Tem um vulcão escondido em Corupá? A curiosa história por trás do Morro do Garrafão
Pedras leves que flutuam na água, relatos de fogo no morro e um estudo de 1984 sustentam a explicação de um vulcão na cidade.
Vista aérea do Morro do Garrafão, em Corupá, com a cidade ao fundo no vale e as montanhas da Serra do Mar no horizonte.
Resumo completo
Local: Morro do Garrafão, em Corupá, no Vale do Itapocu
Altura do morro: 645 metros
Idade estimada do vulcanismo: entre 580 e 600 milhões de anos
Registro mais antigo: estudo do promotor José Alberto Barbosa, publicado no Correio do Povo em 1984
Confirmação científica: Bacia de Campo Alegre-Corupá, mapeada pela CPRM no Projeto BANEO
Risco hoje: nenhum, o vulcão está extinto há centenas de milhões de anos
Esta história começa com uma pedra. Uma pedra leve demais para o tamanho, com aparência de espuma endurecida, vacuolar, capaz de quase flutuar quando jogada na água. Foi esse tipo de rocha que o italiano Attilio Geresetto, prático em mineralogia e morador antigo da região, encontrou nas redondezas do Morro do Garrafão, em Corupá, e levou para análise.
Era uma pedra-pomes, segundo o geólogo que o atendeu; elas não “nascem” em qualquer lugar, saem de vulcões.
Esse foi o primeiro indício documentado de que o Morro do Garrafão guarda mais história do que simplesmente o verde exuberante que embeleza a paisagem.
O estudo que está dormindo desde 1984
O registro mais antigo da história está em um trabalho do promotor de justiça José Alberto Barbosa, publicado no jornal O Correio do Povo em 1984. Barbosa reuniu observações geográficas, políticas e ambientais sobre Corupá, e dedicou um trecho específico à descoberta de Geresetto.
No texto, Barbosa relata que Geresetto identificou cinco prováveis cones vulcânicos no Morro do Garrafão, com vestígios na forma de chaminés rochosas. O italiano falava até em ruídos vindos do morro, que ele acreditava ser atividade subterrânea.
Barbosa, mais cauteloso, sugeria outra causa, como movimentação de águas. O que os dois concordavam é que as pedras achadas ali eram, sem dúvida, vulcânicas. Foi a primeira vez que o assunto saiu do papo de morador para o papel.
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Quando um dos maiores geólogos do mundo entrou na história
Barbosa não parou na descoberta. No mesmo texto, ele conta que o professor João José Bigarella, da Universidade Federal do Paraná, demonstrou interesse direto pelo caso. Bigarella não era qualquer geólogo. Era referência mundial em estudos do supercontinente Gondwana, autor de mais de 200 trabalhos científicos publicados em vários países, e considerado o primeiro grande defensor da preservação ambiental no Brasil. Ele morreu em 2016, aos 92 anos, com a Ordem Nacional do Mérito Científico no grau de Grã-Cruz.
Bigarella manifestou a intenção de levar uma equipe ao Morro do Garrafão. A frase com que ele encerrou o assunto, registrada por Barbosa, virou quase profecia: “No futuro os especialistas falarão.”
O que a ciência diz hoje sobre o vulcão de Corupá
A região onde fica o Morro do Garrafão tem nome técnico na geologia brasileira. Chama-se Bacia de Campo Alegre-Corupá, uma estrutura vulcânica e sedimentar mapeada em detalhe no Projeto BANEO, relatório técnico publicado pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, a CPRM, ligada ao Serviço Geológico do Brasil.
O estudo tem 201 páginas e dedica um capítulo inteiro à geologia das bacias da região. Existe inclusive uma Sub-bacia Corupá reconhecida pela literatura geológica, um Graben de Corupá, e até um Granito Corupá, que pode ser visto ao fundo da paisagem da cidade.

Pelas datações oficiais da CPRM, feitas por método U-Pb em cristais de zircônio, o vulcanismo da região aconteceu entre cerca de 580 e 600 milhões de anos atrás. É um período em que a crosta da região sul do Brasil ainda se ajustava após colisões tectônicas que formavam o supercontinente Gondwana, e o magma encontrava brechas para subir até a superfície. Pesquisa de doutorado defendida em 2023 na USP chegou a faixa de idade compatível, em torno de 605 milhões de anos.
O vulcanismo ali não foi de um cone único, como o de um Vesúvio. O Projeto BANEO descreve quatro estágios: um pré-vulcânico de sedimentação, seguido de um vulcanismo principal com lavas básicas, traquitos, ignimbritos e brechas vulcanoclásticas, depois um estágio de caldeira com ambiente lacustre interno e atividade vulcânica externa, e por fim uma fase de subsidência.
As pedras tipo pomes que Geresetto encontrou décadas atrás são exatamente o resíduo esperado da fase explosiva, com ignimbritos e tufos ácidos.
Em entrevista ao Correio do Povo, o geólogo Normando Zitta confirmou que há milhões de anos existiu, de fato, um pequeno vulcão na região. E foi taxativo sobre o presente: não há nenhuma atividade vulcânica hoje, as rochas estão consolidadas, e a área não apresenta potencial para qualquer tipo de erupção. O vulcão existiu, mas está bem morto.

