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Do vírus ao matrimônio: os diferentes sentidos por trás do verbo “contrair”
Foto: Ilustração/JDV
Tenho implicância com o verbo CONTRAIR. Quando escuto a palavra, sinto um mau presságio: “Lá vem notícia ruim”. Resolvi investigar.
A origem é do latim, como se fosse sinônimo de puxar, arrastar, encurtar, comprimir. Nos meus conhecimentos prévios, já desconfiava disso:
- Juca contraiu o vírus.
- Célio contraiu uma grande dívida.
- Paulo contraiu a panturrilha jogando futebol.
- Até a eleição, a economia vai ficar contraída.
Há uma outra aplicação deste verbo, bem mais importante, que passa batida, embora esteja na vida de cerca de 40% dos brasileiros:
- Luísa e Jeferson contraíram matrimônio.
Quanto a este último uso, longe de mim querer fazer algum julgamento, se seria uma boa ideia ou não, mas posso citar 3 situações que vivi:
No século passado, eu era recém-casado e o meu velho amigo Gorki, veio me cumprimentar:
– Lamas, quer dizer que te casaste?
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– Sim! Agora sou o homem sério.
– E por que não me disseste antes? Eu tirava essa ideia da tua cabeça…
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Semanas depois, um conhecido, o Rogério, um sujeito idoso na época, me cercou com um monte de perguntas sobre alinhamento de expectativas entre o casal que, segundo ele, eu deveria ter feito antes de contrair matrimônio. O tempo, digo, o divórcio, comprovou mais tarde que ele estava certo.
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Esses dias, eu estava combinando um prazo de entrega de um trabalho com uma jovem, que trabalha comigo, com idade para ser minha filha:
– Jussara, pode ser dia 29?
– Não dá, Lamas.
– Mas ainda faltam duas semanas?
– É que no dia 29, vou me casar no civil.
Fiquei meio congelado. Não esperava que jovens ainda se casassem, pois quase 40% das uniões são informais no Brasil, segundo o IBGE. Melhor dizendo, eu achava que as pessoas só contrairiam matrimônio mais maduras ou depois de um bom teste drive.
Assim que ela respondeu, pensei em devolver a frase que ouvi do velho Gorki, mas contraí meu impulso, fiz umas perguntas clichês sobre o noivo e voltei a trabalhar. Esqueci de perguntar se ela conhecia o verbo. Ele será pronunciado no dia 29.
Parafraseando o filósofo Millôr Fernandes (1923-2012): O casamento é uma instituição maravilhosa. Mas quem quer viver numa instituição?
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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora. Quer contatá-lo? Escreva para: marcelolamasbr@gmail.com.
Marcelo Lamas
Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.