pelos moradores da época.
>> Esta é a primeira reportagem de uma série especial do JDV que vai contar a origem dos nomes dos 37 bairros de Jaraguá do Sul. Um convite para olhar a cidade com mais atenção, a partir dos lugares que fazem parte do dia a dia.
O bairro já teve outro nome
Muito antes de se chamar Nereu Ramos, a localidade era conhecida como “Retorcida” pelos locais. Um nome que surgiu a partir da própria geografia da região. Ele fazia referência às curvas acentuadas do rio Itapocu naquele trecho, que funcionavam como ponto de orientação para moradores, colonizadores e viajantes que circulavam pela área ainda no fim do século 19 e início do século 20.

A historiadora Silvia Kita relata que, em documentos históricos religiosos e administrativos, a localidade aparecia registrada de diferentes formas ao longo do tempo, como “Rio Torcido” e “Ribeirão Torcido”. As denominações reforçam a forte ligação da comunidade com o traçado do rio Itapocu, principal referência geográfica da região naquela época.
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Na prática, esse tipo de nome seguia um padrão comum nas comunidades em formação. A identificação dos lugares estava diretamente ligada ao que era visível e funcional no cotidiano, como rios, morros e caminhos. Antes da organização urbana mais estruturada, era a paisagem que definia o nome dos territórios.
A lei que transformou ‘Retorcida’ em Nereu Ramos
A mudança de nome foi oficializada em 5 de julho de 1968, com a aprovação da Lei Municipal nº 194. A partir dela, a localidade de Retorcida passou a se chamar oficialmente Nereu Ramos, por decisão da Câmara de Vereadores e sanção do então prefeito Victor Bauer.

Com a nova denominação, o nome passou a integrar registros públicos, documentos oficiais e a organização administrativa do município. Aos poucos se consolidou no uso cotidiano da população.
O processo de mudança, no entanto, não começou naquele momento. No início da década de 1960, documentos da Prefeitura indicavam a necessidade de reorganização territorial da região, impulsionada pelo crescimento populacional e pela expansão econômica.
Um ofício de 1962 já tratava da criação dos distritos de Nereu Ramos e Itapocuzinho, sinalizando que a localidade ganhava cada vez mais relevância dentro do município.
A ferrovia teve papel importante nesse processo. A estação construída em 1913 como Estação de Retorcida passou, anos depois, a adotar o nome Nereu Ramos, antes mesmo da oficialização por lei. Essa mudança antecipada ajudou a difundir a nova denominação entre os moradores e consolidou o uso do nome na prática, antes de sua formalização jurídica.

Quem foi Nereu Ramos na história do Brasil
Nascido em 1888, em Lages, construiu carreira em um dos períodos mais turbulentos da política brasileira. Durante a Era Vargas, ocupou cargos estratégicos e se consolidou como uma das figuras centrais do PSD, partido que dominou a política catarinense e teve forte influência no país naquele período.
Ao longo da trajetória política, foi governador de Santa Catarina, interventor federal, deputado federal e senador. Também integrou a Assembleia Constituinte responsável pela elaboração da Constituição de 1946, marco da redemocratização brasileira após o Estado Novo.
Em novembro de 1955, assumiu a presidência da República de forma interina em meio a uma grave crise institucional. O país vivia tensão política após a eleição de Juscelino Kubitschek, e Nereu Ramos teve papel importante na garantia da posse do presidente eleito. Até hoje, ele segue como o único catarinense a ocupar a Presidência da República.