“Essas pedras eram vulcânicas”
A história também sobreviveu na memória de quem mora na região do morro. Em 2021, o senhor Vingando Millnitz contou à jornalista Natália Trentini, à época com 68 anos, que sua família guardou por décadas um documento de análise das pedras encontradas na localidade.
“Mais ou menos há uns 45, 46 anos, vieram umas pessoas aqui fazendo algumas pesquisas de algumas pedras que existiam no Morro do Garrafão, por onde nós morávamos. Eles levaram essas pedras para um laboratório para fazer análise de qual matéria era achada lá e o resultado veio para o meu pai, um documento, um relatório sobre o que é. Essas pedras eram vulcânicas, lá a quantas centenas ou mil anos, ou o quê, existia um vulcão e ele, na verdade mesmo, é extinto. Não se sabe quando ou onde era, mas as pedras são vulcânicas”, relatou.
Junto com o estudo de Barbosa e o mapeamento técnico da USP, o relatório que Millnitz guarda é mais uma camada da mesma história.

O Morro do Garrafão hoje
Com 645 metros de altura, o Morro do Garrafão fica nas redondezas da Pedra de Amolar, em Corupá. Existe uma trilha que leva ao topo, com vista panorâmica da cidade, e em cerca de uma hora de caminhada é possível chegar ao cume. O caminho é fechado, sem sinalização adequada, e a recomendação é subir sempre com guia que conheça a rota.
Quem chega ao alto pisa, sem perceber, em um sistema que já cuspiu fogo. Não há risco hoje, nem por perto. As rochas estão consolidadas há centenas de milhões de anos, e a região não apresenta atividade vulcânica nem potencial para qualquer tipo de erupção, como confirmou Zitta na mesma entrevista.
Os outros indícios espalhados pela cidade
O Morro do Garrafão não é o único ponto de Corupá onde a memória vulcânica antiga aparece. Pelo menos duas outras formações têm origem ligada a esses derrames de magma de milhões e milhões de anos atrás, em fases distintas da longa história geológica da região.
Uma delas é a Cachoeira da Usina, com queda principal de cerca de 40 metros dentro de uma fenda natural de seis metros de largura. Segundo o pesquisador Henry Henkels, que publicou estudo sobre o local, a fenda é resultado de um derrame vulcânico ocorrido no período cambriano, há aproximadamente 500 milhões de anos. É um capítulo mais recente do mesmo passado vulcânico que formou o Morro do Garrafão, milhões de anos depois das primeiras erupções.
A combinação de rocha vulcânica fraturada com a erosão da água formou um dos cenários mais imponentes do município. A Cachoeira da Usina é uma das paradas da Rota das Cachoeiras de Corupá, hoje em processo de revitalização para reabertura ao público.
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A outra é a Caverna da Fuga, no Parque Ecológico Braço Esquerdo. Os relatos locais apontam que ela também se originou de atividade vulcânica antiga e foi lapidada ao longo do tempo pela passagem do Rio Cachoeira. Tem cerca de 60 metros de extensão, entrada principal junto a uma parte seca, um salão amplo e uma cachoeira no fundo. Conta-se ainda que a caverna serviu de rota de fuga para indígenas Xokleng durante a perseguição pelos colonizadores.

Três pontos diferentes de Corupá. Mesma origem profunda. Um pedaço da história da Terra que poucos sabem que está debaixo dos pés.
Como isso impacta sua vida?
Corupá não tem só montanha, cachoeira e trilha. Tem um capítulo de quase 600 milhões de anos atrás guardado embaixo do Morro do Garrafão, e isso muda a forma de olhar para a cidade da próxima vez que você passar por ali. Quem sobe a trilha está pisando em um vulcão extinto. Quem se molha na Cachoeira da Usina está dentro de uma fenda aberta por magma. Não é folclore, é geologia. E é nossa.
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Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.