A trajetória política terminou de forma trágica em 1958. Nereu Ramos morreu em um acidente aéreo que também vitimou o então governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, em São José dos Pinhais, no Paraná.
O nome do ex-presidente permanece presente em diferentes cidades catarinenses, em ruas, praças, monumentos e bairros. Em Jaraguá do Sul, marcou uma nova fase da organização urbana do município.
A comunidade que existia muito antes de Nereu Ramos
Apesar da mudança de nome, a história do bairro começa muito antes de 1968. Os primeiros moradores chegaram por volta de 1896, adquirindo lotes da Colônia Jaraguá. Entre as famílias estão nomes como Murara, Bertoli, Prestini, Zanghelini e Schiochet.
A formação da comunidade está ligada principalmente à imigração italiana. Muitos colonizadores vieram da região do Trentino e de outras áreas da Itália, trazendo práticas agrícolas e um modo de vida que ainda hoje marca o bairro.
No início, a economia girava em torno da agricultura, com destaque para o cultivo de arroz e banana, além de pequenas produções familiares. Com o tempo, surgiram comércio, serrarias e estruturas que deram base ao crescimento local.
A presença da ferrovia também impulsionou o desenvolvimento, conectando a região com outros pontos do estado e facilitando o transporte de pessoas e mercadorias.

Um bairro que cresceu sem perder as raízes
Hoje, Nereu Ramos é uma das regiões mais tradicionais de Jaraguá do Sul. Localizado no limite com Corupá, o bairro soma mais de 4,8 mil moradores, segundo o Censo 2022 do IBGE, e mistura áreas residenciais, presença industrial e traços da colonização italiana que marcou a formação da comunidade no fim do século 19.
Então, apesar do avanço urbano nas últimas décadas, a comunidade ainda preserva características que ajudam a explicar sua origem ligada à colonização italiana. Ao percorrer as ruas do bairro, ainda é possível encontrar antigas casas de madeira, capelas históricas, pequenas propriedades rurais e famílias que vivem há gerações na região.
O desenvolvimento econômico também transformou o bairro em um importante polo empresarial de Jaraguá do Sul. Grandes empresas com atuação regional e nacional estão instaladas na região, impulsionando empregos, logística e expansão urbana.
O bairro abriga empresas como a Lunelli, Zanotti Construtora, V&M Construtora, Leistung Equipamentos, referência nacional na área hospitalar, e a Gartran Logística, ligada ao setor de transporte e distribuição.
Turismo religioso, natureza e cultura italiana marcam o bairro hoje
Se no passado Nereu Ramos nasceu como uma comunidade rural formada por imigrantes italianos, hoje o bairro também se tornou um dos principais destinos de turismo religioso e cultural de Jaraguá do Sul.
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O principal símbolo da região é a Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, inaugurada em 1952 e considerada um dos cartões-postais do bairro. A igreja chama atenção pela arquitetura e pela ligação histórica com a colonização.
Nos jardins da igreja está o túmulo do Venerável Padre Aloísio Boeing, religioso que viveu por décadas na comunidade e se tornou uma das figuras mais conhecidas da fé católica em Santa Catarina. O local recebe visitantes e peregrinos de diferentes regiões do estado ao longo do ano.

Ao lado da igreja também funciona o Espaço Padre Aloísio, inaugurado em 2022 como centro de memória e acolhimento para fiéis e visitantes. O espaço se consolidou como um dos pontos mais visitados do turismo religioso da cidade.
Mas o bairro vai além da religiosidade. A região preserva paisagens rurais, áreas de mata, rios e estradas cercadas por morros, características que atraem visitantes em busca de tranquilidade, cicloturismo e turismo de natureza.
Nereu Ramos e redondezas também concentra restaurantes saborosos, pesque-pagues (como o caso do Marquesin) e propriedades ligadas ao turismo rural. Entre os atrativos históricos estão antigas casas preservadas, como a Casa Eurides Silveira (1917) e a Casa Vitório Schiochet (1922), na localidade de Ribeirão Grande do Norte.

A região também preserva capelas, construções ligadas à antiga ferrovia e locais que ajudam a contar o início da ocupação da comunidade.
Mais de um século depois da chegada dos primeiros moradores, Nereu Ramos continua crescendo. Mas segue carregando marcas da comunidade rural e italiana que ajudou a formar uma das regiões mais tradicionais de Jaraguá do Sul.
Como isso impacta sua vida?
Os nomes dos bairros ajudam a contar a história de Jaraguá do Sul. Alguns nasceram da geografia, outros vieram de famílias tradicionais ou de personagens que marcaram determinada época. No caso de Nereu Ramos, o nome conecta a história da colonização italiana da região com uma figura que teve destaque na política catarinense e brasileira.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.